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Vida Extra

Dez anos depois, Xavier Dolan ainda não conseguiu matar a mãe

“Matthias et Maxime” é leite derramado no pranto do cineasta canadiano

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

Gabriel D'Almeida Freitas e Xavier Dolan em "Mathias et Maxime"

Xavier Dolan deveria ter cautela com o que está a fazer e esta é a ideia mais óbvia que se traz à saída de “Matthias et Maxime”. Tem 30 anos feitos em março, estes também já lhe pesam como para toda a gente, e ameaçam uma precocidade rara – são oito as longas-metragens no espaço de uma década – que Cannes continua a suster, porque Dolan se tornou 'um dos seus'.

Mas temos problema: o que o canadiano fez antes (e deixando de lado a sobrevalorização cannoise) foi muito melhor do que o que ele faz hoje. O anterior (e anglófono) “The Death and Life of John F. Donovan”, esse, foi um naufrágio completo que o cineasta, após montagens, remontagens, e uma péssima receção no ano passado em Toronto, só pode querer esquecer. A histeria geral, por outro lado, tendeu a aumentar exponencialmente desde “Mommy” (2014). E o cineasta que aqui em Cannes (foi na Quinzena dos Realizadores) disse há dez anos “J'ai tué ma mère”, não consegue livrar-se da obsessão que tem atravessado todo este período criativo. Porque Dolan só sabe dizer uma coisa, de um filme a outro: “Eu quero ser amado” (by his mommy...).

“Matthias et Maxime” não destoa. Dolan volta a estar atrás e à frente de uma câmara à beira de um ataque de nervos, é ele o Maxime do título, prepara-se para partir dentro de semanas para a Austrália, deixando Montréal por dois anos. Mathias (Gabriel D'Almeida Freitas, québecois de origem portuguesa) é o seu amigo de infância. Uma miúda do círculo familiar de um deles está a fazer uma curta-metragem e nessa curta, em que eles aceitam participar como atores sem grande entusiasmo, há uma cena em que ambos têm que dar um beijo (na boca).

CONSEQUÊNCIAS INESPERADAS

Com oráculos em countdown para a viagem de Maxime aos cangurus, Dolan começa a preparar uma personagem para a vitimização: pai ausente, irmão mais velho morto em acidente, mãe com passado toxicómano (de novo Anne Dorval, a mãe de “Mommy”). Maxime tem uma enorme cicatriz no rosto. É a sua casca de ovo de Calimero à procura de rasgos operáticos num quotidiano comum, muito polvilhado de 'franglês', referências pop, autocondescendência até mais não. Há uma banda de amigos que orbitam em torno dele. Para Dolan, é um último refúgio. E há o tal beijo, inocente, anódino, falso porque é de cinema, mas que leva a partir dali Maxime e Matthias a reconsiderar uma amizade que talvez seja também amorosa – e a sombra da mãe, a manifestar-se sempre, a dependência emocional, entre festas, discussões, gritaria.

Dolan chamou a “Matthias et Maxime” um filme de transição a querer fechar um ciclo (com a chegada dos 30 anos). Transição, foi coisa que não se notou minimamente. Esperemos que Dolan o contradiga: tem vida que baste para o fazer. É urgente que abandone este casulo preocupante onde a vida não passa de um somatório de tiques, esgares e hesitações.