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De prodígio a pianista pop. Esta é a história de Lang Lang, um fenómeno global

Aos três anos iniciou-se no piano e aos cinco deu o primeiro concerto. Mas a sua história está longe de ser um conto de fadas. Entre vencer ou morrer, Lang Lang venceu, tornando-se um fenómeno global. No último disco, "Piano Book, lançado após três anos de silêncio, percorre alguns 'clássicos' do repertório e confirma que é mais do que um ágil fazedor de notas

Quem olhar para o seu retrato pode facilmente confundi-lo com um artista pop ou comum guru da moda — ainda que a imagem também evoque um apresentador de televisão histriónico ou, com maior verosimilhança, um comum representante da juventude chinesa ocidentalizada e urbana, de cabelos em pé e atento às últimas novidades da indumentária. O que com certeza ninguém suspeitará é que se trata de um pianista clássico, que em poucos anos se tornou um fenómeno à escala planetária e objeto de debate intenso pela crítica especializada. Lang Lang, o menino-prodígio que não nasceu em berço de ouro, que teve uma infância terrível sobre a qual nunca se escusou a falar, é hoje um homem rico e embaixador da Unicef, da Montblanc e da Volkswagen, vestido indefetivelmente por Giorgio Armani, que abriu os Jogos Olímpicos de Pequim e a quem a Steinway, num gesto sem precedentes na história da marca, dedicou um piano desenhado para alunos em início de aprendizagem —o Lang Lang Steinway.

Aos 30 anos, haveria pouco mais a desejar. Estima-se que, na China, acima de 40 milhões de crianças se tenham lançado a estudar piano hipnotizadas pelo seu exemplo, realidade que já foi cunhada de "efeito Lang Lang" e motivou a criação pelo pianista da Lang Lang International Music Foundation, com o objetivo de "inspirar a nova geração e cultivar os pianistas do futuro", como informa o site oficial. O pianista lançou recentemente um método de aprendizagem do piano, o Lang Lang Piano Method, complementado com uma app para a sua mensagem estar ao alcance de um clique.

Há uma década que Lang Lang vem consagrando parte do seu tempo a atividades relacionadas com o ensino, que desenvolve pelo mundo fora, mesmo em regiões onde a presença de um piano é considerada um luxo. Bem mais lhe custou converter ao seu credo uma casta muito exigente, a dos críticos, que durante anos lhe reprovou o estilo exagerado e teatral, a falta de profundidade musical e uma certa puerilidade na forma como se apresentava em palco. Inventores de alcunhas como "Bang Bang", os críticos não lhe perdoavam que a técnica assombrosa, fruto de anos de treino e de uma habilidade inata, não estivesse acompanhada pela dose de sensibilidade e de refinamento que validaria o seu estatuto.

Se o pianista Earl Wild qualificou Lang Lang como o "J. Lo do piano", o crítico Anthony Tommasini, do "New York Times", escreveu: "O seu toque pode ser tão intensamente expressivo que ele contorce as frases, distorce a estrutura musical e enche a interpretação de maneirismos que distraem." Alex Ross, na revista "New Yorker", denunciou por sua parte um certo preconceito que encara os músicos asiáticos como máquinas de tocar desprovidas "dos mistérios da profundidade e da alma" e, no caso de Lang Lang, analisou: "Por vezes era desejável que ele fosse um bocadinho mais impessoal. Ele tende a impor à música o seu entusiasmo, independentemente de esta o exigir ou não." Para Stephen Brookes, do "Washington Post", o pianista tem "uma disposição cinética" que pode ser "engraçada de se ver". O que não impede uma nota de esperança: "Debaixo da ginástica, há claramente um pensamento musical sério a acontecer."

A longa viagem

Habituado a não parar até ser o 'número um', Lang Lang falou em várias oportunidades sobre as características da sua educação, moldada pelo rigor extremo. "'Número um' era a expressão que os meus pais repetiam uma e outra vez. Era a expressão usada pelos pais dos meus amigos e pelos amigos destes. Sempre que os adultos discutiam os pintores e escultores chineses das antigas dinastias, havia um único artista designado como o 'número um'. Havia um trabalhador número um, um cientista número um, um mecânico número um. Na cultura da minha infância, ser o melhor era tudo", disse uma vez.

