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Tarantino, o vingador

Quanto mais alta está a fasquia, mais alto é o salto, o que Quentin promete, Quentin dá: “Once Upon a Time... in Hollywood” não é apenas o acontecimento – agora confirmado – que Cannes 2019 estava à espera, é também o filme mais arrebatador deste festival

Francisco Ferreira enviado em Cannes

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio em “Once Upon a Time... in Hollywood”

Andrew Cooper

É preciso começar pelo que se passou antes da sessão, quando o francês Henri Béhar, que colabora há décadas com o Festival de Cannes, subiu ao palco e pegou no microfone com uma breve mensagem para a imprensa. Era um pedido de Tarantino. Ele também é um cineasta diferente dos demais por episódios raros como este. O que estava escrito, sucintamente, era semelhante ao que podemos ler no genérico de abertura de “Psico”, de Hitchcock. E cito de cor: “Não revelem nada do filme que impeça todos os outros espectadores de o descobrirem com a mesma frescura que o descobrirão agora.” Uma promessa, agora com os dedos no teclado: nada se revelará, Quentin. “Once Upon a Time... in Hollywood” (é com as reticências que aparece no genérico e elas não estão lá por acaso) tem 2h41, passam a correr, num flash, como é hábito nos filmes dele. E o que não é para contar, pelo menos aqui, não será contado, até porque é tão extraordinário que, se contado fosse, ninguém acreditaria.

Mas é nos permitido dizer que o diesel que faz Quentin carburar se chama vingança? Atenção: não há espectador que o veja com olhos de ver que não o saiba, apesar da vingança, de um filme a outro, estar sempre doseada com variável potência. Mas há indícios, muito cedo em “Once Upon a Time...” , que nos levam a pensar, a toque de lança-chamas, que é esse o caminho a ser trilhado outra vez. Rick Dalton - DiCaprio a um nível tão estratosférico que, francamente, já não há palavras para o que faz - está no lado errado da profissão. Ele não se desenrasca mal, é ator de séries, westerns, sobretudo, mas os seus espectadores estão na TV e é no cinema que ele gostava de singrar. Na TV, faz coisas que, porventura, no cinema não faria. Algumas velhacarias e outras malandrices, adequadas ao género que lhe cai no prato. Num dos episódios que se interlaçam no presente de Rick e nos contam como tem sido a sua ainda breve, mas já exausta carreira, vêmo-lo a assar nazis com um lança-chamas – ora aqui está o primeiro indício, senhoras e senhores, porque há dez anos Tarantino mostrou aqui em Cannes um filme chamado “Inglourious Basterds”.

Rick Dalton (DiCaprio), ator de westerns, em ação

Rick Dalton (DiCaprio), ator de westerns, em ação

Voltemos a “Once Upon a Time...”. Tarantino lança uma data de partida: 8 de fevereiro de 1969. Estamos em Los Angeles, em Hollywood, claro. Rick tem um best buddy, que é também o seu duplo privado que o substitui nas cenas de risco e depende dele financeiramente: Cliff Booth (Brad Pitt), veterano de guerra, que só pode ser a do Vietname. A cidade esta pejada de hippies. Rick não tem propriamente simpatia por eles, nem Cliff por Dennis Hopper (aliás, no período em que se passa o filme, Hopper, citado num diálogo, era também um ator de TV, e estrearia no verão desse ano a sua primeira obra como realizador, que é o mais hippie dos filmes, “Easy Rider”). É que Rick, mesmo descontente, ganha quanto baste para ter casa generosa com jardim e piscina. É rapaz de Beverly Hills e vive numa rua que, em breve, se tornará na mais amaldiçoada de todas as ruas de L.A.: Cielo Drive.

Mas deixemos Cielo Drive por agora. Há um aspeto importantíssimo aqui, e que é histórico, porque “Once Upon a Time...” passa-se num período em que os estúdios americanos, tal como eles o tinham sido no cinema clássico, já estavam em irreversível decadência. Não só o cinema estava a caminhar para a Babilónia a velocidade vertiginosa, em sintonia com as novas vagas do resto do mundo (abrindo caminho à New Hollywood já lançada por “Bonnie e Clyde” e aos Movie Brats, Coppola, Scorsese, De Palma...), como a TV, com os seus telefilmes e seriados, começava a ganhar-lhe popularidade e terreno. Acontece que Rick é um tipo orgulhoso e, atrás da capa do seu narcisismo que se envergonha na TV, ainda tem os olhos, quem sabe se o gosto, no passado – e por isso se acha um has been. Isto é notório no momento em que o seu agente, Marvin Schwarzs (Al Pacino), lhe oferece às tantas uma oportunidade de ir para Itália filmar com Leone – sugere-lhe que talvez a Cineccità lhe abra a porta que Los Angeles lhe fecha. Rick recusa e confessa depois a Cliff o seu desdém pelo western spaghetti, “uma imitação”, diz ele, se a memória não falha.

