17h23 18 Jun 19
Viu The Walking Dead antes de começar a gravar Fear of the Walking Dead?
Não, fiz questão de não ver nada, para poder entrar em todo aquele universo pela primeira vez. Não conhecia sequer nenhuma das personagens que transitaram de uma para a outra. Assim, quando as conheci foi algo novo, fresco, que depende apenas do conhecimento que tenho do guião. E isso ajuda a série a ser orgánica e honesta.
Como é que classificaria a sua personagem Victor Strand? É alguém com múltiplas camadas?
Sim. Victor Strand é como uma cebola: é picante, é doce, é complicada e complexa. Vai-te por os olhos a arder, mas isso é necessário. Todos os aspectos são necessários. E na verdade todas as personagens são complexas, sobretudo naquele ambiente apocalíptico, onde os humanos são capazes de fazer o bem e o mal para sobreviver. Precisas dos dois lados da moeda.
Vê o Victor como um retrato distorcido do “self-made american man”?
Sim, ele é um produto da civilização ocidental. Ele tentou ser esse homem, e tudo nele era “for show”: a maneira de vestir, o estilo. Ele construiu isso, criou essa persona. E a série fez a desconstrução dos valores dele, deu-lhes um lado mais primitivo.
As imagens da nova temporada de “Fear the Walking Dead”
“Fear the Walking Dead”, Temporada 5: para ver às segundas-feiras, pelas 23 horas, no AMC.
E ao mesmo tempo há a sensação de que se a série tivesse outro contexto - não catastrófico - ele seria na mesma um homem estranho, com alguma coisa de errado…
A forma como eu sempre o interpretei...tens outras pessoas a dizer que ele é um burlão, alguém imprevisível…. eu acho que ele sabe exatamente o que está a fazer. Pode não deixar os outros saber o que se passa, porque desconfia delas, mas faz parte da sua cultura não ser popular. No final do dia, mesmo que digam que ele é egoísta, acho que se analisarmos todas as suas acções desde o início da série, vemos que ele agiu sempre com outras pessoas em mente. Liderou um monte de pessoas num barco para o México, para se salvarem…
E isso é bastante americano, essa ideia de serviço, de dever…
Acho que sim, e isso é desafiador. Ele não tem medo de tomar as decisões difíceis, de ser duro e resoluto, sobretudo quando está em causa a sobrevivência do grupo. E pode ser bastante americano, mas ao mesmo tempo é alguém internacional: tem um gosto impecável, um paladar desenvolvido, é inteligente, instruido, fala outras línguas, tem várias skills de que os outros não sabem. Adoro aquele momento em que todos percebem que ele é fluente em espanhol. Ele não deu nenhuma indicação nesse sentido, é como se dissesse “Eu sei coisas por causa do meu poder.”
Quais são as suas expectativas para a nova temporada?
Vai ser uma grande, épica temporada. Temos muitas peças no tabuleiro, e as personagens já estão totalmente dentro de um ritmo de missão, todos juntos. Deixou de ser tanto sobre os conflitos internos de cada um, mas sim sobre um plano colectivo para ajudar outros.
Acha que a série pode continuar por mais temporadas, ou está a aproximar-se do final?
Há sempre mais história para contar. Esta série sempre viajou imenso, começou em Vancouver, Los Angeles, depois foi para o México, agora está no Texas. Isso também a torna imprevisível, e há sempre histórias para contar.
Sei que se licenciou em jornalismo. Alguma vez considerou seguir essa carreira?
Acho que de alguma maneira, sou sempre um jornalista. As escolhas que fiz como escritor, realizador ou ator tentam sempre interrogar a humanidade, procurar uma resposta. Acordo com perguntas, estou sempre a perguntar porquê, porquê, porquê. E quando encontro a resposta, tenho de encontrar outra pergunta.
Vendeu duas séries da sua autoria: West Phily Baby à AMC e Peaches à HBO. Estão a ser feitas? Sabe quando vão sair?
Não sei bem ao certo, mas espero que em breve. Estão na fase final de produção, por isso estamos à espera de luz verde para avançar. Dediquei-me bastante às duas, tentei fazer televisão que ainda não tenha sido feita.
Vê-se mais como um ator ou como um autor?
Oh, faço de tudo. Sempre me vi como um híbrido, desde o início. Comecei a minha carreira em São Francisco e fui sempre actor, escritor e realizador. E agora sou produtor. Tenho uma grande vontade de contar histórias, e portanto estou sempre para a frente e para trás. As três coisas usam partes diferentes do meu cérebro, e todas me realizam.
Como é que foi ser realizador em Fear of the Walking Dead?
Foi fantástico, tive apoio da AMC, dos produtores, atores, de toda a equipa. Foi um privilégio, e acho que me preparou para realizar outros projetos fora da série. É um novo desafio.
É um peso diferente em cima dos ombros?
Sim, porque tu és a pessoa com todas as respostas. É um processo que envolve trabalho de equipa, é mais desgastante, mas é muito recompensador. Como actor estás um pouco mais isolado, como realizador és o treinador, a cheerleader, quem toda a gente procura. Ficas exausto, mas também viciado, sempre à espera do dia seguinte para o fazeres outra vez.
Como é que vê o desenvolvimento dos serviços de streaming, a impor-se cada vez mais na ficção?
Acho que são o futuro. Toda a gente os apoia, seja a AMC ou qualquer outra empresa. É a onda do futuro, e o futuro é agora. E faz sentido, porque trata-se da conveniência para ver o que quer que seja em qualquer sítio, no telemóvel, no relógio, o que seja.
Então a ficção na televisão morreu?
Apesar de tudo acho que não. Ainda é necessária. Adoro a ideia de nos sentarmos como um grupo para ver algo, é como uma comunhão. Acho que os dois vão continuar a coexistir ao mesmo tempo, e isso é saudável.