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Vida Extra

Os lúcidos lugares de David Mourão-Ferreira

Num volume com mais de 800 páginas, eis a obra poética completa de um autor canónico da segunda metade do século XX, cujo estatuto está hoje talvez um pouco esbatido

Três décadas depois, a obra poética de David Mourão-Ferreira volta a ser reunida numa edição cuidadíssima

Linguagem animada pela emoção, intensificada pelo ritmo, transfigurada pela metáfora, assim definiu David Mourão-Ferreira a sua poesia. Trinta anos depois da última reunião da obra poética, esta nova edição alargada, cuidadíssima e com um bom aparato biobibliográfico, permite-nos voltar a seguir cronologicamente o percurso de David desde o lirismo tradicional mas não antimodernista, com o grupo da “Távola Redonda”, até ao estatuto de poeta canónico, hoje talvez um pouco esbatido.

“A Secreta Viagem” (1950), livro de estreia, estabelece uma poética que não sofreria modificações significativas ao longo dos anos, mas também indicia algumas contradições menos notadas. “Tutti li miei pensier parlan d’Amore”, declara uma epígrafe de Dante numa colectânea mais tardia, e se essa vocação monotemática é evidente, isso não corresponde, como se julga, a uma constante euforia e plenitude. Escreveu Eduardo Prado Coelho, num prefácio que este volume reproduz, que a secreta viagem é a viagem em torno de um segredo, de um desequilíbrio. Não há poesia mais equilibrada do que esta, mais medida, mais eufónica, mais cantabile, como se nota em inúmeros sonetos, epigramas, inscrições, canções e fados; mas isso nunca esconde a profunda instabilidade do sujeito amoroso. “A cada vulto os sentidos reagem”, diz-se deste Eros impetuoso que experimenta tudo: o gozo e a insatisfação, a fusão e a solidão, espantos e esperas, triunfos, decepções.

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