Tarantino é brilhante a entrelaçar na ficção a realidade histórica (ou vice-versa). Ou melhor: a estabelecer pontos de contactos entre a invenção, o que a história lhe dá e a percepção e conhecimento que, eventualmente, o espectador tem desta. “Once Upon a Time...”, neste sentido, é um 'Tarantino novo' e também aquele que mais impregnado está de cinema, com filmes dentro do filme, rodagens dentro da rodagem, histórias de bastidores (a personagem do duplo conduz a isso), algumas certamente verificadas, outras que só podem ter nascido da sua fértil imaginação.

Jamais Tarantino tinha sido tão frontal a beber desta fonte. Em “Once Upon a Time...”, ele autoriza-se a filmar festas na mansão da Playboy com Steve McQueen entre os convivas, encontros em estúdio com Bruce Lee, e há aqueles momentos, miraculosas ilusões, que recriam ao pormenor avenidas inteiras do bairro de Hollywood, com os seus maravilhosos automóveis sixties e as fachadas dos cinemas a transbordarem de cor e de luz. Não se sabe como Tarantino o fez, que CGI usou (usou-o certamente), que ferramentas encontrou, mas o resultado fica à escala do prodígio, sejamos justos.

Quentin Tarantino numa foto de rodagem

Quentin Tarantino numa foto de rodagem

HELTER SKELTER

Avançámos até agora muito pouco na ação de “Once Upon a Time...”, o pedido de Quentin exige cautela. Logo no início, com o 'Mrs. Robinson' na banda-sonora, Rick olha para a casa ao lado e para os seus vizinhos, elegantíssimos, que chegam num descapotável. Agora sim, Cielo Drive: casados um ano antes, os vizinhos são ilustres, Roman Polanski e Sharon Tate. Rick conhece-os como toda a Hollywood então os conhecia. Sonha até poder um dia ser ator de um filme dele, quem sabe se uma festa na piscina da casa ao lado não se proporciona um dia...

Noutra cena, uma rapariga que, por três vezes, pisca o olho a Cliff na mesma esquina acabará, à terceira, por lhe sacar boleia para Spahn Ranch, outrora um estúdio de cinema e de TV em que, na década anterior, se filmaram westerns (entre eles a série “Bonanza”) e que, em 1969, já estava em declínio. Tudo isto é factual, preto no branco, e está certo, tal como certa é a aparição de George Spahn (Bruce Dern), dono daquela propriedade, e que Cliff encontra, anos depois de o ter visto pela última vez, decadente e deitado numa cama. E é em Spahn Ranch, onde Cliff é mal recebido por quem lá vive agora, que se ouve falar de um certo Charlie, que já antes viramos a bater a uma certa porta.

Vamos lá pôr os pontos nos is, sem quebrar promessas a ninguém: não há quem não navegue na Net e não descubra, se quiser, em escassos segundos, aquilo que há meses já se sabe de “Once Upon a Time...”: que o filme e a aventura de Rick e de Cliff vão coincidir com o Helter Skelter. Ficaremos em fevereiro neste texto, seis meses antes do fatídico 9 de agosto em que o sangue escorreu a rodos em Cielo Drive, com o assassínio de Sharon Tate e de quatro outras pessoas às mãos da Manson Family. Era em Spahn Ranch que a família se refugiava nessa altura. A família tratava Manson por Charlie. E é também por aqui que ficamos.

Mas não sem dizer que o filme de Tarantino mais restringido no tempo histórico, é também o seu filme mais 'out of time'. Mas não sem dizer que, num festival pejado de filmes de zombies, também Tarantino a uma dada altura inventa os seus (e são as personagens mais estereotipadas do filme), quando Cliff sai de Spahn Ranch com aquele Cadillac Super Coupé amarelo que Rick lhe emprestou. Mas não sem dizer, por fim, que, tal como se indicou no início do texto, Tarantino está disposto a abraçar, pela vingança que o cinema permite, um estado de transcendência que há muito tempo, mesmo nos próprios filmes de Tarantino, não tem paralelo recente na história do cinema. De tanto invocar a História, Tarantino encontrou-a. Deu-lhe um destino que é o do seu desejo. Neste sentido, “Once Upon a Time...” é um filme de fé absoluta no cinema e é por causa dessa fé que as reticências do “era uma vez...” fazem sentido.

À saida da sala Debussy, só “merci”. Porque há imitações da vida que são assim: pegam na História, mas não ficam do lado dela. Constroem uma utopia em que a ruindade do ecrã responde à ruindade do mundo. Dão voz aos que a perderam e até aos que nunca a tiveram. Inventam um tempo que é só delas, sem tempo. Como no “era uma vez...” Estamos em Hollywood.