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A arte que Mexe com a política e a comunidade no Porto

O Encontro Internacional de Arte e Comunidade realiza-se no Porto, a partir desta sexta-feira e até 22 de setembro, com mais de 70 propostas culturais, apresentadas por 27 grupos provenientes de seis países

O espetáculo brasileiro "Quando Quebra Queima" é um dos destaques da programção do Mexe

Mayra Azzi

“Assumimos os riscos, porque é no risco que conseguimos encontrar novas alternativas”. A afirmação pertence a Hugo Cruz, diretor artístico do Mexe - Encontro Internacional de Arte e Comunidade, realizado no Porto a partir desta sexta-feira e até 22 de setembro. A quinta edição do evento bianual, gizado em 2011 pela associação PELE, regressa com mais de 70 propostas culturais, concebidas através de processos participativos entre 27 coletivos e as populações locais, onde o esforço é sempre protagonista.

“Há uma tendência para romantizar a criação e não se presta atenção às dificuldades de construção de um processo artístico. Assumir e enfrentar essa realidade é também uma forma de resolver esses impasses e conflitos”, considera Hugo Cruz, para quem “do conflito podem sempre sair soluções positivas”.

O objetivo é, frisa o responsável, “intervir na realidade política e social”, num ano em que “o comum” é o eixo programático de um festival inclusivo, onde cabem todas as cores da diversidade, pintada no cartaz com criações de Portugal, Brasil, Espanha, Itália, Uganda e Tanzânia.

A oferta de acesso gratuito passa por 22 espaços da cidade, contempla seis oficinas artísticas e ainda um Pré-Mexe que arranca já esta sexta-feira, com a exibição de sete documentários até domingo.

Uma interrogação atravessa o Atlântico: “Isto é um Negro?” O espetáculo da companhia “EQuem Égosta?” — apresentado em estreia nacional no dia 21 de setembro, no Teatro Carlos Alberto — espelha o que é ser negro no Brasil e questiona a perpetuação do racismo estrutural. A peça, tal como outras que integram o Mexe, conta com tradução em Língua Gestual Portuguesa. A mesma sala de espetáculos acolhe “Synectikos”, a mais recente criação do espanhol Coletivo Lisarco, em que bailarinos com Síndrome de Down sobem ao palco do TeCA no dia 20.

Outra proposta brasileira é levada à Escola Alexandre Herculano, no dia 22, pela companhia ColectivA Ocupação, pronta para mostrar que “Quando Quebra Queima”, onde 16 corpos insurgentes deslocam para a cena a experiência que tiveram num processo criativo que envolveu a ocupação de escolas.

Bailarinos com Síndrome de Down dão corpo ao espetáculo "Synectikos", do Coletivo Lisarco, que sobe ao palco do Teatro Carlos Alberto no dia 20 de setembro

Bailarinos com Síndrome de Down dão corpo ao espetáculo "Synectikos", do Coletivo Lisarco, que sobe ao palco do Teatro Carlos Alberto no dia 20 de setembro

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“Empty the Space” chega do Uganda e “transforma o movimento num diálogo sobre o espaço nos tempos modernos, num jogo constante entre a dança contemporânea e os ritmos mais tradicionais de África”, como se pode ler na sinopse do espetáculo concebido por António Bukhar e Faizal Ddamba. O espetáculo invade, às 20h30 do dia 18, o Jardim de São Lázaro, transformado na “Mexe Praça” para esta edição, local onde diariamente será publicado um fanzine do evento e por onde vai passar o filósofo Vladimir Safatle para uma conversa centrada nos limites da dicotomia entre humanidade e animalidade.

O jardim servirá também de palco aos concertos de Fado Bicha, do grupo comunitário de hip hop Oupa Cerco, do Coro da Fundação Manuel António da Mota e ainda do projeto TumTumTum.

O Mexe alberga ainda a 3.º edição do EIRPAC - Encontro Internacional de Reflexão sobre Práticas Artísticas Comuns, realizado entre 16 e 18 de setembro na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A iniciativa congrega mais de 100 investigadores de todo o mundo, numa parceria entre noves academias portuguesas e brasileiras.

Se alguma dúvida existe, Hugo Cruz, dissipa-as, “sem medo”, em “tempos de confusão”: “O Mexe é um festival de arte e política, claramente”, numa perspetiva, explica o programador, de “retroalimentação” e que “permite à arte questionar a vida pública” num país em que “a cultura fica para uma elite”.

O estereótipo de que “alguém mais desfavorecido tem é de trabalhar, sendo o artista olhado como alguém que não trabalha” ainda se perpetua, defende o mentor de uma iniciativa que combate a “expressão normativa” e as “relações de poder ultra estabelecidas que nem sequer são questionadas”.

A programação integral e outras informações podem ser consultadas AQUI.