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Leão de Ouro para o grande cinema americano em Veneza

O Festival de Veneza não teve controvérsia no palmarés. Em Paris, Polanski deve ter sorrido...

O realizador Todd Phillips e o ator Joaquin Phoenix na hora dos prémios: “Joker” é Leão de Ouro

La Biennale di Venezia/ASAC

Ainda o festival não tinha começado e já o seu diretor, Alberto Barbera, não poupava a língua em elogios, dizendo à “Variety” que “Joker” era o mais surpreendente filme que havia em Veneza este ano. E logo ali vaticinava uma presença nos Óscares, previsão que reforçou para uma certeza após a ovação de oito minutos na estreia mundial do filme na noite de sábado, 31 de agosto. No dia seguinte a imprensa internacional explodia num coro quase unânime de laudas com algumas vozes desdenhosas ou mesmo severamente negativas (como as do “Le Monde” ou da “Time”) . Era praticamente geral o aplauso à interpretação de Joaquin Phoenix (que acabou por não ser espelhado no palmarés), mas o júri, presidido pela cineasta argentina Lucrecia Martel, acabou por ser sensível a “Joker” atribuindo-lhe o prémio máximo do festival, o Leão de Ouro. Para se perceber a importância deste prémio na atual conjuntura cinematográfica mundial — onde a Disney acabou de ingerir a 20th Century-Fox, parecendo ter a intenção de a desmantelar e as plataformas de streaming (como a Netflix ou a Amazon) ganham cada vez maior peso produtivo (streaming onde a Disney vai fazer uma entrada muito em breve e com todo o poder de fogo disponível) — lembre-se que “Joker” é um filme alavancado por uma major (a Warner). Não é usual que as majors ponham filmes a concurso em Veneza e ainda menos que ganhem. É preciso recuar a 1980 para encontrar um Leão de Ouro num filme de uma das Seis Grandes (agora, só cinco...): “Glória” de John Cassavetes, produzido pela Columbia. É certo que, em 2017, “A Forma de Água” também tinha uma major por perto, mas a Fox Searchlight é uma subsidiária e o filme uma produção de menos de 20 milhões de dólares, coisa modesta para as grandes casas americanas. Nada a ver com os 55 milhões que “Joker” terá custado e com a filiação na DC Comics, nada a ver com o previsto lançamento mundial praticamente simultâneo nos primeiros dias de outubro, almejando um efeito tentpole. O gesto de Todd Phillips, indo inventar a génese de um arquivilão de um universo de super-heróis (Batman, neste caso) nunca fora tentado, ainda menos sem que o herói apareça deveras. Para mais, o filme é cheio de negrume, Gotham é inabitável e irremível, o protagonista é um pobre diabo antes de se tornar um profeta do caos. A Warner tem entre mãos um objeto deveras incomum. Precisa do apoio de um grande festival? Não sei se precisa, mas pode dar jeito, sobretudo para o mercado europeu. A coligação de Veneza com o cinema oscarizável tem sido uma diretriz permanente do consulado de Barbera, agora parece estar a reforçar a ligação às majors depois da aliança muito contestada com a Netflix. Este Leão de Ouro sela essa estratégia, um ano volvido sobre a ‘legitimação’ da Netflix com a premiação de “Roma”. Estar de bem com a grande indústria não é inócuo.

Mas Veneza este ano tinha um outro nó a desatar. Nó criado pela pouco avisada declaração da presidente do júri, logo no início do festival, dizendo sentir-se incomodada com a presença do filme de Polanski e recusando estar presente na projeção de gala e no jantar oficial a ele dedicado. Isto apesar de se saber que o realizador não se deslocaria ao festival, por temer possíveis problemas judiciais, já que a Itália tem um tratado de extradição com os Estados Unidos, país onde Roman Polanski continua a ser considerado um foragido à justiça, por causa de um caso de sexo com uma menor nos anos 70. Acontece que “J’Accuse”, filme sobre uma das grandes vergonhas judiciárias e políticas da França nos anos de transição dos séculos XIX/XX, é uma obra de imenso fôlego que impressionou todos os que seguiam o festival. Como passou logo nos primeiros dias, a expectativa quanto à sua presença, ou não, no palmarés foi uma constante, tanto mais que, no cômputo geral da crítica, se podia dizer que era o filme mais amado da 76ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica. O segundo prémio mais importante da Competição Oficial que o júri lhe atribuiu acabou por ser um bom desfecho.

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