Perfil

Vida Extra

David Bruno: “A realidade é bem menos interessante do que as histórias vividas na nossa cabeça”

Fomos com David Bruno “mamar cerveja tipo champanhe” na “amazónia chunga”

Chegou esta segunda-feira ao mercado a "cerveja tipo champanhe" que "é tipo frango tipo leitão". David Brut é uma bebida festiva, para "mamar de flute", fruto de uma parceria entre a Musa e o empreiteiro musical David Bruno

Ana Viotti

Imagine uma tarde estival domingueira, a passear junto à orla costeira ao volante de um Fiat Tipo DGT, um monstro da estrada saidinho da fábrica em 1990, ainda pronto para as curvas, para o qual os 160 mil quilómetros de rodagem não são nada. Vidros abertos e a brisa do mar estampada no rosto, à semelhança do inevitável autocolante da discoteca Penélope colado na traseira do bólide.

Esqueça Benidorm e mergulhe no universo de “Miramar Confidencial”, segundo álbum a solo de David Bruno, um “antropólogo da era digital”, “iconoclasta de Mafamude” e “olheiro da portugalidade”. Depois de em 2018 ter colocado o público a dançar “O Último Tango em Mafamude”, o artista (“romântico como Marante, apaixonado tipo Toy”) conduziu-nos este ano até paisagens sonoras repletas de ação, intriga, juras de amor, marisco, Pisang Ambon, promessas à Senhora da Pedra, faturas com contribuinte no nome da empresa e empreiteiros caloteiros tão durões como Steven Seagal.

O epicentro de tudo isto é Vila Nova de Gaia, transformada numa Miami à portuguesa, big bang criativo para um universo kitsch em constante expansão, adocicado com os solos de guitarra de Marco Duarte que nos transportam imediatamente para os anos 1980 ou para qualquer auto-rádio onde uma singela cassete dos Modern Talking ainda more. Trata-se de uma epopeia “propositadamente rasca”, em busca de um tempo perdido que revela o lado B de um Portugal suburbano, onde impera o tráfico de influências, pombos e jantes de automóveis.

Fomos encontrar David Bruno no horto Flor do Norte — um dos muitos lugares que integra a sua mitologia musical, autêntico oásis das donas de casa e repleto de iodo. Ou, nas palavras do próprio, “uma espécie de amazónia chunga”. É, no entanto, outro o aroma floral, com notas de groselha e hibisco, que nos traz aqui.

O homem (que não gosta que lhe “mentem”) sonhou e a Musa fez nascer a obra: David Brut, uma “cerveja tipo champanhe”, requintada e híbrida, “tipo frango tipo leitão”. Eis uma bebida festiva “pa’ mamar de flute”, chegada ao mercado esta segunda-feira e já a piscar o olho ao réveillon. Sempre acompanhada com camarão. Paga o patrão.

Ana Viotti

O David tem que idade?

Tenho 34 anos.

34... E não acha que já tem idade para ter juízo?

[risos] É o que estou sempre a ouvir em casa. Já devia ter, já! Mas não tenho e acho que dificilmente vou ter. Não quero ter juízo. Isso dá muito trabalho.

Falemos então de trabalho. O que faz da vida quando não está ocupado a ser um artista romântico, um “apaixonado tipo Toy”, ou a investigar musicalmente, ao estilo Moita Flores, o rasto de um empreiteiro caloteiro?

Sou formado em Engenharia e atualmente trabalho como diretor comercial de uma pequena empresa de Gaia.

Suponho que o número de identificação fiscal que surge na letra da música “Com Contribuinte” não seja o da empresa...

Ai é, sim senhor! [risos] Esse é o número de contribuinte da empresa onde trabalho. Troquei-o um bocadinho, mas é esse mesmo.

Este horto onde nos encontramos, Flor do Norte, é um dos muitos lugares que integra a mitologia do álbum "Miramar Confidencial". Faz parte do seu imaginário infantil?

Faz parte das minhas memórias da infância. A minha mãe vinha cá muitas vezes e é por isso que o vídeo-álbum tem várias imagens captadas aqui. Este horto, para mim, simboliza uma espécie de amazónia chunga. [risos] Todas as mães e avós de Gaia têm um fascínio por este local e pela sua enorme oferta. Isto é o sonho delas para decorar o jardim ou a casa. É que não é só plantas! Atenção que estamos a falar do maior horto de Portugal. Tens plantas, tens vasos, tens cães de loiça, tens uma secção só com artigos religiosos... É uma maravilha!

