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Vida Extra

Os zombies que contam em Cannes vêm do Senegal e do Haiti

“Atlantique”, de Mati Diop, na Competição, e “Zombi Child”, de Bertrand Bonello, na Quinzena dos Realizadores, abordam o sobrenatural com resultados extraordinários

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

“Atlantique”, de Mati Diop

Possessões, possuídos, mortos-vivos, mas também vivos-mortos que talvez não tenham tanto que ver com o cinema e os seus clichés: Cannes está cheio deles este ano desde o ludismo amuse-bouche de Jarmusch em “The Dead Don't Die”, mas o assunto começa a ganhar outro peso e seriedade à medida que o festival avança. É que o sobrenatural chegou também por um africano desesperado que deixa para trás a mulher que ama e se faz ao mar, como tantos migrantes, morrendo afogado. Chegou, ainda, de um desgosto de amor adolescente que deixa uma tal vontade de morrer, que é a própria morte que se esconjura no ecrã.

“Atlantique”, filme em competição, descobre um ritmo estranho e uma inquietude poética rara para falar da maior tragédia que a Humanidade enfrenta neste século: a de todos aqueles que tentam agora, por via marítima, dar o salto intercontinental de África em direção à Europa e fracassam. Atriz ocasional revelada há mais de dez anos em “35 Rhums”, de Claire Denis, parisiense com raízes em África, filha do compositor Wasis Diop e sobrinha do grande cineasta senegalês Djibril Diop Mambéty (1945-1998), Mati Diop, após o documentário “Mille Soleils” e um punhado de curtas, desembarcou em Cannes com uma primeira longa-metragem que nos leva para um bairro dos arrabaldes de Dakar.

Em “Atlantique”, um grupo de operários miseráveis trabalha na construção de uma torre megalómana. Há três meses sem salário, alguns, aflitos, são tentados pela emigração clandestina. Um deles é Souleimane, que ama Ada, de 17 anos, mulher prometida pelos pais e pelas regras da sua etnia a outro homem. Tudo isto precipita a partida dele. Para os senegaleses, para tantos africanos, o mar é o sepulcro daqueles que nunca voltam. Mati filma o amor a prazo de Souleimane e Ada como um vento que passa e uma sensibilidade finíssima, um idílio utópico, mas Ada não tarda a transformar-se em Penélope à espera do seu Ulisses: Souleimane desaparece com um grupo de homens numa piroga sem deixar rasto nem dizer adeus. E do mar, vêm tempestades e más notícias.

Só que a crónica social que já se insinuara ao melodrama e entretanto atira Ada para um casamento forçado e infeliz (o tempo passa) não tarda, numa segunda parte notável, a ceder terreno ao sobrenatural — e ao súbito regresso de Souleiman em zombie às noites febris de Dakar. Que quer Souleimane, e o resto dos mortos que vêm assombrar os vivos? Não inscrever pela enésima vez mais um capitulo a um cinema de género que é pau para toda a colher, não sublinhar, por ele, a enésima metáfora política sobre o estado do mundo, mas sim gerar um discurso de revolta que, pela ficção, deseja reparar o destino: estes zombies de Diop não atravessam apenas as fronteiras da racionalidade, vêm também para cobrar o seu quinhão àqueles que os tornaram espectros. Não são os mortos-vivos do cinema, antes os vivos-mortos da realidade.

Louise Labèque no ritual vodu de “Zombie Child”, de Bertrand Bonello

Louise Labèque no ritual vodu de “Zombie Child”, de Bertrand Bonello

“ZOMBI CHILD”: MAGIA NEGRA

O corajoso oitavo filme de Bertrand Bonello é um tour de force que começa pelo seu título e por uma palavra, zombi, que deixa logo o espectador em expectativa. Não é de agora que o francês se sente atraído nem pelo medo, nem pelo sobrenatural. Na Port-au-Prince de 1962, um homem que existiu, de facto, Clairvius Narcisse (1922-1994), ganhou notoriedade por ter sido zombificado pela ditadura do país. Do mundo dos mortos voltou e diz-se que, por isso, viveu duas vezes. O ritual está, na verdade, ligado à história do esclavagismo no país e à exploração da cana de açúcar.

Na Paris atual, no prestigiado liceu interno feminino da Legion d'Honneur (acolhe meninas pobres ou órfãs de guerra cujos pais ou avós mereceram essa distinção), Melissa (Wislanda Louimat), adolescente haitiana que perdeu os pais nos terramotos que arrasaram a ilha em 2010, confia os segredos da sua família a um grupo de amigas da sua idade: ela é, na verdade, neta de Clairvius Narcisse, ou melhor, é uma personagem de Bonello, que assim se apropria ficcionalmente de um facto verídico.

“Zombi Child” vai alternar as narrativas destas duas linhas de tempo e induzir um chamamento em que as tragédias de um facto histórico tendem a repercutir-se noutro lugar e noutro contexto, sem outras fronteiras que não sejam as que separam a vida da morte, numa França que também foi uma potência colonialista e num colégio fundado pelo imperialista Napoleão.

Um estado de transe começa então a nascer no filme e a ganhar forma, entre os anos 60 e a atualidade, à medida que sabemos do destino de Clairvius Narcisse e nos habituamos às escapadelas noturnas de Melissa e das amigas, que se contam histórias secretas à luz da vela enquanto procuram macabros filmes de exorcismos reais ou simulados no YouTube. Sabemos depois que Fanny (Louise Labèque, uma revelação!), uma das alunas, sofreu um desgosto de amor adolescente que lhe tirou a vontade de viver. E é por Melissa que Fanny contacta em seguida uma 'mambo' (uma sacerdotisa do vodu haitiano), para que esta a ajude a reencontrar o amor do rapaz que perdeu.

Bonello sabe que está a trilhar areias movediças mas pega o touro pelos cornos e, sem virar a cara, leva-nos para este mundo paralelo. “Zombi Child” crê nessas forças, com a mesma naturalidade com que Rouch as filmava em “Les maîtres fous”, a mesma solenidade demoníaca de “O Exorcista”, de Friedkin, os mesmos recursos de artesanato (é brilhante aqui a sugestão do campo-contracampo) que tornaram eficazes tantos filmes de adolescentes de Wes Craven.

E contudo, não é do cinema nem de uma relação referencial com o cinema que vem este transe. A nível histórico e político, o combate que se sugere está entre o país dos Tonton Macoute do qual Clairvius Narcisse foi vítima e uma França, potência colonialista representada por uma rapariga de um colégio de elite, que vai desencadear um chamamento de forças incontroláveis que ela não sabe, nem pode, dominar. Bonello é um bravo. Tal como “Atlantique”, “Zombi Child” é um filme de fé ancorado na Terra e na vida dos homens. Insinua-nos o sobrenatural e dá tempo ao tempo para que esse efeito se construa. Até chegarmos a um ritual de explosão vodu que é um dos momentos mais empolgantes deste festival até à data.

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