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Vida Extra

Entrevista ao protagonista da série que já destronou “A Guerra dos Tronos” e “Breaking Bad” no IMDb

O Vida Extra falou com Stellan Skarsgård, um dos protagonistas de “Chernobyl”, já disponível em streaming na HBO Portugal. A série tornou-se um sucesso

Estreou de forma discreta, longe dos holofotes mediáticos de outras apostas da HBO, mas isso não travou o caminho para o sucesso que a série está a percorrer. Os espectadores estão a seguir a transmissão de “Chernobyl” de perto e têm votado em massa na produção europeia.

Na plataforma IMDb, “Chernobyl” tem uma classificação de 9,7 em 10 (57.365 votos), acima de séries como a épica “A Guerra dos Tronos” — com 9,4 em 10 (1.525.724 votos) — ou “Breaking Bad”, com 9,5 em 10 (1.201.719).

O Vida Extra falou com Stellan Skarsgård, um dos protagonistas do relato do maior desastre nuclear da história e das suas consequências:

© Home Box Office

O que já sabia sobre o Desastre de Chernobyl antes de aceitar o papel?

Estava vivo quando aconteceu e lembro-me de acompanhar as notícias assim que o desastre aconteceu. Estava na Suécia e vi o deteriorar da situação. Por causa do vento, os efeitos acabaram por lá chegar. Vieram as chuvas e não pudemos comer cogumelos, bagas, framboesas de algumas regiões durante anos… Estava bastante consciente do desastre.

Como é que descreveria a personagem a que dá vida?

O meu papel é o de Borys Shcherbyna, o homem que o governo soviético colocou a comandar a investigação. No início pensavam que tinha sido apenas um tanque de água que tivesse explodido, portanto ele achou que não era nada de grave. Mas assim que chegou ao local percebeu o quão terrível o incidente tinha sido.

Sendo o processo da investigação extremamente obscuro e ainda hoje não totalmente claro, como é que se preparou para o papel?

Primeiro que tudo, tenho de perceber de que forma é que o guião e a história precisam da minha personagem. Porque já sei à partida que não consigo pintar um retrato completo de um ser humano, apenas mostrar uma parte. Fiz alguma pesquisa sobre ele, vi algumas fotos… Ele era pequeno e gordo, e eu sou bastante mau a interpretar homens pequenos e gordos…

A culpa não é sua...

Eu sei, eu sei, não é… Mas havia muita pouca informação útil sobre ele… Por isso basicamente inventei uma personagem que sirva o propósito da série. A coisa mais importante é que se trata é um homem do regime soviético, que passou a vida toda a trabalhar e a defender um sistema em que confia a 100%. Acredita totalmente no regime. Mas depois é confrontado por este acidente, e apercebe-se de que o acidente aconteceu por causa do sistema. Foi um acidente criado pelo sistema. E ele tem de escolher entre defender o regime a que dedicou toda a sua vida, ou defender a verdade.

E começa a questionar todas as notícias falsas com que o regime minimiza o desastre…

Sim. As pessoas responsáveis pela central não sabiam das falhas técnicas dos reatores nucleares… Se soubessem, tinham evitado a catástrofe, mas não tinham a informação. A União Soviética era supostamente um sistema perfeito, que não aceitava falhas, nada que ameaçasse a imagem do sistema. É o mesmo que se passa na religião ou nos nacionalismos, tudo tem de ser perfeito… Se tudo tiver de ser perfeito, a verdade começa a ser suprimida.

A série de alguma forma também lida com essa realidade atual?

Completamente. E essa é uma das razões pela qual penso que a série é importante nos dias de hoje. Não é só as fake news… Estamos a começar a relativizar a verdade. As pessoas dizem “essa é a tua verdade, não é a minha”. Podemos ter opiniões diferentes, mas a verdade não é algo sobra a qual possas ter uma opinião. Se saltares de um precipício, cais, não interessa qual é o teu partido político.

E a ciência também começa a sofrer com isso…

Exacto. E a série também defende os cientistas. Os cientistas defendem a verdade, e é essencial ouvi-los, porque ninguém sabe mais do que as pessoas que passam toda a sua vida a tentar descobrir verdades. Às vezes descobrem toda a verdade, outras vezes descobrem parte dela, mas [o conhecimento] é o melhor instrumento que temos. Mas os humanos gostam de ir pelo caminho mais fácil. Se a verdade é desconfortável, não olhamos para ela. Estamos a queimar o planeta neste momento, daqui a alguns anos vai ser demasiado tarde para o salvar, e muitas pessoas sabem-no mas preferem olhar para o outro lado. A série é extremamente precisa e mostra com exatidão as terríveis consequências de arranjar atalhos, de querer poupar dinheiro quando a situação não o permite, etc.

Como é que foi o processo das filmagens?

As filmagens foram muito boas. Filmamos na Lituânia e tive a oportunidade de trabalhar com a Emily Watson, com quem já não trabalhava desde o “Breaking the Waves” [filme de 1996 do realizador Lars Von Trier]. Desta vez estávamos vestidos [risos].

Sentiu que os sets eram parecidos com a realidade? Imitavam bem a cidade fantasma que Chernobyl se tornou ao longo dos anos?

Sim. Aliás, toda a produção da série foi rigorosa e bastante detalhada. Até as roupas que usei! Fizeram os meus fatos com tecidos da União Soviética daquela época. Foi extremamente desconfortável, mas bastante preciso.

Também filmaram em Kiev, certo?

Sim, mas eu não filmei nenhuma cena em Kiev a não ser uma cena que envolveu um helicóptero.... o interior desse helicóptero foi filmado em Kiev. Estive alguns dias na cidade e dentro daquele helicóptero. Estivemos o tempo todo sentados a fingir que voávamos.

Acha que a série vai reavivar o tema de Chernobyl e a sua investigação? Talvez até em termos políticos?

Não sei. Há muita gente a fazer esse tipo de filmes, mas são sobretudo documentários ou filmes de baixo orçamento. O que é fantástico é a HBO fazer uma série destas, com centenas de atores e um grande orçamento, e ser sobre um tema tão sério. Não é puro entretenimento. Fiquei bastante impressionado com a HBO e com a companhia britânica Sister Pictures, que investiram tanto em algo tão importante. Não é uma coisa qualquer só para as pessoas verem.

E o facto de ser tão realista mas não deixar de ser ficção , ao contrário do que aconteceria com um documentário, é uma vantagem para contar a história?

Sim, porque é cientificamente e politicamente precisa. Tudo o que acontece na série aconteceu na vida real. Claro que algumas personagens são, até certo ponto, fantasias, misturas de várias pessoas... mas a essência da série é tremendamente realista. E gostei imenso de trabalhar com o Craig Mazin [criador] e com o Johan Renck [realizador] por causa disso, eles tinham uma grande ambição de não transformar tudo em puro entretenimento, de não açucarar os factos, de tornar a história mais emotiva ou mais… digerível. A brutalidade da série… é o que é.

É uma série pesada…

Acho que é negra, mas ao mesmo tempo não é depressiva. Já vi as cinco horas da série e tem uma energia imensa. Foi importante para começar a pensar nalgumas coisas. Não acho que a arte sirva para mudar o mundo, mas acho que pode por as pessoas a pensar um pouco mais, e estou muito feliz por termos conseguido fazer isso com esta série.

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