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Sara Barros Leitão: “Sou responsável por aquilo que incendeio. Quero abrir caminho para quem vem depois”

A atriz de 28 anos sentou-se, à conversa com o Vida Extra, numa odisseia até à época em que o mundo tinha apenas três ruas, baloiços e o espetáculo da vida era construído com legos

Maria Inês Peixoto

Em todas as ruas se encontra, em todas as ruas se perde. Assim é Sara Barros Leitão, desde a infância, quando passeava sozinha e "o mundo tinha apenas três ruas". O espetáculo da vida cabia todo ali. E tudo estava bem, contanto houvesse baloiços. Brincou, até aos 15 anos, com legos, altura em que só ela se surpreendeu quando informou a família de que pretendia estudar Interpretação na Academia Contemporânea do Espetáculo.

A pequena Sara cresceu, o mundo também, e a atriz assume-se como um universo paralelo, numa brilhante expansão, dentro do panorama cultural português. Deu-se a conhecer ao país na série “Morangos com Açúcar”, onde, nos intervalos das gravações, aproveitava para “ler o Dostoievski todo”.

Impõe-se como uma arqueóloga das pequenas histórias esquecidas, uma voz singular ao serviço do plural. Não quer que a sua arte seja “objeto de propaganda”, mas usa-a como arma para a revolução que pretende construir e responsabiliza-se pelos “incêndios” que provocar. Sara sabe que ter voz é um privilégio e é por isso que ainda pode ser vista nas ruas, de megafone na mão, a lutar pela igualdade de género ou a marchar, militantemente, ao lado da comunidade LGBTI.

Em palco, gosta de ouvir a respiração das pessoas e procura os olhos de cada espectador. Tem a intimidade na mira. Quando emociona os outros, admira-se e emociona-se também. Aos 28 anos, não é feliz. Não pode ser, pois só assim consegue ver as injustiças. Fez de si uma a(r)tivista e são as causas sociais a força motriz da criação.

Esta sexta-feira, pelas 21h30, estreia a peça “Todos os dias me sujo de coisas eternas”, na Casa d’Artes do Bonfim.

As estreias, o ato de enfrentar o público pela primeira vez com um novo espetáculo, ainda causam nervosismo?

Fico sempre nervosa, mas atiro-me de cabeça. É esquisito. Há sempre um grande respeito em qualquer ato performativo público. Trabalhar em arte é uma grande responsabilidade. Assim que começo a ensaiar, principalmente em criações minhas, fico logo nervosa. Porque penso muito nos espectadores quando estou no processo de construção. Penso no que quero dizer, no que quero fazer, como é que pode resultar. Gosto de ouvir a respiração das pessoas quando subo ao palco, mas ao mesmo tempo tenho de estar sempre concentrada.

Há quase um encontro, olhos nos olhos, com o público.

Sem dúvida. As minhas criações têm sido trabalhos muito pessoais e solitários que, depois, resultam numa enorme vontade de partilha. Interessa-me, neste momento da minha vida, fazer espetáculos de pequena escala, em que consiga olhar nos olhos todos os espectadores na sala. É quase um ato poético. Agrada-me ser uma contadora de histórias que eu vou colecionando e que quero oferecer ao público. Quando olho para a plateia e vejo algum espectador emocionado, emociono-me também.

"O mundo, para mim, tinha apenas três ruas. Quando és criança o teu mundo são três ruas. O mundo está todo ali e é tudo espetacular desde que tenha baloiços"

Ainda se recorda da primeira vez que subiu a um palco?

Profissionalmente, lembro-me perfeitamente. O encenador era galego. Eu tinha 20 anos. Recordo-me muito bem daquela sala muito bonita, onde me estreei no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, com a peça "Romeu e Julieta". O espetáculo começava já com os atores em palco e eu via a plateia a encher. Foi muito especial.

Como surgiu o bichinho pela representação?

Eu não sei se tenho um bichinho. [risos] É muito saudável para todas as crianças e adolescentes experimentar qualquer forma de expressão artística. E eu, felizmente, tive muitas oportunidades. A minha família é muito brincalhona e deu-me uma educação longe das televisões. Os adultos brincavam bastante com as crianças. Tinha a sorte de ter também o meu irmão mais novo e muitos primos. Tudo isso foi fundamental. Porque o teatro é um jogo e a brincadeira é o início desse jogo. Eu brinquei até muito tarde. Lembro-me que, quando entrei para a Academia Contemporânea do Espetáculo, com 15 anos, ainda brincava muito com legos. Até me sentia um bocado esquisita, mas isso foi importante para me ativar o pensamento.

Como era essa menina, a pequena Sara, nascida na Maia no dia 31 de julho de 1990?

