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Entrevista a Itziar Ituño, a Raquel/Lisboa de “La Casa de Papel”

No dia em que se estreia a terceira temporada de “La Casa de Papel”, lembramos a entrevista a Itziar Ituño, que veste o papel da inspetora Raquel. Também a personagem entra agora numa nova fase: passa a ser Lisboa. Uma conversa sobre o fenómeno global da Netflix, os desafios da personagem e a capital portuguesa

Ricardo Gomes

Quando “La Casa de Papel” se estreou na Antena 3, as audiências não foram más mas também não foram muito altas. E de repente, com a chegada à Netflix, a série torna-se num fenómeno global. Em que momento é que apercebeu da dimensão?

Imagina a surpresa. De repente foi um autêntico tsunami. Começámos a comentar entre os atores, achávamos que estávamos a alucinar, que era algo impossível de acontecer. É um fenómeno que muda um pouco a vida.

Por onde é que começou essa maré, pelas redes sociais?

Eu pelo menos dei-me conta através do Instagram, porque tinha poucos seguidores e não tenho Facebook nem Twitter. É a única rede social que tenho. E de repente, não sei se um mês depois da estreia na Netflix, o número de seguidores começou a subir de mil em mil. Era algo que acontecia a cada duas horas.

Teve de desativar as notificações.

Claro. Era só plim… plim… plim. No início não percebes o que está a acontecer, mas depois começas a entender. Sabia que a Netflix tinha comprado os direitos de “La Casa de Papel” e que tinha estreado, mas não imaginava o impacto que ia ter. A maneira de saber foi um pouco assim, ao ver quem estava a seguir-me também… Gente de todo o lado. E é engraçado que isso também aconteceu no sítio em que vivo. Começaram a reconhecer-me na rua, Na minha terra. Onde não me conheciam.

O êxito de “La Casa de Papel” não projetou apenas os criadores ou os atores. Mudou a forma como o mundo olha para a produção espanhola. A construção dos novos estúdios é um dos exemplos… O que muda realmente?

Muda a forma de fazer as coisas. Acho que foi uma série que impôs novos ritmos e formas de fazer. A nível técnico é muito próxima do cinema. Muito próxima do que se fazia no cinema. É a minha perceção. Agora a forma de fazer as séries está muito mais cuidada... E com todas estas plataformas, acredito que tenhamos também cada vez mais trabalho. São sempre boas notícias para os atores ter mais trabalho.

E os canais tradicionais, como estão a olhar para estas mudanças?

A forma como se vê televisão está a mudar. Há um público clássico que está mais ligado à televisão generalista, e que vai continuar a acompanhá-la. Mas os mais jovens, assim como as pessoas de meia idade, já estão nas plataformas. Onde podem ver o que querem quando querem, sem terem de esperar pelo episódio seguinte na semana seguinte. Sem ver publicidade.

Estava em Roma, num evento da Netflix, quando anunciaram que “La Casa de Papel” teria uma terceira parte. E nesse dia não se falava de outra coisa no meio. Como vê todo o interesse em torno da série, que não se cinge aos fãs? Quais foram os ingredientes chave do sucesso?

Não sei que ingredientes tem a série ao certo para ter tocado tanta gente. Mas acho que não foi só pela história como também pelos personagens, ou pela estética. É muito plástica e funciona muito bem. Causa impacto com as máscaras e os uniformes de cor encarnada. Mas a própria ideia do sequestro, do assalto à Casa da Moeda, de imprimir o próprio dinheiro cativa.

Ricardo Gomes

Mas porquê?

Depois de uma crise tão grande como a que se viveu, as pessoas identificaram-se e quiseram ver mais. Há alguma reverência aos assaltantes e um sentimento de luta contra as injustiças deste tempo. Contra a forma como o mundo em geral se organizou. Fez ferver algo dentro de cada um e por isso teve uma grande aceitação. Foram essas mesmas pessoas a pedir que a história continuasse.

Parecia uma história com principio meio e fim…

E era. O arco estava fechado, completamente encerrado. Só que afinal vamos ter mais para ver.

Vamos à personagem. Raquel é uma mulher forte nesta história.