Hoje não estamos aqui para inalar iodo, mas para degustar a “cerveja tipo champanhe” que acaba de lançar. É caso para dizer que o prometido, neste caso, é de vidro.

Já tinha a ideia de lançar a minha própria cerveja há muito tempo e agora surgiu o convite da Musa, que tem esta abordagem muito interessante de fazer trocadilhos com nomes de músicos. Não tive hipótese, tive de aceitar! A cerveja chama-se "David Brut" e vem acompanhada pela música "David Brut é TOP". E que momento poderia ser mais perfeito para lançar este tema do que quando chego ao número 1 do top da Antena 3? É uma cerveja Rosé Brut Ale, feita com hibisco e groselha, o que lhe dá este tom rosa. É uma espécie de Espadal, só que mais chique! [risos] A letra já a tinha em mente, foi só adaptar os versos: "cerveja tipo champagne / é tipo frango tipo leitão / David Brut é top / melhor que Dom Perrinhão".

O frango tipo leitão, esse clássico português, foi uma fonte de inspiração?

Isto é tudo um universo de híbridos e o meu sonho é, um dia, comercializar este produto na rede de restaurantes Tourigalo. Mas eles já têm um contrato com uma marca grande. Não vai ser fácil!

Sendo o David um romântico, esta cerveja é ideal para beber a dois?

Claro que é! Antes de mais, porque é uma bebida com bolhinhas. Logo isso já torna tudo mais romântico. E depois é cor-de-rosa, como os flamingos. É uma cerveja muito romântica, sem dúvida.

E acompanha bem que tipo de “comer”?

Marisco, santola, arroz de tamboril! Isso não falha! [risos] Tal como todas as cervejas artesanais, é uma bebida que pede pratos mais elaborados. Deve ser servida em ocasiões especiais, porque é uma pomada muito festiva.

É então um produto que chega a piscar o olho à época de festividades que se aproxima?

A festa de lançamento será precisamente no dia 31 de dezembro, na Fábrica da Musa [em Marvila, na Rua do Açúcar]. Aliás, a música, nuns versos mais à frente, tem uma ponte que diz: "David Brut pa' mamar de flute / no Revelhão / David Brut pa' mamar de flute/ na Comunhão / David Brut pa' mamar de flute / com camarão / David Brut pa' mamar de flute / paga o patrão". São as ocasiões em que se deve beber esta cerveja. Sempre com marisco pelo meio e sempre com o patrão a pagar. [risos] A festa contará também com dj sets do António Bandeiras e do Homem do Robe.

David Bruno e António Bandeiras (Renato Cruz Santos), uma das personagens de carne e osso que germinou no universo criativo do artista

David Bruno e António Bandeiras (Renato Cruz Santos), uma das personagens de carne e osso que germinou no universo criativo do artista

Ana Viotti

Importa contextualizar quem são estas duas personagens, de carne e osso. Uma delas, o António Bandeiras, surge neste segundo álbum a solo e a outra, o Homem do Robe, provém dos Conjunto Corona. Como surgiu cada uma delas?

Foi por acidente. O Homem do Robe surgiu quando desafiámos os nossos fãs para aparecerem num concerto nosso, no Milhões de Festa, com uma meia de vidro na cabeça. Quem o fizesse, podia partilhar o palco connosco e foi assim que nasceu o Homem do Robe. Gostámos tanto da experiência com ele em palco que o convidámos para se juntar a nós em todos os concertos e, de repente, tornou-se na nossa mascote. É ele a estrela dos Corona! O António Bandeiras, na verdade, é o Renato Cruz Santos, o meu fotógrafo. No vídeo-álbum fiz uma série de interlúdios a emular os clássicos video dates dos anos 1980. Convidei-o para entrar num desses vídeos e ele inventou este personagem que é o António Bandeiras, um antigo marinheiro das Caxinas, todo romântico-tuga e muito macho latino. Teve um sucesso enorme e começou a fazer dj sets na abertura dos meus concertos. São personagens paralelas do meu universo, quase como spin-offs, duas luas que andam à volta do meu planeta e que se vão alinhar na festa de 31 de dezembro. Vai ser uma passagem de ano memorável, ainda mais especial porque nessa noite o meu Fiat Tipo DGT faz 30 anos.

