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Gonga mudou de vida, viajou pelo mundo e abraçou amigos imaginários em Tóquio

"Among Us" é o nome da exposição do artista plástico português que fez voluntariado na Gâmbia, em África, passou pela Antártida, e teve experiências xamãnicas na Amazónia com uma tribo. Depois de uma residência artística em Tóquio, prepara-se para seguir viagem. Conheça a sua história

Tudo começou com uma inquietação, um sentimento que foi crescendo à medida que as responsabilidades cresciam e o tempo escasseava. E depois veio a tristeza. "A pouco e pouco fui me sentindo mais infeliz. Sentia-me profundamente infeliz, meio deprimido", conta ao Vida Extra.

Gonçalo Pires-Marques já tinha vivido várias vidas e começava a duvidar se estava a viver aquela que queria. "Noutra vida fui ilustrador, depois formei-me em Arquitetura. Os trabalhos em jornais como "O Independente" ou o Expresso deram lugar a outro tipo de desenhos e levaram o arquiteto a outro voos. Viveu em Barcelona, voltou a Portugal, abriu estúdio próprio e os negócios começaram a tomar o lugar da arte. "Gradualmente deixei de ser arquiteto para ser empresário" e os sonhos foram empurrados para o fundo da gaveta, até ao dia em que teve coragem de pegar neles e colocá-los em cima da secretária.

"Lembrei-me do miúdo que tinha todos os sonhos do mundo e fazia bonecos", recorda. E essa recordação fez com que Gonga — nome pelo qual é tratado pelos amigos e que é também o seu nome artístico — deixasse o quotidiano casa-trabalho e partisse. Tornar-se nómada, seguir viagem e conhecer o mundo tornou-se um objetivo. Havia de percorrê-lo de uma forma mais livre do que até aí julgava possível. Há um ano não seria, mas em janeiro tudo mudou.

"As pessoas dizem-me que gostavam de fazer algo assim, mas que não podem. Porque ganham pouco ou porque têm cargos importantes. Porque têm filhos ou porque ainda não casaram. São razões para não largar a zona de confronto. Se eu pude..."

Gonga explica que estava sedento por desafios, por experimentar coisas que nunca tinha vivido. Voluntariado na Gâmbia, em África — na preservação de rinocerontes negros —, uma passagem pela Antártida, experiências xamãnicas e medicinas índias na Amazónia com uma tribo. Ou uma residência artística em Tóquio. O impossível estava a materializar-se desde que em janeiro a namorada — à data marketing manager da Uber — deixou o trabalho e alinhou na aventura.

ENCONTRAR-SE CONSIGO (COMO UMA AGULHA NUMA LOJA DE ARROZ)

Apesar da sensação de libertação face à vida quotidiana, Gonga frisa que este não foi um processo fácil e vivido sem receios. "Foi uma catarse" que precisava de ser feita, "não foi um passeio". "A estada no Japão tem sido um reencontro" consigo próprio e isso também se reflete na exposição que agora apresenta na Almost Perfect, na zona de Kuramae, em Tóquio.

É na antiga loja de arroz com mais de 100 anos que o artista português está desde de setembro e onde os seus trabalhos podem ser vistos. Em "Among Us", Gonga apresenta uma série de quadros a tinta japonesa onde estão representados os "amigos imaginários que nunca vão embora, mas que deixamos de procurar". No fundo estão imagens urbanas de quotidiano, "cruzamentos de passadeiras onde ninguém vê ninguém".

Com um trabalho que é também um alerta "para as pessoas pararem um bocadinho nos seus quotidianos urbanos e lembrarem os sonhos e projetos que tinham", o artista recorda como esta chamada de atenção é ainda mais importante numa megametrópole como Tóquio. Um lugar "onde milhões de pessoas vivem para o trabalho, como formigas, autênticos robôs".

Gonga sabe melhor que ninguém que isso não acontece apenas num lugar como a capital japonesa. É que esta é a exposição do trabalho de alguém que "não conseguia encontrar-se na rotina urbana de uma cidade, no caso Lisboa, e que decidiu fazer as pazes com os amigos invisíveis". "Esta exposição não está divorciada da viagem em si", expressa.

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Em destaque na programação cultural do Instituto Camões e visitada por membros da Embaixada Portuguesa em Tóquio, "Among Us" já apareceu também na televisão japonesa NHK — que gravou um programa sobre o bairro em que a galeria Almost Perfect está inserida. Depois do término da mostra, Gonga já sabe o seu destino. E não será um regresso a Portugal. Após a exposição vamos para a China, passar pelo Tibete e fazer voluntariado no Nepal — onde ajudará na reconstrução após o destruidor sismo que assolou o país. "É um bichinho o voluntariado" e desta vez a arquitetura dará uma ajuda.