"Na China, os pais esperam que entremos em competições. Isto está integrado na nossa na forma de pensar", explicou noutra ocasião. Em 2010 admitiu que, apesar da idolatria que lhe devotam os seus conterrâneos, por vezes fica desiludido com os meios de comunicação chineses. Agora que deixou de participar em concursos, costumam dirigir-lhe perguntas como esta: "Sem troféus, como podes ter uma carreira?" Mas houve um tempo em que ele próprio desconhecia a resposta, pois tudo na sua vida se regia pelos parâmetros absolutos do triunfo e do fracasso, gravados na pedra pela pessoa que desde cedo se atribuiu a tarefa de o transformar no 'melhor' — o pai.

Em 2008, foi publicada uma autobiografia intitulada "Journey of a Thousand Miles". Os autores eram Lang Lang, então com 26 anos, e David Ritz, escritor especializado em biografias de músicos. O nome do livro aludia ao famoso provérbio chinês, segundo o qual "uma viagem de mil milhas começa com um único passo". O facto de o biografado o escolher contar a sua curta história atiçou a curiosidade daqueles que — com alguma razão — se interrogavam sobre o que alguém com aquela idade teria para comunicar ao mundo. Essa nuvem depressa se esbateu: dentro do livro, Lang Lang protagoniza uma infância que, se não fosse assumidamente a sua, poderia passar por um pavoroso filme de terror.

Em1982, quando nasceu na cidade industrial de Shenyang, a nordeste de Pequim, Lang Lang já vinha ao mundo 'fadado' para ser pianista. O pai, a quem a Revolução Cultural frustrou o sonho de se dedicar à música, gastou o equivalente a seis meses de salário para comprar um piano ao filho de um ano. Aos três proporcionou-lhe as primeiras lições. Aos quatro, Lang Lang estudava de três a quatro horas diárias e aos cinco dava o primeiro recital público. Ao completar os nove anos, a família decidiu que o passo seguinte seria partir para Pequim, a fim de o rapaz se preparar para o difícil ingresso no Conservatório.

Vencer ou morrer

Em pleno auge da política do "filho único" na China, tudo recaiu sobre os seus ombros. "O meu pai demitiu-se do emprego como polícia e foi comigo para Pequim. A minha mãe ficou — precisava de ganhar dinheiro para nós. Há 20 anos, os comboios entre Shenyang e Pequim eram lentos, e demorava-se mais do que um dia inteiro a chegar. Como tínhamos de poupar, a minha mãe não podia ver-me com frequência. Tinha imensas saudades dela. Foi um tempo muito mau", revelou o pianista ao diário britânico "The Guardian".

"Alugámos o apartamento mais barato no pior dos bairros. As paredes eram finas e os vizinhos ficavam fulos porque eu começava a treinar às 5h da madrugada. Não podíamos fazer muito, pois só tínhamos o salário da minha mãe e havia dispendiosas lições de piano para pagar. O meu pai tornou-se rígido e estranho. Eu treinava uma hora de manhã e toda a tarde depois da escola, e ainda fazia os trabalhos de casa. Treinava 65% do meu tempo", relatou na mesma entrevista. Um dia, uma professora-no livro alcunhada de "Professor Angry" (irada) diagnosticou que ele não tinha talento e dispensou-o.

Ao chegar a casa, contou ao pai e este deu ao filho de nove anos um frasco de antibióticos e urgiu-o a engolir 30 comprimidos: "Tudo está arruinado agora, não tens razões para viver". Em pânico, Lang Lang fugiu para a varanda e ouviu o pai gritar-lhe: "Então, atira-te emorre." A reação do pequeno foi bater furiosamente as mãos contra a parede, vociferando que as odiava, assim como ao piano e ao pai. "É mesmo duro falar sobre isto. O meu pai enlouqueceu totalmente", revelaria mais tarde. Hoje, as suas mãos são alvo de um seguro de 70 milhões de dólares (cerca de 54 milhões de euros).