Renato Cruz Santos

“O primeiro take é sempre o mais genuíno. Quanto mais se mastiga, menos espontâneo é”

Esta cerveja e o tema alusivo acabam por ser a cereja no topo do bolo, que serve para celebrar o êxito do segundo álbum. Esperava que "Miramar Confidencial" fosse tão bem recebido?

Nada, mesmo! Sempre me vi como um músico de nicho, mas também sei que as pessoas que gostam da minha música mergulham realmente nas maluquices que lhes apresento.

Um maior reconhecimento traz também mais responsabilidade?

Se eu colocar responsabilidade em cima de mim e criar expectativas, vou deixar de fazer música de forma natural e despreocupada. Não é um êxito momentâneo que me cria pressão ou me faz pensar que o próximo trabalho tem de ser ainda maior. Até porque este disco é a melhor prova de que quanto mais inusitado for, melhor será o resultado. Surgiu muito mais rapidamente do que o anterior. Foi feito em apenas dois ou três meses. Tive menos preocupações do que com o “O Último Tango em Mafamude”. Sigo muito a lógica — nos Corona e também no meu trabalho a solo — de que o primeiro take é sempre o mais genuíno. Quanto mais se mastiga, menos espontâneo é. Os ganhos que tens ao repetir várias vezes algo que estás a tentar fazer não superam a genuinidade dos primeiros takes. Cada vez sou mais adepto dessa filosofia.

Ana Viotti

Os seus álbuns são muito mais do que um conjunto de músicas. Há toda uma construção de um conceito, sempre com uma estética associada e muitas referências revivalistas. Essa é uma forma de fortalecer a identidade do seu trabalho?

Sim, é verdade. A minha proposta de valor não está num conjunto de músicas, mas sim no universo que gravita em torno delas. Essa é a minha estratégia, tanto a solo como com os Conjunto Corona.

Depois do primeiro álbum, "O Último Tango em Mafamude", que lhe deu uma boa projeção, tinha já em mente um segundo?

Na verdade, não. Não tinha pensado em nada.

De certa forma, o David foi também um "Interveniente Acidental"?

Sim, isso acontece em todos os meus trabalhos. Há sempre um sinal do destino, um evento engraçado e tem sido sempre relacionado com a minha cidade. O álbum anterior foi mais pensado, este foi mais espontâneo. Deparei-me com murais espalhados por toda a cidade que diziam "Adriano Malheiro Caloteiro" e fiquei intrigado. "O que é isto? É surreal". Então comecei a investigar e a tentar entrar em contacto com o visado.

E que resposta obteve?

Respondeu-me que o assunto estava entregue às autoridades competentes, mas aproveitou para dizer que, se eu precisasse de um empreiteiro, era só falar com ele. [risos] E depois disso tive pessoas, autênticas chantagistas, que me tentaram vender mais informações sobre o Adriano Malheiro, a troco de bitcoins. Mandaram-me contratos de obras dele e fotos do próprio. Da primeira vez, pediram-me 0,2 bitcoins e eu pensei: "até é barato". Mas depois fui ver e percebi que eram para aí 1500 euros. Estão muito caras as bitcoins! [risos] Estava fora das minhas capacidades financeiras, mas mesmo que tivesse dinheiro não queria saber mais. Aquele nome, escrito um pouco por toda a cidade, serviu para eu poder criar uma realidade paralela.

Perdia a magia se a pessoa real surgisse?

A realidade é isso — é bem menos interessante do que as histórias vividas na nossa cabeça.

Capa do álbum "Miramar Confidencial". Qualquer semelhança com o filme "Nico: À Margem da Lei", protagonizado por Steven Seagal, não é mera coincidência

Capa do álbum "Miramar Confidencial". Qualquer semelhança com o filme "Nico: À Margem da Lei", protagonizado por Steven Seagal, não é mera coincidência

Renato Cruz Santos

O David acaba por transformar Miramar quase numa Miami à portuguesa...

Mas é! [risos] E até já foi mais!

Para isso muito contribuem os samples de filmes de ação dos anos 1980. O que mais o fascina nos filmes de Steven Seagal e de Van Damme, ao ponto de ter transportardo essa estética para o álbum "Miramar Confidencial"?

