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Tudo o que quer saber sobre “A Herdade”, o novo filme-sensação português

O filme “A Herdade”, que se estreia na próxima quinta-feira, é uma aposta num cinema narrativo, com vontade romanesca e a ambição de ser maior do que a vida

Jorge Leitão Ramos

Jorge Leitão Ramos

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Jornalista

Num país onde fazer cinema é sempre difícil, Tiago Guedes tem, em 2019, um ano estranhamente prolífico, já que aparece com dois filmes prontos a chegar ao público: “A Herdade” que, depois de estar nos festivais de Veneza e de Toronto, tem estreia marcada para a próxima quinta-feira; e o comoventíssimo “Tristeza e Alegria na Vida das Girafas” que, após uma boa receção, no IndieLisboa, em maio, terá caminho para fazer nas salas daqui a algumas semanas. “A Herdade”, história de uma família de latifundiários com o tempo português por fundo (dos anos 40 aos anos 90), não foi um projeto que Tiago Guedes tenha originado. Quando nos encontrámos para falar do filme, adiantou logo que a ideia-base foi do produtor Paulo Branco: “O Paulo desafiou o Rui Cardoso Martins para escrever um argumento, ainda sem mim. Depois, quando o Rui terminou o argumento, o Paulo perguntou-me se eu estaria interessado em fazer o filme. Eu li o argumento, mas disse-lhe que teria de mudar algumas coisas, para me apoderar do filme. Tentei que o Rui estivesse envolvido na reescrita, mas senti que ele já estava muito saturado do processo, foram dois anos de escrita, e tinha outros compromissos. Chamámos, entretanto, um argumentista francês, o Gilles Taurand. Ele enviou um primeiro draft e percebi que não seria a pessoa ideal. Então peguei nos materiais que havia e reescrevi tudo a partir disso, sempre com respeito pelo material de origem. Eu não entrei no projeto para fazer algo de diferente, foi para fazer o filme que estava escrito. Mas tive de mudar muita coisa porque o argumento do Rui passava-se em mais épocas, o que seria um problema para executar com os meios de que dispomos, sobretudo no envelhecimento das personagens. E havia uma outra coisa: eu queria trabalhar muito os silêncios e a contenção, e, se estivermos sempre a saltar de época, não se permite sentir as personagens. Percebi isso cedo. Trabalhei com o Paulo sempre muito presente. Presente, no bom sentido de produtor. Está lá para quando é preciso, não foi minimamente impositivo, deu liberdade total. Quando entrámos na produção eu ainda reescrevia coisas. Foi a primeira vez que estive a filmar e, quando chegava a casa, ainda ia escrever. O que no filme se passa nos anos 40 e nos anos 70 ficou praticamente trancado antes de filmar, mas os anos 90 não. Foi na própria rodagem dos anos 70 que se poluiu o que estava pensado para os anos 90. A relação do protagonista com o filho pequeno nos anos 70 fez nascer em mim a vontade de mexer muito na relação pai-filho, nas relações e nas heranças familiares.”

Para um filme com a dimensão e com a ambição de “A Herdade”, os meios são decisivos. De falta de meios, Tiago Guedes não se queixa: “De rodagem, tive o tempo de que precisava, oito semanas. O outro filme [“Tristeza e Alegria na Vida das Girafas”] foi rodado em três. Mas é sempre duro. De pré-produção tive menos, mas foi por opção nossa, conjunta, decidimos filmar naquela data para termos as condições climatéricas que queríamos, de outro modo teríamos de esperar muito.” A escolha de elenco também foi serena. “A primeira peça de teatro que encenei foi com o Albano Jerónimo, é um ator que conheço bem já há algum tempo. Quando pensei no personagem percebi que o ator que o fizesse tinha de reunir as condições de um galã e, ao mesmo tempo, ter qualidades interpretativas que permitissem a profundidade que o papel pede. Naquela faixa etária, não direi que o Albano é único, mas é quase único, tinha de ser. Fiz alguns testes para os outros personagens — não gosto de audições nem de castings abertos, gosto de escolher poucos e fazer alguns testes para perceber, com eles, se se adequam. Para o Albano não fiz testes, convidei-o e ele aceitou, nem pensei em mais ninguém.” Do trabalho com os atores, não se revelam métodos, mas fique-se a saber que faz ensaios antes de filmar, às vezes em cima das filmagens, às vezes com algum recuo. “Neste filme, há um plano-sequência de oito minutos que teve um dia inteiro de ensaios durante a rodagem. É a cena do baile, no casamento. É um plano-sequência, acontecem muitas coisas e eu queria que tivesse a energia do plano único, queria que fosse um trajeto em que o personagem do Albano começa grande e acaba destruído. Precisava mesmo de ensaios. Ensaiei um dia e filmei no dia seguinte. Mas como era uma cena de oito minutos, fazer quatro minutos por dia, não é mau.”

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