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Vida Extra

A música que ficou no ouvido em 2019. Elas foram as capitãs do navio

Na crítica, o ano foi das mulheres. Mas é preciso que isto fique no ouvido

Luís Guerra

Luís Guerra

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Jornalista

No top 25 de 2019 do “Metacritic”, 14 entradas são de discos feitos por mulheres, entre os quais “All Mirrors”, de Angel Olsen

Iconoclastas ao longo de 11 meses, tornamo-nos tradicionais em dezembro — a garantia de um par de milénios de experiência. Pendura-se o calendário do restaurante chinês na porta da cozinha, aguentam-se intervalos de 30 minutos na televisão, com perfumes, chocolates e outras peúgas, a bonomia a esgotar-se a 1 de janeiro quando repararmos que alguém voltou a levar para casa as garrafas de espumante que ficaram por abrir. Junte-se aquela tensão de fim de década (que é só no final do ano que vem, mas ninguém faz as contas assim) e está o caldo entornado. Para trás, o balanço do ano que já foi, a derradeira tradição que consiste em refletir sobre o que nos deu mais prazer — agora diretos ao assunto — ouvir nos últimos 12 meses. E é então que, quase no epílogo dos furiosos anos 10 do século XXI, nos ouvirão dizer: “Deixem-nos parar para pensar.” Alguém que o faça; é para isso que a crítica serve.

Ao longo das últimas semanas, o costume cumpriu-se e, caramba, festejou-se como se fosse outra vez 1999. (Sim, Prince — espreite a lista dos melhores resgates aos arquivos, mesmo aqui ao lado.) As principais publicações em papel, jornais de referência e eminências online do mundo anglo-saxónico (da “Mojo” à “Pitchfork”, do “Guardian” ao “Consequence of Sound”) aperaltaram-se para premiar a música que os últimos 300 e tal dias anteriores exaltaram. Acentuando uma tendência crescente nos últimos anos, a balança do género dos artistas por detrás dos discos desequilibra-se visivelmente: no crivo da crítica, a música feita e interpretada por mulheres toma hoje a dianteira. Reunindo os 10 primeiros posicionados em listas de dezenas das mais relevantes publicações do mundo que fala inglês, o agregador “Metacritic” devolve um top 25 elucidativo deste caminho, no qual 14 entradas são de discos feitos por mulheres — nos cinco primeiros, só “Ghosteen”, o álbum-catarse de Nick Cave, se intromete. O desfile é de respeito (em boa parte dos casos coincidente com as escolhas dos críticos do Expresso): Lana Del Rey, Billie Eilish, FKA Twigs, Angel Olsen, Weyes Blood, Sharon Van Etten, Ariana Grande, Solange, Big Thief… Por cá, a “Blitz” entronizou Lena d’Água, artífice de um regresso inspirado, num disco — “Desalmadamente” — que contou com duas mulheres (Francisca Cortesão e Mariana Ricardo) na produção. Na lista nacional do Expresso, Lena é acompanhada por Aldina Duarte e Maria Reis — nenhuma faz a mesma música —, e é de Manel Cruz, também incluído, um dos mais inspirados ‘hinos’ à mulher feitos na música em Portugal, ‘O Navio Dela’.

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