Uma das coisas que eu adoro naqueles filmes é a ausência de noção. Tudo é permitido aos protagonistas. Tudo é levado ao extremo. É tudo exageradamente foleiro, os atores são exageradamente heróicos. Nunca lhes acontece nada, podem sair de uma explosão sem um arranhão. Isso sempre me agradou muito, até porque tem muito a ver com a cultura suburbana portuguesa. Existe essa falta de noção e as pessoas não são comedidas. São muito megalómanas, fruto de um exagero que surgiu nos anos 1980, após a entrada de Portugal na CEE. Era o tempo das vacas gordas e as pessoas estavam cheias de dinheiro para gastar. As próprias moradias construídas naquela época parecem o resultado de uma competição entre vizinhos, para ver quem tem a casa mais espalhafatosa. Valia tudo! Azulejos com imagens de santos, vidros de várias cores, marquises, anexos, sub-anexos. Havia tanto de dinheiro como de mau gosto. Tudo isso está alinhado neste universo de excessos e de ausência de limites.

Todos esses excessos são também simbolizados por alguns dos locais a que faz referência no álbum.

Sim, como por exemplo a discoteca Iodo. Foi lá que supostamente o Rui Reininho escreveu a música "Dunas". Não faltava rigorosamente nada naquela discoteca, desde prostitutas a vereadores. Nem parece que estamos a falar de Portugal. Parece que estamos a falar da Colômbia.

Aproveitando esse desvio para a América do Sul, como é que surge o seu interesse por políticos populistas e empresários trafulhas?

Embora não venere nem concorde com essas pessoas, acho piada ao empreendedorismo dos caloteiros. Porque ser caloteiro é ser empreendedor; estás a construir algo a partir de nada. Ser um aldrabão, um populista ou um caloteiro exige alguma inteligência que, se essas pessoas a usassem para o bem, podia fazer delas grandes indivíduos. Acho piada a isso, a essas pessoas que de alguma forma conseguem triunfar. É quase como ver o Boavista ser campeão. Tu até podes não ser boavisteiro, mas tem uma certa graça.

Renato Cruz Santos

O que ainda há para explorar criativamente em Gaia? E o que torna a cidade tão fértil para o surgimento destas personagens e destes episódios mais bizarros?

Gaia tem quase a mesma população da Islândia. É o terceiro maior município de Portugal, em termos de habitantes. É enorme e tem uma grande variedade de paisagens. Tem a parte junto ao Rio Douro, mais semelhante ao Porto; tem uma parte de praia total; tem a zona interior, como Oliveira do Douro, que é completamente bucólica. A minha imaginação é o adubo, mas a cidade está sempre a dar sementes. Há muitas pessoas especiais e muitas histórias em Gaia.

Tantas sementes que até dá para encontrar um “Lamborghini na Roulotte”.

Tudo aconteceu numa noite em que eu estava a sair do [restaurante] Carpa e em frente ao cemitério de Mafamude havia uma roulotte parada a vender comida. A roulotte estava ali porque o cemitério, pelos vistos, era um hotspot de pokémons. Até tiveram de pôr a polícia à porta durante a noite para que as pessoas não entrassem lá para dentro. Achei maravilhoso e lindo o facto de haver uma roulotte a vender cachorros em frente ao cemitério. Como se isto já não bastasse, um Lamborghini estava estacionado junto à roulotte. Foi a primeira vez que vi um Lamborghini. Alguém que tem dinheiro para ter um Lamborghini, que tem dinheiro para ir comer a qualquer lado, decide ir empanturrar-se com um cachorro aviado numa roulotte em frente ao cemitério de Mafamude. Isso é muito bonito! [risos] É um tema que só toco ao vivo e que não quero gravar. É como um bónus para as pessoas que vão aos concertos.

A música "Interveniente Acidental" é outro exemplo de uma referência a um acontecimento real, que foi o naufrágio do navio Reijin, em 1988.

Era um navio japonês, carregado com milhares de automóveis, que naufragou ao largo de Gaia, na praia da Madalena. E o que fizeram as pessoas? Iam em massa fazer praia na Madalena, almoçavam lá, enquanto ficavam a ver o barco naufragado. Muitas pessoas nadavam até ao navio, outras aproveitavam para roubar peças. À escala, faz quase lembrar o que aconteceu em Chernobyl, quando as pessoas, ao invés de fugirem, iam para lá ver as partículas radioativas a cair do céu. Em Gaia foi quase a mesma coisa: era uma oportunidade imperdível que as pessoas tinham de estar a fazer praia enquanto se maravilhavam a ver um navio enorme naufragado. Era um bom entretenimento.

