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O mergulho de Afonso Reis Cabral na anatomia do medo

O escritor de 29 anos, distinguido esta terça-feira com o Prémio Saramago pelo seu romance "Pão de Açúcar", disse que escrevê-lo o obrigou "a mergulhar nessa anatomia do mal"

Rui Duarte Silva

À margem da cerimónia na Fundação José Saramago, em Lisboa, Afonso Reis Cabral disse que escrever este livro "foi particularmente duro e difícil", tendo-se dedicado a tempo inteiro a essa missão, razão pela qual abandonou o cargo de editor.

"Depois punha a mão na consciência e pensava: 'Não importa que seja particularmente duro para mim, importante é que isto fique bem escrito'", contou o autor de 29 anos.

O escritor afirmou-se "muito contente por ter recebido um prémio que foi pensado por José Saramago" e por ter lido todos os romances vencedores das edições anteriores. "É uma alegria agora o meu livro estar entre os livros dos outros", destacou.

No discurso de agradecimento, Reis Cabral disse mesmo sentir "uma alegria de criança", por ser distinguido com o prémio. Sublinhando que o seu compromisso é com a literatura, o autor disse que tem já estruturado um novo romance, no qual irá trabalhar "em breve, durante cerca de um ano", sem adiantar pormenores.

A morte de Amália Rodrigues, há 20 anos, levou Afonso Reis Cabral a escrever. Começou pela poesia, mas é a ficção o que lhe dá mais prazer. "Conhecia Amália como fadista, mas nunca a tinha ouvido realmente, e ouvir aqueles grandes poetas pela voz única e bela da Amália, despertou-me para a poesia", disse.

O autor dedicou o prémio à amiga Ariana Mascarenhas, que foi a primeira pessoa a quem mostrou as primeiras páginas deste romance. Aos jornalistas explicou que, estando ela então hospitalizada, foi "de uma grande generosidade", ter dado parte do seu já pouco tempo à leitura da obra.

"Pão de Açúcar" foi editado no ano passado, e aborda um caso verídico que aconteceu no Porto, o assassinato da transexual Gisberta, em 2006, depois de sucessivos atos de violência e na sequência de um ataque, perpetrado por jovens entre os 12 e os 16 anos, à guarda da instituição católica Oficina de São José.

"Romance compassivo, mas nunca sentimental, 'Pão de Açúcar' é de uma parcimónia exemplar no que respeita à linguagem pela imagística, sobretudo face à dramaticidade comovente dos envolvimentos humanos da sua estória", salientou o jurado Manuel Frias Martins, sublinhando tratar-se de "um grande romance de um jovem autor de quem a literatura portuguesa se deve desde já orgulhar".