Perfil

Vida Extra

E Cannes fez Bong! — a análise de quem acompanhou cada minuto do Festival de Cannes

Pouco haveria a apontar à Palma de Ouro entregue a “Parasite” — que é um bom filme, mas não o melhor de Bong Joon-ho — não fosse o sul-coreano se ter batido com uma concorrência superior. O palmarés foi político e teve a coragem de distinguir novos valores

Francisco Ferreira

enviado a Cannes

Bong Joon-ho com a Palma de Ouro conquistada por “Parasite”

PASCAL LE SEGRETAIN/ GETTY IMAGES

Cannes 2019 foi um festival memorável, com assinaturas que confirmaram o que delas se esperava (Almodóvar e Tarantino); outras tantas que nos deixaram os seus melhores filmes dos últimos anos (Almodóvar entra também nesta lista, tal como Bellocchio, Desplechin, Porumboiu ou Céline Sciamma); experiências cinematográficas que atordoaram a Croisette e a dividiram ao meio — foi o caso de “Mektoub, My Love: Intermezzo”, novo filme, ainda work in progress, de Abdellatif Kechiche; por último, a emergência de novos valores e de uma cineasta que, aos 36 anos, entrou em Cannes pela porta grande, com uma primeira longa-metragem notável e logo reconhecida pelo júri de Iñárritu com o segundo prémio mais importante do festival — Mati Diop e o seu “Atlantique”. À medida que se acompanhou online o festival — nas crónicas diárias do site Vida Extra do Expresso — surgiu cedo a perceção de uma grande edição a desenhar-se, com energia renovada. É bem provável que as mudanças trazidas pela Quinzena dos Realizadores — secção paralela, dirigida pela primeira vez pelo italiano Paolo Moretti (ali passaram, entre outros, “Le Daim”, de Quentin Dupieux, e “Zombi Child”, de Bertrand Bonello, ótimos filmes que poderiam perfeitamente ter concorrido pela Palma se a quota francesa não estivesse já lotada) — tenham contribuído para o panorama mais aventureiro em muitos anos.

E com isto tudo, entre o alarido de um novo Tarantino recheado de estrelas de Hollywood, a declarar, uma vez mais, o seu amor ao cinema e a sua queda para interpelar a história (“Once Upon a Time... in Hollywood”), e um Almodóvar ‘proustiano’, a resumir quarenta anos de cinema do espanhol focado nos seus paraísos perdidos (“Dolor y Gloria”); entre as derivas espirituais de um Malick (“A Hidden Life”), as crónicas terra a terra de um Loach (“Sorry We Missed You”) e as hipóteses de reconversão à realidade do jovem jiadista dos irmãos Dardenne (“Le Jeune Ahmed”); já para não falar em toda uma horda de zombies, parábolas do Homem contemporâneo, servidas com resultados desiguais por Jarmusch (“The Dead Don’t Die”), no já citado “Atlantique”, de Mati Diop, ou nas ‘flores do mal’ de “Little Joe”, de Jessica Hausner, quem passou entre os pingos de chuva rumo à vitória foi o filme acolhido com maior entusiasmo nas 21 sessões de imprensa da competição do festival (e, soube-se depois, aquele que maior unanimidade recebeu dos jurados): “Parasite”, de Bong Joon-ho.

Para ler o artigo na íntegra, clique AQUI.

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.