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Vida Extra

Um triste mundo sem Beatles

À partida, um absurdo: e se os Fab Four tivessem desaparecido da face da Terra, exceto para um músico que começa a tocar as canções deles como se fossem suas? Conversa com Danny Boyle e o argumentista Richard Curtis sobre “Yesterday”, que se estreou na quinta-feira

Jack Malik (Himesh Patel) e Ed Sheeran (que faz de si próprio) em “Yesterday”

Em Gorleston-on-Sea, localidade costeira de veraneio do condado de Norfolk, no extremo leste do Reino Unido, não se passa grande coisa nos dias em que não faz sol. Mas é ali que descobrimos Jack Malik (Himesh Patel), rapaz na casa dos vintes, sempre com a viola à tira-colo. Descendente de uma família indiana e compositor nas horas vagas, Jack acalenta a esperança de singrar no mundo da música, mas talvez não tenha talento para tanto. Os amigos de liceu, e uma delas em particular — Ellie (Lily James) — continuam a assistir aos seus concertos na praia ou num ou noutro bar onde, invariavelmente, ele acaba a tocar sozinho. Em seguida, não nos peçam para descrever o que acontece porque ninguém, nem sequer os autores deste filme, seriam capazes de o explicar. No exato momento em que Jack, uma vez mais frustrado ao regressar a casa, sofre um acidente na estrada, o mundo entra por segundos em blackout, num daqueles apagões à escala planetária que costumam ser próprios de ficções científicas, não de comédias românticas. O herói acorda então numa cama de hospital, com os dentes partidos. Os amigos visitam-no e ele faz uma piada com uma frase de uma célebre canção (“Will you still need me, will you still feed me/ when I’m sixty-four...”) mas ninguém reconhece a letra dos Beatles. Mais tarde, toca na guitarra a música que dá título a este filme e ninguém jamais a ouviu. Percebemos então que algo sucedeu com o apagão inexplicável. Os Beatles foram simplesmente varridos do planeta e da memória coletiva de toda a gente, só Jack se lembra deles. E não é que o rapaz se atreve então a tirar proveito da sua qualidade de ‘ave rara’, começando a cantar ‘Yesterday’, ‘Let it Be’ e tantas outras canções de que ele se lembra de cor, como se fossem suas? O êxito é imediato. Ed Sheeran, a fazer de si próprio, entra então em cena e, pouco a pouco, começa a ajudar Jack, um fenómeno para as outras personagens do filme, mas uma fraude para a audiência que se ri da situação insólita. Entretanto, descobrimos também que o apagão fez outras ‘vítimas’ e que, entre outros sainetes, vivemos num mundo que não sabe o que é Coca-Cola: só há Pepsi...

“Yesterday” é o novo filme do autor de “Trainspotting”, Danny Boyle, e foi escrito pelo não menos conhecido argumentista de “Quatro Casamentos e um Funeral” e “Notting Hill”, Richard Curtis, também ele realizador e guionista de uma comédia romântica com Hugh Grant que foi um êxito em 2003, “O Amor Acontece”. Antes de “Yesterday”, Boyle e Curtis, amigos de longa data e ambos com 62 anos, trabalharam na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, que Boyle dirigiu. Respondendo à sacramental pergunta de onde veio ideia para filme tão descabelado, Curtis explicou ao Expresso, no fim de maio, em Londres, que ela veio “da cabeça de um amigo, Jack Barth, que me telefonou um certo dia com esta história. Achei-a tão irresistível que acabei por escrever o argumento de raiz. Eu acho que nós já nem nos damos conta da importância enorme que os Beatles tiveram no mundo e na cultura pop. Teríamos um défice estético e moral sem o seu legado. Os Beatles fazem parte do nosso ADN. Transformaram-nos depois da II Guerra Mundial, ajudaram o mundo a dar um novo sentido ao amor, e a esquecer a guerra. Fazem tanto parte de nós que eu não consigo sequer imaginar o que faria se estivesse no lugar de Jack; como não sei cantar, provavelmente acabaria por me atirar da janela...”

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