Renato Cruz Santos

“A minha música é rasca, propositadamente rasca”

Um outro aspeto que define o seu trabalho é a aposta em formatos low budget.

Sim, já editei em cassete, VHS e até em raspadinhas. O álbum "Santa Rita Lifestyle", dos Conjunto Corona, vinha numa raspadinha, igualzinha ao “Super Pé-de-Meia”, da Santa Casa da Misericórdia. Só que a nossa raspadinha chamava-se "Super Pé-de-Meia e Chinelo". As pessoas raspavam e saia-lhes o código para download do álbum. Parecendo que não, é o mais low budget de todos.

Desta vez temos uma edição em DVD piratas.

Sim, com os clássicos DVD pirata Verbatim. Todos estes formatos têm muito a ver com a minha abordagem musical. A minha música é rasca, propositadamente rasca. Eu só tenho um instrumentista, que é o guitarrista Marco Duarte, de resto faço tudo em casa com um portátil. Gravo, misturo e faço tudo em casa. É tudo muito artesanal. Além de ter editado o "Miramar Confidencial" em DVD piratas, eu próprio incentivo todos aqueles que não têm dinheiro para comprar o álbum a pirateá-lo. E eu tenho todo o gosto em assiná-los! Mas apesar desse meu apelo, curiosamente, este álbum foi o que vendeu mais até hoje.

Renato Cruz Santos

Há um trauma que o persegue desde a infância...

[interrompe] Tenho vários, na verdade!

Mas há uma expressão que se tornou traumática e que agora deu origem a uma música. Porque é que não gosta que lhe "mentem"?

Havia um miúdo, cigano, que costumava estar sempre à porta da escola a cravar dinheiro ao pessoal. Era naquele tempo em que os putos diziam: "dá-me o dinheiro, porque se não vou-te revistaaaaar". Se nós lhe disséssemos que não tínhamos, ele atirava: "Vou-te revistar. Se tiveres... Tu sabes que eu não gosto que me mentem". Quando és pequeno, esse tipo de coisas ficam-te gravadas na memória. E essa, "não gosto que me mentem", ficou registada até hoje. Isto foi uma maneira de exorcizar esse demónio da minha infância. [risos]

Este álbum apresenta colaborações com vários artistas. Sendo o David um admirador dos artistas populares, se tivesse de escolher um deles para fazer um dueto, quem seria?

Seria óbvio dizer que escolheria o Toy ou o Marante...

Até porque o Marante foi seu colega de carteira.

Exato! Foi numa altura em que fui apanhado pela polícia em excesso de velocidade. Já era a segunda vez e, para não ficar sem carta de condução, tive de fazer uma formação, uma coisa do género "velocistas anónimos". [risos] E o senhor António, mais conhecido por Marante, era o meu colega de carteira. Foi aí que percebi que ele é uma pessoa muito carismática. Mas se tivesse de escolher alguém para um dueto seria, sem dúvida, o Leonel Nunes, pela criatividade. É o meu sonho! É um mestre da escrita. As rimas dele não são apenas música popular engraçada...

Autor desse clássico "Um pepino entre os tomates"...

Se fores analisar essa letra, vês que não é uma letra comum de programa de domingo à tarde. É um artista complexo, além de que parece o Pablo Escobar. O Leonel Nunes podia, na boa, ser uma personagem da série "Narcos".

Renato Cruz Santos

“Se conseguires encontrar a beleza onde os outros vêem algo mau, mais facilmente serás feliz do que esses que andam à procura do excelente e do ótimo”

De onde brotou a capacidade de encontrar o belo nos elementos mais kitsch da cultura nacional, considerados foleiros pela maioria das pessoas?

Desde muito pequeno, sempre consegui ver valor nas coisas menos boas da vida e acho que isso é muito importante para a nossa felicidade. Se conseguires encontrar a beleza onde os outros vêem algo mau, mais facilmente serás feliz do que esses que andam à procura do excelente e do ótimo. Eu encontro a beleza nas coisas menos boas da cultura portuguesa, até porque são essas que nos definem enquanto povo. Gosto mesmo muito de Portugal! Já viajei muito, mas acho que somos dos povos mais carismáticos do mundo. Os portugueses são muito engraçados e têm um grande sentido de humor. Às vezes são um bocado foleiros? São, mas acima de tudo são carismáticos. O que eu faço é uma espécie de doutrina para valorizar esse lado B de Portugal.

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.