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Esculturas pós-humanas para ver em Matosinhos

Um palacete de 1896, em Matosinhos, foi invadido com peças escultóricas que reconfiguram, reimaginam o corpo humano e convidam o visitante a “levitar” para tentar encaixar-se metaforicamente nas obras de Olga Noronha

Joel Ribeiro

Tudo acontece no Museu da Quinta de Santiago, na exposição "Corpo – Escultura", que o crítico de arte Bernardo Pinto de Almeida situa no domínio das derivações pós-humanas. “Em certa medida poderemos afirmar que estas peças de Olga Noronha se destinam a reconfigurar os corpos, a redesenha-los, já que depois repousam, fora deles, como as antigas armaduras medievais que quando esvaziadas se figuravam, nesse plano estático, como formas escultoricas típicas - , e reinvestem-nos de uma presença excessiva”, escreveu o curador no texto que acompanha o catálogo desta mostra, aberta ao público até ao próximo domingo, 15 de setembro.

“Aqui, e graças ao uso destas peças, é o próprio corpo que se torna escultórico, e mesmo performático, graças ao investir dessas extensões que o ‘transformam’”, sublinha Bernardo Pinto de Almeida, sobre esta exposição que reúne algumas das obras mais importantes concebidas desde 2011 pela autora, de 29 anos.

Foi assim que 12 dos principais compartimentos do palacete foram ocupados por um conjunto de peças escultóricas que por vezes se apresentam em suspensão e com luz estrategicamente direcionada, promovendo grandes sombras que revestem o interior do edifício. “A exposição Corpo – Escultura apresenta uma grande compilação de obras minhas, em modo retrospetivo, onde o corpo quase nunca é explícito, estando sempre implícito. Em pura contextualização escultórica, o visitante é incitado a levitar e a encaixar-se nas obras”, explica Olga Noronha que aqui apresenta um conjunto de peças relacionadas com a joalharia, mas também com o design, a moda, a performance.

Um exemplo? “Corpo-Escultura (em suspensão)” a maior escultura executada pela artista até hoje, com 4.5 metros de comprimento e 2 de altura. Foi concebida para o torreão da Casa-Museu Quinta de Santiago, permanecendo metade do período da exposição, suspensa no mesmo de forma a ser vista ao longe e a outra metade, em repouso na relva que envolve o palacete.

“Esta obra representa, mais uma vez, o corpo implícito que na sua escala natural deu forma a parte da peça (conseguirá perceber um torso com pernas entre o ‘panejamento’ que esvoaça sobre o mesmo). Quando suspensa, simula um quasi-anjo abstracto que recebe quem inicia a visita à exposição. Pelo por do sol, prolonga-se pela fachada da casa com as suas sombras de típicos corações portugueses anamorfisados. Quando em repouso no relvado pode ser observada detalhadamente através do seu ‘panejamento’ onde o metal confere uma estranha leveza pictórica”, explica Olga Noronha.

Natural do Porto, licenciada em Design de Joalharia pelo Central Saint Martins College of Art & Design, em Londres, Olga Noronha viu o seu trabalho “Dirty Tissues” ser considerado o melhor dos 21 anos do curso, o que significa que foi comprado pela própria escola para integrar o seu espólio privado.

Curadora da Sala Futuro do Museo del Gioiello Vicenza, em Itália, a autora tem já um percurso artístico que passa por Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, França, Chipre e Itália, tendo já apresentado a sua obra em Matosinhos nos projetos “joalharia medicamente prescrita”, em 2013, e “Silêncios Ilustrados”, en 2006.

Conjugando o pragmatismo científico e o conceptualismo da arte, o trabalho da artista tem como ponto de partida o fascínio pelos rituais médico-cirúrgicos, está ligado à moda e à ModaLisboa e tem procurado abordar o corpo humano de uma perspetiva artística e filosófica, relacionando-o e completando-o com objetos que lhe são estranhos e que lhe conferem complexidade e abstração.

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