Acha? É muito forte, pelo lado de aguentar muito os golpes que sofre, mas é também vulnerável. Era um pouco a antagonista da história. Era como o gato e o rato. O rato era o Professor e a Raquel era o gato. E depois surge um feeling estranho… de repente sentem-se bem a falar um com o outro. Mas o que não esperas é que depois se venham a enamorar… Foi um desafio muito grande interpretar a Raquel Murillo, porque acontece-lhe de tudo. Os guionistas fizeram-na sofrer muito… E nesta terceira parte ainda mais…

Agora torna-se deixa de ser Raquel e torna-se Lisboa, cumprindo a vontade de passar para o lado da rebelião. Quais são os vários desafios da personagem nas várias partes?

Primeiro foi enfrentar um mundo onde mandam maioritariamente os homens, o da polícia, e ser respeitada com a sua autoridade. Depois dá-se conta de como é este mundo e deixa de acreditar na lei, porque viu coisas muito feias e a trataram muito mal. E pronto, agora está do outro lado. Com a sua mãe, com a sua filha, num monte de frentes de batalha.

Como foi a escolha do nome Lisboa para a tua personagem?

Estou encantada com a escolha, mas não sei muito bem como aconteceu. Só sei que uma entrevista perguntaram-me que nome capital escolheria e eu disse Lisboa. Acho que pode ter existido outro nome, mas acabaram por optar por Lisboa. E ainda bem, porque tem uma ótima sonoridade.

O que é que já podes contar sobre a terceira parte?

Não posso revelar muito sobre a terceira parte, mas será muito trepidante e cheia de ação. Mesmo que pareça difícil superar as anteriores, acho que o fizemos. Não vai dececionar ninguém e é a maior de sempre.

Nos episódios disponibilizados à imprensa, a série parece ser maior não só em tamanho. A produção também cresceu.

É muito diferente das anteriores. Nesse aspeto não tem nada a ver. Foi possível explorar muitas mais opções de rodagem, com cenários naturais, sem chromas… Por exemplo, lembra-se da parte do Palawan, nas Filipinas, dos episódios anteriores? Foi rodado em Madrid, com chroma. Coisas do género. Então agora com mais meios muda tudo um pouco.

É mais fácil ter uma boa série com mais meios?

Ajuda, mas não é tudo. Nem tudo na vida é fogo de artificio. Tem de haver uma boa história, com boas personagens que cativem. Para mim, basicamente o que funciona ou não é a história. Só que se tiveres melhores meios para a contar melhor ainda.

Qual a sua relação com o Álex Pina, que criou toda esta história?

Conheci o Álex na apresentação da primeira parte de “La Casa de Papel”. Não o conhecia, e temo-nos visto em momentos como a festa de fim de rodagem ou coisas do género. Mas é muito próximo.

É da sua mente que saem algumas das outras séries do momento, como “Vis-a-Vis” (SIC Radical/Netflix) ou “O Cais” (HBO Portugal), por exemplo, e agora está dedicado a “White Lines”, com o ator português Nuno Lopes…

Sim? Não sabia. Mas a produtora, a Vancouver Media, tem uma forma de trabalhar muito concreta. Atrevem-se a contar histórias que ao principio parecem descabidas. Quando começaram a imaginar “La Casa de Papel”, com o sequestro e o assalto à Casa da Moeda, disseram-lhes que não seria possível fazê-lo. Mas a verdade é que a série está aí.

A rodagem teve vários desafios. Guardou alguma história caricata?

Bom, a verdade é que eu não sei conduzir carros automáticos. E a Raquel tinha de conduzir um carro-patrulha automático, porque os carros que usávamos eram os que nos emprestavam. Uma vez, com a atrapalhação, saí do carro e não o deixei em segurança. Não sei se não ficou travado, se deixei em ponto-morto. Mas o que aconteceu foi isto: o carro começou a descair para trás e havia outro estacionado. Então foi preciso correr para evitar o acidente. E agora na terceira parte tive de conduzir outro carro, maior, e era outra vez automático.

E qual o futuro da série? Há mais “La Casa de Papel” depois dos episódios que estreiam na próxima semana?

Sim, está completamente assegurada. Na verdade até já estamos a rodá-la. E vai acontecer de tudo nessa quarta parte. Coisas hardcore. Se depois continuar, tanto melhor.

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