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Vida Extra

Estes zombies de Jarmusch não saem da Terra para meter medo

Reação tépida em Cannes a “The Dead Don't Die”, filme desalmado com uma aldeola americana a assistir serena ao fim do mundo. Tem os seus momentos de graça mas acaba em auto-referência

Francisco Ferreira em Cannes

Tom Waits em "The Dead Don't Die"

Foi Jarmusch quem contou a história: há já uns bons anos, Tilda Swinton virou-se para ele e disse-lhe que ele tinha passado a vida a fazer filmes de vampiros. Ele levou isso em conta, tomou-o como o elogio que era, até fez um filme (também com Tilda) literalmente vampiresco (“Only Lovers Left Alive”, um dos seus melhores) e agora, mantendo o seu ar de gentleman, resolveu descer na hierarquia dos vilões sobrenaturais e atirar-se para um filme de zombies à 13ª longa-metragem.

São zombies estranhos os de “The Dead Don't Die”, até dizem umas palavras e vêm sujos, mas têm uma bela variedade de guarda-roupa porque Jarmusch não gosta de fazer nada igual a mais ninguém. Variado é também o elenco em que as estrelas que são os seus amigos se sucedem umas às outras no genérico.

Bill Murray, Adam Driver e Chloë Sevigny como agentes de polícia de Centerville, terriola de 758 habitantes que se adivinha ser conservadora, Tilda Swinton na pele de uma samurai escocesa com ares alienígenas, Selena Gomez na típica teen que se instala com dois amigos num motel para servir de presa, Steve Buscemi no vaqueiro 'trumpista' e ainda anda por lá um eremita, chamado Bob, homem das cavernas que vive na floresta e gosta de “Moby Dick”, em que se reconhece Tom Waits atrás da maquilhagem - é ele quem observa à distância, lacónico, o estado a que a humanidade chegou. Pouco depois, Sara Driver e Iggy Pop escavam a Terra e saem da tumba porque alguém ou alguma coisa já deu cabo da Terra: o planeta já não está nos eixos, as comunicações estão a falhar, os relógios pararam, os telemóveis não se ligam, os dias não acabam, e as noites, quando chegam, também não.

Ninguém nega a Jarmusch a generosidade que ele tem por cada ator, a sua atenção por cada detalhe, ele é muito forte neste campo, gosta de filmar sem pressas e de saborear cada momento. Quando filma uma personagem secundária, filma-a à mesma escala de um protagonista. Também ninguém lhe nega aquele estilo que tende a olhar para o mundo au ralenti, mesmo quando está em causa uma invasão zombie e um apocalipse iminente.

E depois há a pose, como se um ator de Jarmusch tivesse sempre que provar que o é antes de ser a personagem, há aquela estranha familiaridade em que toda a gente, vai-se sabendo, conhece a canção country de Sturgill Simpson (que dá nome ao filme), jogos de coincidências, piadas que o são (zombies a pedirem “wifi” e “xanax” - Jarmusch continua seguramente a não ter telemóvel), outras que nem por isso (Adam Driver com um porta-chaves de “Star Wars”), mas o filão começa a esgotar-se, em vinhetas que são lúdicas aqui e ali, mas já vistas, já gastas - e mesmo como farsa política, o filme é demasiado vago e o seu apocalipse demasiado pop.

“The Dead Don't Die” não é um filme de zombies, só consegue ser um 'filme de Jarmusch', como se essa expressão já se tivesse tornado em si um género. E isto é um problema. Mas não um problema que um cineasta como ele não possa nem saiba corrigir.