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Vida Extra

Bravo, Costa e Vitalina!

Filme magistral, “Vitalina Varela”, de Pedro Costa, voltou de Locarno distinguido a ouro com dois Leopardos que vingam um grande cineasta e a sua sublime heroína

No final do último Festival de Locarno, concluído no passado sábado, só havia olhos para Vitalina Varela. Falou-se um pouco na edição passada da sua história e da duríssima chegada a Portugal desta cabo-verdiana de 55 anos, nascida em Figueira das Naus, na Assomada, Ilha de Santiago. Pisou solo português três dias após o funeral do marido. Por ele esperara em Cabo Verde — ou por um bilhete de avião para cá que nunca chegou — quase uma vida inteira. Na derradeira conferência de imprensa do festival, Catherine Breillat, presidente e porta-voz do júri, sublinhou com justiça que o Leopardo de Melhor Interpretação Feminina era entregue a Vitalina Varela “no filme epónimo de Pedro Costa”. E fez bem em trazer a eponímia do grego antigo, a carga lendária e mítica que a palavra comporta. Tal como o realizador afirmou no festival, este filme pertence-lhe, Vitalina “é uma força da natureza, do passado, do presente e também do nosso futuro.” Deste lado dizemos que é uma mulher “cheia de vida” como a origem do seu nome e que é assombrosa a interpretação que dessa vida faz — uma data na história do cinema português — independentemente do que já venceu ou vencerá ainda mundo fora. Mas Breillat diria mais e justificou a unanimidade do júri e o prémio a “Vitalina Varela” desta forma contundente: “Tenho de acrescentar que não é de todo suficiente dar-lhe o Leopardo de Ouro, de tal forma ficámos siderados, perturbados, por este filme maior da história do cinema a partir de agora. Aconteceu algo de inacreditável neste festival: podermos ter visto e recompensado um filme que vai entrar no património do cinema mundial.”

“Vitalina Varela” está à altura da fasquia. E este Leopardo também vinga muita coisa para quem o vê de fora porque Costa já o deveria ter ganhado em 2000, quando levou a velha Panasonic DVX100 para o (há muito extinto) Bairro das Fontaínhas em “No Quarto da Vanda” (filme pioneiro no advento da entrada do digital no cinema e no trabalho de produção que o cineasta mantém até hoje); tal como o deveria ter vencido em 2014, por “Cavalo Dinheiro” (Melhor Realização), onde se viu Vitalina pela primeira vez. Por outro lado, é impossível não projetar no reconhecimento de Vitalina toda uma linhagem de atores não profissionais que fazem parte desta obra (lembram-se de Nuno Ferreira, o miúdo Nino de “O Sangue”?), em particular Vanda Duarte e Ventura (que também tem em “Vitalina Varela” um papel essencial).

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