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Quentin Dupieux: um cineasta maníaco, fiel às suas obsessões

“Le Daim”, com uma interpretação fabulosa de Jean Dujardin, abriu com estrondo a Quinzena dos Realizadores em Cannes

Francisco Ferreira em Cannes

Jean Dujardin e Adéle Haenel em “Le Daim” — novo filme de Dupieux

Georges é um homem completamente demente. Antes de se tornar coisa pior, pois não tardará a revelar-se um psicopata, mete-se no seu velho Audi e percorre 900 quilómetros até um certo lugarejo em França onde compra, por anúncio, um folclórico casaco de franjas '100% daim', isto é, um casaco de pele de veado. Por esse casaco, pagará ele uma fortuna. Ser de veado, é um fétiche. Georges deixou família para trás, é um tipo que perdeu o norte. E sempre acreditámos que Jean Dujardin, ele que se tornou mundialmente célebre em 2011 com “O Artista” (até ganhou o Óscar), era capaz e estava talhado para um papel assim, entre a sedução e o grotesco, na pele de um doido varrido com ares de cowboy de Carnaval – Quentin Dupieux abriu-lhe agora essa porta, a mesma que o cinema comercial francês, por falta de coragem, continua a negar-lhe.

Chegado ao lugarejo, o homem mete-se num motel, traz uma câmara de vídeo Mini-Dv que lhe caiu do céu (o filme não precisa local e data mas deve passar-se algures no início deste século), é completamente demente, repetimos. O seu sonho depois de comprar a peça por anúncio? Ser o único homem no mundo a vestir um casaco. É esta a sua paranóia. Com o '100% daim', ele sente-se único. Mas não pode ver à frente mais ninguém de casaco vestido. Dá para acreditar nisto, como linha de partida de argumento? Dupieux, que entre muitos outros já fez um filme com um pneu como protagonista (“Rubber”), acredita, claro, e acredita tanto que, por contágio, nós também.

Georges conhece Denise (Adéle Haenel, uma das melhores atrizes da sua geração), empregada de mesa lá das berças que tem o hobby de montar filmes (um dia montou o “Pulp Fiction” por ordem cronológica e achou péssimo o resultado). Entra entretanto numa livraria e rouba um livro sobre práticas do cinema. O dinheiro está a acabar. Convence a rapariga do bar de que é cineasta, pede-lhe dinheiro emprestado sob a promessa de um contrato e desata a arranjar estratagemas, filmados em direto com a Mini-Dv, só para arrancar casacos às pessoas. Até que começa a matar. Para que só o seu '100% daim' exista no mundo. “Desta vez quis fazer um filme sobre um louco, em vez de um filme louco”, contou Dupieux.

A Competição deu honras de abertura a “The Dead Don't Die”, que é um Jarmusch confortável no seu casulo. Já a Quinzena, protegendo um cineasta série B com controlo dos seus meios de produção, hoje cem vezes mais underground e mil vezes menos amado que o 'gentleman Jim', preferiu uma comédia slasher como elas em tempos se fizeram nos anos 80, com um anti-herói que ensandeceu e que talvez só queira pôr termo à própria vida enquanto ceifa umas quantas pelo caminho por dá cá aquele...casaco.

“Le Daim” é o filme de Dupieux mais eficaz e importante até à data. Tal como “The Dead Don't Die”, é também um exercício de metacinema, uma demonstração de virtuosismo do seu autor. Mas da Quinzena, saímos com personagens a sério. E com um Jean Dujardin que se supera e que já merecia esta pele de veado.

Já de “Litigante”, filme do colombiano Franco Lolli que abriu, fora de concurso, a Semana da Crítica (que incide em primeiras obras), há pouco a dizer, infelizmente. História de uma mãe solteira e advogada de Bogotá, com a mãe gravemente doente de cancro, é uma crónica realista pesada, não pela expressão dramática que está em causa, mas por sentir-se o folhear de cada página do argumento, sem qualquer rasgo de cinema que o interrompa.

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