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“Fazer gravuras é um descanso da pintura.” Quase 200 obras gráficas de Paula Rego apresentadas em Cascais

Exposição é inaugurada esta quinta-feira, com a presença do filho da artista, Nick Willing. Para Paula Rego, desenhar na chapa “tem mais a ver com o que está na cabeça do que com o mundo cá fora”. A mostra chama-se, por isso, “Olhar para Dentro/Looking In”. Em estreia mundial, recebeu a doação de várias peças da artista e fica patente na Casa das Histórias Paula Rego até 17 de novembro

Um sapo ia pedir a noiva em casamento I/ A Frog he would a-wooing go I, 1989

Carlos Pombo

Se não por outra coisa, a exposição que esta tarde se inicia em Cascais já seria especial por incluir uma doação de obras de Paula Rego, a maior desde aquela que foi “feita para abrir o museu Casa das Histórias, em 2009.” A criadora portuguesa há muito radicada no Reino Unido entregou agora 28 obras, que não se esgotam nesta mostra — algumas ficam guardadas para uma outra, pensada para o fim do ano. Em “Olhar para Dentro/Looking In”, estão gravuras das séries “Mutilação Genital Feminina” e “Dama de Pé de Cabra”, além de peças mais recentes, desta década, inspiradas em contos tradicionais infantis. Paula Rego emprestou também, “a muito custo”, conta a curadora Catarina Alfaro, duas gravuras de Francisco Goya da sua coleção pessoal. Artista espanhol do final do século XVIII, aparece aqui com “Eles já vão depenados” e “Não Escaparás” (1797-1799), onde são claras as marcas que Paula Rego há de ir buscar para as suas próprias peças: crítica social, uma linha muito ténue entre homem e monstro, cenários oníricos.

“Fazer desenhos desta maneira não é como desenhar só por desenhar o que se vê, pelo prazer de observar o modelo ou de fazer o desenho; desenhar algo como isto é mais como criar uma história em termos visuais”, explica Paula Rego. A artista mergulha na chapa e dela não sai até trazer uma história, sempre intuitiva, imprevisível. “Também é um mundo em que vais penetrar: se tens uma pequena chapa de gravura e estás a desenhar nela, o mundo que estás a criar vai da tua cabeça para a chapa; não é olhar para fora, é olhar para dentro.” Assim se explica o título da exposição (“Olhar para Dentro/Looking In”), inaugurada às 18h30 desta quinta-feira, 11 de julho, e patente até 17 de novembro.

Menina lendo à janela/ Girl Reading at Window, 2001-2002

Menina lendo à janela/ Girl Reading at Window, 2001-2002

Carlos Pombo

Para a curadora, Catarina Alfaro, o trabalho gráfico de Paula Rego é muitas vezes “posto em segundo plano” no conjunto da obra, “um erro”, explica, já que as gravuras e litografias que fez ao longo de quase 60 anos são “tão ou mais fortes que a pintura”. Para a artista, nalguns momentos foram quase uma obsessão: a partir do final dos anos 80, por exemplo, partiu das cantigas e rimas de berço inglesas, que conhecia dos tempos em que estudou no St. Julian's School, em Carcavelos, e criou uma série com o nome por que são conhecidas, “Nursery Rhymes”. Por essa altura, desenha compulsivamente, “como um pizzeiro”, nas palavras do colaborador Paul Coldwell. Mais do que reproduzir ou procurar os significados desses contos, alguns vindos da tradição oral, Paula Rego criou novos conceitos, uma linguagem própria, não isenta de mistério. As ligações entre cada uma das peças da série, e entre os personagens, ficam, aliás, por conta do espectador, convidado a também ele criar histórias a partir da história.

“Olhar para Dentro” divide-se por sete salas, mais uma se contarmos a de gravura, onde é possível explorar as técnicas usadas por Paula Rego, através de ateliês e workshops. Inicia-se cronologicamente, com as primeiras incursões da artista no trabalho gráfico, numa altura em que era ainda estudante na Slade School of Fine Art, em Londres (década de 50). Munindo-se apenas do traço, da linha que sai da ponta-seca, segue depois pelas técnicas da água-forte e da água-tinta, em que o desenho é igualmente feito sobre a base de metal, mas usando líquidos para obter manchas e meios-tons. A partir da segunda sala, são explorados os temas que melhor lhe conhecemos: a infância, que atravessa toda a obra, em que as crianças são apresentadas em múltiplas formas, por vezes “assumindo fardos que não são para elas”, como conta a curadora. Há os monstros e os sonhos e há os temas sociais que a marcaram nas últimas décadas do século XX: o aborto e a mutilação genital feminina. O traço, que Paula Rego domina, é tão forte quanto os temas, e põe o espectador a olhar nos olhos das mulheres que se preparam para abortar ou das mães cúmplices que acompanham a circuncisão das filhas.

A Paula Rego percebe os meios técnicos até ao limite, domina-os. E percebe também os seuspróprios limites, a forma como eles servem as mensagens que quer passar”, aponta Catarina Alfaro. Por isso, o que se vê em “Olhar para Dentro” não é uma reprodução das pinturas, ainda que haja gravuras que partem delas. É um trabalho que segue em paralelo e que ao público “falta descobrir”. “É o território da experimentação, uma continuidade do trabalho da pintura”, explica a curadora. Dessas experiências vamos tendo conta através dos desenhos preparatórios e das chapas de cobre que fazem parte das 187 obras aqui apresentadas. Nelas percebemos que, apesar de circunscrito ao espaço da chapa, o trabalho gráfico é mais livre, mais íntimo também. Estamos a olhar para dentro da artista.

Pelo meio, há uma série de litografias (uma técnica de gravura que utiliza material gorduroso para desenhar na chapa, em vez de lhe fazer fendas), de maior dimensão, em que Paula Rego trabalha a escala

Vem a mim/ Come to Me, 2001-2002

Vem a mim/ Come to Me, 2001-2002

Carlos Pombo

A exposição é o testemunho final de que está sanado qualquer desconforto entre a família da artista e a autarquia. Em 2013, centenas de obras deixaram Portugal e a Fundação Paula Rego foi extinta. Desde essa altura, a Casa das Histórias passou a funcionar como museu municipal, gerido pela Câmara de Cascais e por uma comissão paritária: Nicholas Willing, o filho, e Salvato Telles de Menezes, administrador da Fundação D. Luís I, também com participação da autarquia. Na altura, Willing disse que a mãe queria manter “o museu e com tantos trabalhos quanto possível.” Em declarações ao jornal Público, acrescentou: “Não digo isto por ser minha mãe, mas é uma das pessoas mais generosas que conheço e continua absolutamente disponível.” A exposição agora inaugurada fecha, precisamente, com duas obras oferecidas por Paula Rego ao estúdio britânico Curwen Studio.

“Olhar para Dentro” é uma estreia mundial, organizada pela Fundação D. Luís I e pela Câmara Municipal de Cascais, no âmbito da programação do Bairro dos Museus (uma rede de museus na vila, cujas vantagens podem ser vistas aqui). É inaugurada esta quinta-feira, 11 de julho, pelas 18h30, com a presença de Nicholas Willing e está patente até 17 de novembro. Tem um custo de entrada de 5 euros e é gratuito para jovens até aos 18 anos.