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O Primavera está mais millennial e até tem flamenco digital (com Rosalía)

O NOS Primavera Sound está diferente: menos rock, menos retro, mais ‘latino’, mais millennial. O flamenco digital da catalã Rosalía é um dos destaques do festival do Porto

Luís Guerra

Jornalista

Rosalía sobe ao palco NOS dia 8 às 22h10

MEDIOS Y MEDIA/GETTY IMAGES

Quem o viu e quem o vê, dirão os mais críticos. Sinais dos tempos, corrigirão aqueles que, cientes de que todo o mundo (pop) é composto de mudança, veem o ‘irmão mais novo’ do festival catalão Primavera Sound a acompanhar o espírito das épocas. Assente no Porto desde 2012, chamando a si uma boa fatia do cartaz do gigante de Barcelona (mas sem a escala deste, concentrando a oferta num número mais reduzido de palcos), o festival do Parque da Cidade começou por ser espaço das sonoridades que, desde os anos 90, apelidamos de ‘música alternativa’ e que a economia verbal nos levou a resumir por indie. Sim, havia espaço para a novidade e atenção às colheitas mais recentes, mas a matriz era sobretudo indie rock, com aquele espírito de ‘imensa minoria’ que, por cá, se associava apenas ao festival de Paredes de Coura — organizado, de resto, pela mesma equipa. Atentemos nessa edição inaugural capitaneada por referências da música elétrica deslocada do mainstream como Flaming Lips, Wilco, Beach House ou Spiritualized. Avancemos um ano para encontrar Breeders, Blur, Dead Can Dance, My Bloody Valentine, Nick Cave — e, por baixo de bastiões dos alternativismos pós-80, uma legião de ‘esperanças’ da mesma linhagem. Agora saltemos até 2019 para abrir as portas a J Balvin (um dos nomes cimeiros do ‘adolescente’ MEO Sudoeste do ano passado), Solange (a irmã ‘alternativa’ de Beyoncé) ou Rosalía (revelação do flamenco pop). A mudança de temperatura, experimentada de forma menos abrupta nas últimas edições, foi imediatamente sentida pelos puristas que, mal se anunciou o cartaz desta edição, mostraram visível incómodo por encontrar os circunspectos Interpol (revivalistas do pós-punk do início dos anos 00) e J Balvin (cantor colombiano de reggaeton) na mesma linha. Contudo, apesar de erodir uma imagem de festival indie (e, em boa medida, adulto), esta aposta mais vincada na música latina, na pop harmonizada com o R&B e num som mais contemporâneo (a que a expressão ‘urbano’ não faz inteiramente jus) não é mais do que o sinalizar de que os próprios ritmos migratórios da música moderna vão nesse sentido — no streaming, nas views, nos gostos firmados de uma geração que nasceu online e encara o gosto musical de forma dessacralizada.

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