"Nessa altura, não gostava do meu pai. Sabia que me tinha dedicado a vida, mas pensava que isso era de mais. Achava desnecessária toda essa pressão, até porque eu fui naturalmente workaholic desde o primeiro instante e sabia o que queria." Os anos seguintes corroboram estas palavras de Lang Lang, que não só entrou no Conservatório de Pequim (onde havia 12 vagas para 2000 candidatos) como, com apenas 13 anos, venceu o Tchaikovsky International Young Musicians Competition no Japão e tocou os "24 Estudos" de Chopin, prova de fogo para qualquer pianista adulto, no Concert Hall de Pequim. Dois anos depois, voou para os Estados Unidos e ali prosseguiu a formação no prestigiado Curtis Institute of Music, em Filadélfia, sob a orientação de Gary Graffman. Tinha 17 anos quando uma substituição de última hora o catapultou para a ribalta, tocando o "1º Concerto" de Tchaikovsky ao lado da Sinfónica de Chicago. Nunca mais parou.

Em 2010, o "The Telegraph" notou que o "efeito Lang Lang" pode ter um reverso menos agradável. No artigo "The Tiger Woods of Classical Music", Paul Kendall observava que, além do fascínio que Lang Lang exerce junto dos mais novos e da sua evidente capacidade de comunicação, os pais das crianças chinesas começaram a pensar na música clássica como um salvo-conduto para alterar a sua condição social. "Nos países em desenvolvimento, a música é vista como um caminho para sair da pobreza. Desde o sucesso de Lang Lang, as pessoas pensam que se alguém for bom a tocar piano pode transformar-se numa estrela internacional. Então, muitos miúdos são empurrados para o piano".

Lang Guoren, pai de Lang Lang, é considerado na China "um modelo" e ninguém estranhou quando publicou o livro "My 30 Years with Lang Lang", com conselhos práticos sobre educação. Não se trata de um sinal dos tempos: o pai de Yo Yo Ma, violoncelista hoje com 63 anos, amarrava uma corda à perna do filho e, às 5h da madrugada, deitado na cama, dava-lhe esticões se este parasse de treinar.

O futuro do prodígio

Lang Lang parece ter superado aqueles tempos. Vive em Nova Iorque, num apartamento de luxo. Perdoou o pai, que gere a sua agenda chinesa e de vez em quando sobe com ele ao palco para tocar Erhu, instrumento tradicional chinês semelhante ao violino. E há anos que viaja sempre acompanhado pela mãe, num gesto de reparação face às ausências forçadas do passado. A sua carreira ascendeu a um ritmo vertiginoso, alcançando os 150 concertos por ano. Para se ter uma ideia da velocidade a que corria, basta regressar a 2004 e ao momento em que uma lesão numa mão o obrigou ao descanso. Lang Lang relatou como deambulou sem rumo pela Broadway, assistiu a jogos de basquetebol, pulou no concerto de Britney Spears e até teve um encontro com uma mulher. "Foi divertido", concluiu, acrescentando que se tratou do único mês de "normalidade" em toda a sua vida.

Aos 30 anos (hoje tem 36) decidiu abrandar. E calar as vozes que o colocvam na prateleira dos robôs. Para isso, recorreu a músicos da craveira de Christophe Eschenbach, Daniel Barenboim, que considera um "segundo pai", Herbie Hancock, com quem aprendeu a improvisar, ou Nikolaus Harnoncourt, de quem assistiu a masterclasses sobre Mozart — compositor impossível de se abordar sem subtileza. Em 2012, o seu disco com obras de Chopin foi aclamado pela mesma crítica que lhe recriminava a falta de densidade musical. Depois, arriscou um "Mozart Album" sob a direção de Nikolaus Harnoncourt, e outro com incursões fora da música erudita, nomeadamente no jazz, intitulado "New York Rhapsody". Agora, em"Piano Book", homenageia as peças que o fizeram tornar-se pianista.

Transformado numa marca, ele reclama a capacidade de marcar: "Comecei a carreira em grande estilo, tocando peças virtuosas. Mas levava pancada dos críticos. Este tipo, argumentavam, só toca forte e rápido. Então mudei para música mais intimista e introspetiva, e assim tenho-me desenvolvido. Pois não seria triste saber voar sem nunca ter aprendido a caminhar?"

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