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O Brasil debaixo de fogo

Notas sobre “Bacurau”, novo filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, a concurso em Cannes

Francisco Ferreira enviado a Cannes

Domingas (Sonia Braga), no campo de batalha

Há um momento particularmente perturbador em “Bacurau”, terceira-longa-metragem do pernambucano Kléber Mendonça Filho (coaasinada com Juliano Dornelles, há muitos anos colaborador do cineasta do Recife) e terceiro filme de Cannes a apresentar-se ao concurso. Passa-se lá para a frente, em nada revela ou afeta o desenvolvimento da história que seguimos, mas é muito mais do que um mero detalhe. Às tantas, uma das personagens passa por uma televisão que está a fazer um direto a partir de São Paulo e a câmara de Kléber fixa a seguinte nota de rodapé: “As execuções recomeçam às 14 horas.”

Até então, o espectador não sabe exatamente o que aconteceu ao Brasil – mas está expectante. Porquê? Porque “Bacurau” disse-nos no início que se passava num futuro próximo. Aonde? No oeste de Pernambuco, num remota aldeia de ficção que tem nome de pássaro que só se avista de noite e está em luto pela morte da sua mais velha matriarca, Carmelita, de 94 anos. Não sabemos exatamente o que aconteceu ao Brasil, é certo, mas aquela breve informação na TV, já o filme vai avançado, vem sublinhar aquilo que entretanto já nos foi transmitido por sugestões e 'canais subterrâneos': naquele futuro próximo, e nesta distopia selvagem que é “Bacurau”, o país caiu no faroeste.

O western não vem ao acaso. O genérico de “Bacurau”, que parte do espaço e nos leva para aquela aldeia do nordeste brasileiro como uma ampliação do Google Earth e um convite — “Daqui a alguns anos...” —, insinua-se tanto a uma hipótese de ficção científica como às aldeias do velho oeste de Hollywood, onde uma causa comum, quando ela era necessária em situação de aflição, levava por vezes homens e mulheres a unir esforços para combater os seus inimigos — é curioso, aliás, pensar em “Bacurau” como um remake longínquo de “High Plains Drifter”, de Clint Eastwood.

Teresa (Barbara Colen) leva-nos, à boleia num camião-cisterna, para aquele isolado lugar e para a cerimónia fúnebre de Carmelita. Ali conheceremos os seus habitantes e crianças, não mais de 40, e do grupo sobressai Domingas (Sonia Braga), mulher desconfiada, médica da aldeia, seguramente a mais bem preparada para o campo de batalha que está para vir. Bacurau não tem água potável. Um certo político demagogo, que tenta captar votos em tempo de eleições, já antes retirou à aldeia o seu bem mais precioso.

Acontece que Bacurau, entretanto, desaparece dos mapas da Internet, não há satélites que a localizem, e por ali até já foi visto um drone que parece nave espacial de filme série-B dos anos 50. Sem mais se avançar, instalou-se nas redondezas um grupo de mercenários americanos armados até aos dentes e em missão secreta (mas isto não é claro: serão antes turistas em sádico pacote de aventuras radical?), liderados por um Udo Kier a revisitar a sua reputação de 'mau da fita' no cinema. Estão dispostos a eliminar de Bacurau, como num jogo de vídeo de snipers, qualquer vestígio de presença humana, e como vilões, são permeáveis à comédia, ao absurdo e até à caricatura como nunca o foram no trabalho anterior do realizador.

Teresa (Barbara Colen) em “Bacurau”

Teresa (Barbara Colen) em “Bacurau”

COMBATE PELA HISTÓRIA

Kléber Mendonça Filho é um cineasta muito fixado na vingança, no tempo que esta se constrói até consumar-se, e a tendência coral dos seus filmes, invariavelmente ameaçados pela morte, tende a crescer lentamente em torno desta ideia e a espelhar-se no presente: mal feito, é mal que se paga aqui na Terra. “O Som ao Redor”, também “Aquarius”, estavam estruturados neste sentido. Assim como “Bacurau” que – é importante sublinhar – começou a ser escrito antes daqueles, na altura em que Kléber realizou a curta “Recife Frio”, de 2009, “e é estranho como o filme foi depois apanhado pela história do mundo”, contou ele.

Eventualmente, a cinefilia de Kléber vem menos do grande cineasta da vingança que foi Fritz Lang e é admissível dizer que o pernambucano, de certa forma, depende das referências que lhe são mais caras, quase como se não quisesse filmar sem trazê-las à tona – no caso de “Bacurau”, é muito evidente que Leone e Carpenter são pontos de apoio, tal como o slash e o gore acabam por sê-lo no desfecho do filme. “Bacurau” acusa este efeito. Mas o princípio de fé não deixa de ser estimulante porque sente-se que o argumento e a rodagem de “Bacurau”, ao mesmo tempo que projetam o drama, estão também à procura da sua solução no cinema e pelo cinema, como se este tivesse a 'vacina' para a praga que foi lançada. Como se vinganças de outrora indicassem o caminho.

E contudo, chegada a hora da verdade, “Bacurau”, tal como a personagem de Domingas noutra interpretação possante de Sonia Braga, não é filme que vire a cara (à luta armada) e que se refugie em subterfúgios, por mais filmes que os seus planos convoquem. Não é por acaso que Kléber está no sertão, numa aldeia isolada com uma só rua, numa região que, histórica e simbolicamente, é de fundação e de resistência política, tal como o sertão e a figura do cangaceiro o foram para o Cinema Novo brasileiro nos anos 60 de Glauber Rocha, na alvorada e durante a Ditadura Militar (1964-1985). Este sertão de “Bacurau” tem outras subtilezas, é defensivo e menos contundente que o de Glauber. Mais do que contemporâneo, é um sertão futurista – antevisão de um regime totalitário que se receia tornar-se no regime de amanhã.

“Bacurau”, para quem vem de fora, é uma aldeia fantasma no mesmo sentido que o prédio de Clara o foi em “Aquarius”, mas se no anterior filme do cineasta a personagem se batia sozinha para provar o contrário (“não é um prédio fantasma, eu estou aqui...”), agora temos uma comunidade orgulhosa debaixo de fogo que recebe por bem quem vier em paz, lê-se em letreiro, mas que está também disposta a ir à guerra e a honrar os artefactos que o seu pequeno museu exibe – e é de luta e de guerra, nada mais, aquilo de que esse lugar é feito. Em “Bacurau”, aquele museu tem uma função essencial. É o último reduto de uma ficção que começa com um funeral e reverbera com violência na atual conjuntura do país.

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