11h27 24 Mai 19
Cannes 2019 começou, coisa inédita, com três batalhas campais nos três primeiros títulos que se apresentaram a concurso. Primeiro foi no filme de zombies de Jarmusch, “The Dead Don’t Die” — com as criaturas sobrenaturais a servirem acima de tudo uma farsa que é menos política do que autorreferencial (é um Jarmusch de segunda linha, e “os zombies somos nós”, disse ele). Em seguida, mais batalhas com a crónica das primeiras 24 horas de serviço de um polícia da província atirado (e chocado) com o que se passa numa banlieue de Paris, tal como ela foi fixada, com conhecimento do terreno, em “Les Misérables”, do franco-maliano Ladj Ly — impermeável a um miserabilismo social que se temia encontrar, esta primeira obra falha sobretudo enquanto thriller de nervo que também gostaria de ser. O filme recorre com frequência às imagens de um drone (usado na história por um miúdo do bairro periférico de Montfermeil), e isso revela, mais do que um mergulho naquela realidade, uma teatralização da violência que nos chega como gesto performativo.
De seguida apareceu “Bacurau”, terceira longa-metragem de Kléber Mendonça Filho, coassinada com Juliano Dornelles, a focar-se no futuro próximo de um Brasil que, é-nos sugerido, já tombou no faroeste. E é como nos westerns que Kléber filma aquela aldeia que tem nome de pássaro noturno e dá título ao filme, de novo, tal como em “Aquarius”, com Sónia Braga no papel da personagem mais lúcida e atenta ao perigo.
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