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Cannes: Almodóvar voa para a Palma

“Dolor y Gloria” é um filme autobiográfico cheio de coisas concretas mas também ambiguidades que se entrelaçam pela ficção. Um jogo de espelhos em que o protagonista é um cineasta com medo de ter perdido o alento e o desejo. Ovação enorme em Cannes: Almodóvar sabe que trouxe o seu melhor filme desta década

Francisco Ferreira, enviado a Cannes

Antonio Banderas e Nora Navas em “Dolor y Gloria”

Há muito a dizer de “Dolor y Gloria” e podemos começar por Antonio Banderas. É um ator sublime (já quase nos esquecêramos disso) e, neste filme, está em contraciclo de tudo o que tem feito nos últimos anos em Hollywood e sem Pedro. Em “Dolor y Gloria”, Banderas chama-se Salvador Mallo. Cineasta maduro, vive de dores e de glórias como o título, o passado persegue-o, os filmes também e há amantes que não se esqueceram. Salvador vive só, mal sai de casa, restam-lhe poucos amigos, Mercedes (Nora Navas) e pouco mais. Pressente que está a entrar em crise criativa. A nível de saúde, as coisas também não andam bem. A Filmoteca de Madrid acaba de restaurar um filme seu feito 32 anos antes, e que, supomos, marcou a Movida madrilena, como os filmes de Pedro a marcaram. Mas o presente, esse, é de resignação.

Em seguida, recordamo-nos que, há uns três anos, Almodóvar teve que passar por uma complicada operação à coluna que quase o imobilizou e lhe alterou por completo os dias. Ficámos a saber entretanto que, para criar a casa de Salvador, a equipa de decoração de “Dolor y Gloria” reproduziu em estúdio, tal e qual, com os mesmos objetos, o apartamento do cineasta (“poupámos uma semana de rodagem com isso”, contou-nos ele em entrevista que há-de vir). Nisto, já as memórias de Salvador começaram a desenrolar-se no ecrã em flashback, a história da família, a da mãe em particular (interpretada por Penélope Cruz), e de como ela lavava a roupa no rio, também o colégio religioso de infância... Tudo isto – a mãe, a infância - nos é familiar e já foi visto noutros filmes do espanhol, mas não assim: é que “Dolor y Gloria” traz uma aura de crepúsculo.

No presente, Salvador tem dores no corpo. O encontro com o protagonista do tal filme que a Filmoteca restaurou leva-o a fumar uns charros de heroína (uma liberdade do guião) que o deixam atordoado, à falta de melhor analgésico. Mais tarde, é um ex-amante argentino, agora pai de filhos, que lhe toca por acaso à porta e lhe sugere um “como era dantes”. Chegados a este ponto, parece que já não restam dúvidas: está “Dolor y Gloria” para o espanhol como “8 1/2” esteve para Fellini? Salvador é Pedro?

Salvador e os pais: memórias de infância em flashback

Salvador e os pais: memórias de infância em flashback

As coisas não são assim tão simples, tal como, de resto, não o eram no filme de Fellini. A dor e a glória, tal como o drama e a comédia, servem afinal de resumo de vida de qualquer ser humano e ainda mais da vida de um cineasta. É preferível dizer antes que Salvador está 'impregnado' de Almodóvar por todos os poros. E que Banderas, herdeiro direto (“além disso eu queria alguém que fosse mais bonito do que eu...”, Pedro de novo), é o ator legítimo para fazer este papel: atravessou a maior parte da vida do cineasta desde que este o descobriu num café e o convidou, em 1982, para “Laberinto de Pasiones”.

Filme de memórias? Seguramente, mas vale a pena refletir um pouco sobre este assunto porque, apesar de ser em tudo autobiográfico, “Dolor y Gloria” está mais apaixonado pela história do seu guião (e pelas suas imperfeições) do que pela vida do próprio realizador. Há aqui uma gravidade de tom e de ritmo (que o anterior “Julieta” já lançara na obra do espanhol) e uma distância discreta que afastam o filme de qualquer tentação narcisista – e é notável que assim seja.

É como se Almodóvar estivesse a falar de si próprio - e está - mas através de uma interposta pessoa (Salvador) que serve de filtro a qualquer ideia de filme-testamento. Nos flashbacks da infância, por exemplo, não há qualquer sombra política da ditadura de Franco (talvez um pouco, pelo comportamento do pai, mas é só). Aquele jovem e destravado Pedro que, nos anos 80, vivia e filmava com uma vontade louca de abocanhar o mundo, aqui, também quase não tem lugar.

O cineasta entre dois atores do filme: Asier Etxeandia e Antonio Banderas

O cineasta entre dois atores do filme: Asier Etxeandia e Antonio Banderas

“Dolor Y Gloria” fixa-se noutras coisas: na eclosão do primeiro momento de desejo (quando Salvador recorda os seus 9 anos), em sintonia no filme com o amante argentino que reaparece no presente. Fixa-se na morte, tão sentida por quem nasce em La Mancha, quer naquele momento em que a mãe, agora idosa, diz ao detalhe como quer estar vestida na sua cerimónia fúnebre (e isto passou-se exatamente assim com a mãe do cineasta, falecida há 20 anos), quer na doença que Salvador agora enfrenta.

No fundo, “Dolor y Gloria” é o paraíso perdido de Almodóvar. O seu filme proustiano. Com o rosto de Banderas que, no cinema do espanhol, foi sempre o rosto do fervor. É uma espécie de 'acerto de contas' que contorna o sentimentalismo para nos chegar em doçura, em calmia, com pudor e alguns momentos de profunda comoção. É conhecida a admiração que o presidente do júri (Iñarritu) tem pelo espanhol e diz-se em Cannes que, para já, é este o favorito à Palma de Ouro. Almodóvar já a persegue há longo tempo.