O mundo, para mim, tinha apenas três ruas. Quando és criança — quer seja em Paris, no Porto ou em Nova Iorque — o teu mundo são três ruas. O mundo está todo ali e é tudo espetacular desde que tenha baloiços. O meu universo era a casa dos meus pais, dos meus avós e o infantário. Sempre fui extremamente curiosa e independente. A minha infância foi muito fora de casa. Sempre me desenrasquei bem em todo o lado. Habituei-me, desde os meus cinco anos, a passear de um lado para o outro. Apesar de me sentir bem em grupo, gostava de passar muitas horas sozinha. Emancipei-me muito cedo e ninguém questionava o que eu queria fazer. Isso fez de mim a mulher que sou hoje. Quando alguém me começa a cortar as pernas, eu respondo automaticamente: "não foi nada disto que me ensinaram".

E a família também apoiou quando escolheu estudar Interpretação?

Foi muito natural para eles. Acho que eu fui mesmo a pessoa que mais se surpreendeu com a decisão. [risos]

Maria Inês Peixoto

"Li o Dostoievski quase todo nas pausas das gravações"

Toda essa independência ajudou a que, com apenas 16 anos, se tornasse mais fácil mudar-se sozinha para Lisboa?

Sempre quis morar sozinha e ganhar o meu próprio dinheiro. Eu já tomava as minhas decisões todas. Tinha a minha liberdade e os meus horários. Podia ficar a ler um livro a madrugada inteira ou ir alugar um DVD a um videoclube para fazer maratonas cinéfilas. Vivi em Lisboa até aos 18 anos. Foram três anos muito importantes para o meu crescimento. Foi todo um mundo cultural que se abriu para mim, porque Lisboa tinha muita oferta. Podia ir à Gulbenkian, ao CCB, a todo o lado... Ganhava bem e podia gastar o dinheiro todo a ver tudo o que conseguia. Via os mesmos espetáculos várias vezes, até os entender, porque não tinha ninguém com quem os comentar. Isso ajudou-me como pensadora e como mulher.

A participação na série "Morangos com Açúcar" foi uma boa escola?

Foi, claro. Só guardo boas memórias e eu sou uma colecionadora de experiências. Deu-me muita estaleca.

A pressão mediática, sobre atores tão jovens, era excessiva?

Acredito que sim, mas não era o meu foco. Passou-me tudo ao lado. Apesar de ser um projeto com muitos jovens, tínhamos pessoas mais velhas, pessoas extraordinárias e que ainda hoje são minhas amigas, como diretores de atores, operadores de câmara, técnicos de som, maquilhadoras. Deram-me mundo e ensinaram-me técnicas brutais de interpretação. E depois tínhamos também uma parte do elenco que era mais velho, atores que me aconselharam a ler muitas coisas. Eu lia muito e fazer novelas, para mim, é sinónimo de ter tempo para devorar livros, porque passamos muito tempo à espera.

O que lia?

Lia muito os russos. Li o Dostoievski quase todo nas pausas das gravações, além de ter estudado Grego e Latim na sala de atores.

E porquê o regresso ao Porto?

Eu tinha deixado o meu curso [de Interpretação] congelado e sempre tive muita vontade de o terminar. Fiquei mais tempo do que esperava em Lisboa, mas voltei para o Porto assim que percebi que era o momento certo de regressar para terminar os meus estudos. O Shakespeare diz-nos que "não há vento que sopre a favor de quem nem sequer sabe para onde quer ir". Talvez tenha sido o vento a soprar para o lugar onde eu queria estar.

E José Régio diz-nos "não, não vou por aí, só vou por onde me levam meus próprios passos".

Sim. Eu sei melhor para onde não quero ir, do que para onde quero ir.

Para onde não quer ir?

[hesita, procura as palavras, sorri] Não quero instrumentalizar a minha arte. Não quero que seja um objeto de propaganda. Saber que não quero isso já é muito difícil e dá muito trabalho.

Mas concebe criações artísticas muito militantes e interventivas.

A arte é muito poderosa e por isso é que foi proibida tantas vezes. Os políticos inteligentes percebem que é uma das ferramentas mais importantes. Eu sou uma militante da igualdade e da liberdade. Eu não vivi o 25 de Abril, sou neta da revolução, mas é a data mais importante da minha vida. E acho que o 25 de Abril ainda não chegou a todos os lugares. É isso que me faz acordar todos os dias: tentar encontrar a coerência entre aquilo que eu acredito e aquilo que eu sou.

Pedro Santasmarinas

Depois do mergulho nos arquivos do Teatro Experimental do Porto, para a criação da peça "Teoria das Três Idades", agora retoma um processo solitário, quase de arqueologia, para desenterrar as histórias escondidas nas ruas da cidade. Este é um método de trabalho no qual se sente confortável?

Interessam-me sempre as pequenas histórias e dar voz a tudo aquilo que não tem voz. Ter voz é um privilégio e é preciso partilharmos o nosso com quem não o tem.

Que coisas eternas são estas com que se suja todos os dias?

Há pessoas que têm uma capa tão impermeável que, quando se deparam com problemas sociais, esses temas escorregam nessa capa e elas nem se apercebem. Quero que a capa fique deteriorada para que todos possamos estar no mesmo ponto de partida, sem escudos protetores, prontos para nos sujarmos.

