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Vida Extra

O novo filme de Almodóvar lembra-nos que Antonio Banderas é um ator sublime

Estreou-se “Dor e Glória

Antonio Banderas em “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar

O novo filme de Almodóvar tem o condão de nos recordar que Antonio Banderas é um ator sublime (foi, aliás, premiado em Cannes), apesar de muitos de nós já quase nos termos esquecido disso. Ele surge agora em contramão de tudo o que tem feito nos últimos anos em Hollywood (e sem Pedro). As dores, físicas e emocionais — Almodóvar falou-nos delas na entrevista da edição passada — e as glórias do título são as da personagem que Banderas interpreta, Salvador Mallo, cineasta maduro que vive com o pensamento no passado, já que o presente é tempo de resignação e de cicatrizes, de crise criativa, de falta de vontade de viver a vida como ela merece ser vivida. Salvador é um solitário, mal sai de casa, restam-lhe poucos amigos, Mercedes (Nora Navas) e pouco mais.

O melhor é imergir na piscina, meditar. O presente, esse, é tristonho e cinzentão. Daí que não se estranhe que o filme parta para o passado dele, memórias em flashbacks não anunciados: a história de uma família em La Mancha, aquela mãe (Penélope Cruz) e o modo como ela lavava a roupa no rio, também o colégio religioso de infância... Tudo isto — a mãe, a infância — nos é familiar e já foi visto noutros filmes do espanhol. Mas não com esta aura de crepúsculo.

O encontro de Salvador com um ator que ele não vê há muito leva-o a fumar uns charros de heroína que o deixam atordoado, à falta de melhor analgésico. Mais tarde, é um ex-amante argentino, hoje pai de filhos, que lhe toca por acaso à porta e lhe sugere um “como era dantes”. Chegados a este ponto, parece que já não restam dúvidas: está “Dor e Glória” para o espanhol como “8 1/2” esteve para Fellini? Salvador é Pedro? As coisas não são assim tão simples, tal como, de resto, não o eram no filme de Fellini. É preferível dizer antes que Salvador está ‘impregnado’ de Almodóvar por todos os poros. E que Banderas, herdeiro direto, é o ator legítimo para fazer este papel. O que é notável em “Dor e Glória” é que, embora este seja um filme — admita-se — autobiográfico, não deixa de estar siderado pelo seu guião, pelas suas ficções imperfeitas, com uma gravidade de tom e de ritmo que o afastam de qualquer tentação narcisista. Almodóvar fala de si próprio, sim, mas através de uma interposta pessoa (Salvador) que serve de filtro a qualquer ideia de filme-testamento.

Nos flashbacks da infância, por exemplo, não há qualquer sombra política da ditadura de Franco. Aquele jovem e destravado Pedro da movida madrilena que, nos anos 80, vivia e filmava com uma vontade louca de abocanhar o mundo também não tem lugar aqui. “Dor e Glória” fixa-se noutras coisas: na eclosão do primeiro momento de desejo (quando Salvador recorda os seus nove anos), em sintonia com a aparição do amante argentino no presente. Fixa-se na morte, quer na notável cena em que a mãe, agora idosa, diz ao pormenor como deseja estar vestida na sua cerimónia fúnebre quer na doença que Salvador agora enfrenta. No fundo, Almodóvar procura o seu paraíso perdido. O seu filme proustiano. Uma espécie de ‘acerto de contas’ com ele próprio que contorna o sentimentalismo e nos chega em acalmia, com pudor, a espaços em momentos de profunda comoção. / Francisco Ferreira

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