16h25 23 Mai 19
Naquele hotel luxuoso em Sintra, há muita gente a rodear a atriz Françoise Crémond, Frankie para os amigos, que nos avisa desde logo que é fotogénica após um mergulho na piscina. Não sabemos que tipo de atriz ela é. Mais tarde ouve-se que Frankie entrou num filme chamado “Os Dossiers do Vaticano”, que não augura coisa boa, e o tom de ironia de Ira Sachs sobre o seu setor profissional, embora tímido, não vai ficar por aqui. Seguramente, Frankie pouco ou nada terá que ver com Isabelle Huppert, em simultâneo o rosto principal do star system francês e a sua atriz mais exigente. Ira Sachs bem pode agradecer-lhe: foi ela quem abriu as portas da competição de Cannes ao norte-americano.
Frankie chamou para umas férias sintrenses o filho Paul, (Jérémie Renier), o atual marido, o irlandês Jimmy (Brendan Gleeson), a enteada Sylvia, que vive em Londres (Vinette Robinson), mas também o ex-marido francês, Michel (Pascal Greggory), pai de Paul, e uma amiga de Nova Iorque, Ilene (Marisa Tomei), que também trabalha em cinema, como cabeleireira. Esta última, por sua vez, trouxe sem avisar o diretor de fotografia com quem anda a sair (Greg Kinnear), também americano, e que acaba de terminar a rodagem de um filme de “Star Wars” (!).
De novo a trabalhar com o seu argumentista habitual, o brasileiro Maurício Zacharias, Ira Sachs, autor de “Love is Strange” e “Little Men”, vai acompanhar estas personagens em torno da matriarca que não gosta que lhe chamem “madura” (porque é uma ofensa, diz ela). À sua volta, há casais que se desintegram: Sylvia está a separar-se do marido, Paul não arranja companheira estável (Frankie imagina que ele se podia entender com a cabeleireira), Ilene trouxe um suposto namorado que mostra ser um tanto fanfarrão nos seus avanços e decide que o melhor é separarem-se, e até Tiago (Carloto Cotta), o guia turístico de Braga que anda por ali a mostrar a Peninha, a Igreja de Santa Eufémia e outros cartões-postal em pano de fundo, se queixa que lida mal com os ciúmes exagerados da mulher.
É curioso notar: na romântica Sintra, não há em “Frankie” sinais de romantismo algum. As personagens, metidas com os seus problemas, mal olham para a beleza que as rodeia (fotografia de Rui Poças), apesar do esforço do guia turístico, nem prestam especial atenção à matriarca que os chamou. Recordamos então que, se foi de amor que falaram os primeiros filmes de Sachs em Memphis, foi na morte que incidiram os mais recentes, em Nova Iorque. E é com estes dois elementos – amor e morte – que o cineasta tenta coser a teia entre as personagens, no dia em que Frankie, sabendo-se gravemente doente, reúne os mais próximos para se despedir deles, fechar contas com a vida e talvez saldar com o passado outras tantas.
Ira Sachs está longe do seu habitat natural nos States e a lidar com uma classe social que nem sequer costuma ter lugar nos seus filmes. Não descobre desta vez aquela distância íntima que caracteriza o seu trabalho e que torna complexas as relações entre as personagens. Por vários motivos: Huppert, atriz que 'interpreta sem interpretar', consegue sempre tirar ambiguidade ou sugestão de qualquer momento de boçalidade (estamos a lidar, resumidamente, com uma burguesia um tanto bafienta em férias), mas não se pode pedir o mesmo a um Greg Kinnear ou a um Jérémie Renier, que ficam desamparados e até em situações de embaraço, sem saberem o que fazer com as mãos.
Depois, neste filme poliglota, há uma ausência gritante de conflito entre as personagens, agarradas aos seus pequenos problemas amorosos, em contraste com o estado terminal da protagonista. E essas personagens, que não têm, de facto, grande coisa a dizer ao mundo, não nos deixam mais do que o seu enunciado, ao contrário do que se passava em “Love is Strange” e “Little Men”: “Frankie” não permite que elas se desenvolvam, nem lhes dá tempo - passa-se tudo entre uma manhã e um pôr-do-sol do mesmo dia na Peninha. Será por isso que os cartões-postal tão bem enquadrados pela câmara de Rui Poças começam a tornar-se mais evidentes do que deviam?
“Frankie” é um filme menor de Sachs. Tem uma boa história escrita no papel com insinuações tchekhovianas mas o resultado tomba na indiferença e numa melancolia vaga que de pouco servem a quem quer que seja, incluíndo produtores e o próprio autor. A crítica, sobretudo a anglo-saxónica que nunca viu um filme de Rohmer com olhos de ver, não o ajuda. Sem perceberem que na efemeridade aparente das criaturas de Rohmer há crueldade, desejo e malícia, chamam a Sachs um “rohmeriano” e ele só sai vergado da absurda comparação.
Idir Ben Addi, um jiadista em potência em “Le jeune Ahmed”, dos Dardenne
“LE JEUNE AHMED”: A PUREZA E LOGO O FANATISMO
Já o caso dos Dardenne é diferente: face à crítica, Luc e Jean-Pierre atravessam um purgatório constrangedor que não vem de ontem e que, sinceramente, já esgotou o argumentário. Porque este é o mesmo de sempre: “estão a repetir-se, fazem o mesmo filme, e já o fizeram melhor...”, etc. Não sai de Cannes crítica depreciativa aos belgas que não cite, sempre e sem exceção, algum título anterior. É como se, a priori, se tivesse decretado uma recusa em olhar para o novo.
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Valerie Pachner e August Diehl em “A Hidden Life”, de Terrence Malick
“A HIDDEN LIFE”: UM MALICK COM PRINCÍPIO, MEIO E FIM (PELO MENOS)
A esperança de se encontrar um Malick 'direitinho' desde a deriva cósmica de “A Árvore da Vida” - que foi lançada aqui em Cannes e que, por ter sido a primeira, pasmou meia Croisette (júri de Robert de Niro inclusivé, que a premiou a ouro em 2011) -, aumentava as expectativas em torno de “A Hidden Life”. Malick realizou entretanto cinco filmes em oito anos - mais do que tinha feito na primeira parte do seu percurso em quatro décadas – e bateu no grau zero e na exaustão dos seus limites no penoso “Song to Song”, de 2017.
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