Este trabalho tem como ponto de partida a toponímia das ruas. Como surgiu a ideia?

Fui convidada pelo programa "Cultura em Expansão" [da Câmara Municipal do Porto] para um projeto em que me deram carta branca. Deram-me o espaço, uma data e eu podia fazer aquilo que quisesse. Quis fazer uma coisa que se passasse na Casa d’Artes do Bonfim, que é uma espécie de cápsula do tempo. Passei lá vários dias, a deixar que a arquitetura me inspirasse. Fiquei logo apaixonada, porque gosto muito de coisas estranhas. Decidi que queria falar sobre o Porto, sobre as ruas, e tinha a vontade de oferecer o espetáculo à comunidade. Quis dar-lhes uma coleção de histórias, fruto de uma investigação que fiz. É quase um kit de sobrevivência com ferramentas para resistir numa cidade com rendas altas e com muita pressão imobiliária. É também um espetáculo sobre as questões de género. Basta reparar na forma como nos referimos à cidade: "o Porto". O artigo está lá e, logo isso, é esquisito. Seria desonesto, da minha parte, fazer um espetáculo só bonito, porque as coisas horríveis também fazem parte da vida.

E é um espetáculo que nos fala muito de mulheres que foram sendo apagadas.

Sim. Eu queria falar sobre ruas, mas, durante a minha pesquisa, passei dezenas de páginas sem encontrar nenhuma que tivesse o nome de uma mulher. Eu, no espetáculo, também assumo que só encontro aquilo que procuro. E, por mais que quisesse encontrar ruas, eu só me encontrava a mim. Estava a encontrar as minhas preocupações nos arquivos.

Em todas as ruas se encontra, em todas as ruas se perde?

É muito isso. A rua é um espaço de livre circulação, de ida e volta. A rua simboliza alguma liberdade, mas não deixa de ser estranho que, quando lhes dão os nomes, isso não representa a quantidade de mulheres que quiseram estar nas ruas a fazer as suas lutas. Muitas delas, tiveram de ficar fechadas em casa, porque foi assim que a História as silenciou. A discrepância entre ruas com nomes de homens e de mulheres é tão gritante. A toponímia do Porto evoca 50 mulheres, sendo que todas elas eram brancas e heterossexuais. E eu, quando saio de casa, não vejo só pessoas brancas.

Rejeitamos o todo da realidade?

Exatamente. Eu vejo mulheres transexuais nas ruas. Porque é que a Gisberta não tem uma rua com o nome dela? Isso é apagar o racismo, os crimes de ódio e dizer que a cidade é apenas espetacular para o turismo. As ruas ainda não espelham a sociedade. As mulheres sempre existiram. Estiveram sempre lá. Ao lado dos homens, à frente dos homens, em todas as revoltas, em tudo, mais não seja a lavar a roupa suja deles. Se a História se esquece das mulheres, isso é político. Eu sou artista, mas quero contribuir para o debate e não me desresponsabilizar quando a fasquia pegar fogo. Sou responsável por aquilo que incendeio. Quero abrir caminho para quem vem depois de mim. Procuro a intimidade em tudo o que faço.

A intimidade assusta-nos?

Vivemos tempos muito estranhos, com as redes sociais. Acho que o teatro irá sempre sobreviver, precisamente por esse caráter de partilha e confronto entre duas pessoas: uma que faz e outra que vê. Durante esse tempo, ninguém sente necessidade de um telemóvel. Apenas precisamos de estar. Aqui e agora. Tudo se resume a isso: duas pessoas num ambiente de partilha. Isso não acontece com a literatura, a pintura ou o cinema. O ato performativo acontece no momento real e essa essência é muito forte. Tudo o resto pode morrer, mas o teatro não morre, porque precisamos de estar com o outro. Precisamos de sentir a outra pessoa viva.

Pedro Santasmarinas

Uma vez, numa outra conversa, disse-me que se "fosse totalmente feliz não poderia ser artista". Por quê?

A indignação alimenta o meu trabalho e a revolução que quero construir. Se fosse totalmente feliz, acho que me tornaria infeliz no momento seguinte. Nunca poderia ser totalmente feliz porque o mundo não é justo, e nem sei se alguma vez vai ser. Eu tenho de ser infeliz para conseguir ver as injustiças.

Mas, no meio de todas as injustiças, quais são os microssegundos em que a felicidade aparece?

Encontro a felicidade em todas as lutas contra essas injustiças ou no momento único em que estou a discutir com alguém, a sós, e percebo que dali pode surgir uma revolução. Encontro a felicidade quando perdoo e quando sou perdoada. Isto de eu querer colocar o dedo na ferida não faz com que seja uma boa pessoa, faz apenas com que seja uma pessoa que quer aprender mais. Estou sempre num ponto em que percebo a importância de pedir desculpa, de dizer que não tenho razão e de ter de voltar atrás. E espero que, nesse momento, as pessoas me aceitem e me digam para voltar.