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Brasil toma Fitei de assalto

Festival apresenta a partir desta quarta-feira quinze espetáculos, dos quais sete são brasileiros e dois são parcerias entre o Brasil e outros países

"Preto", de marcio Abreu, é um dos destaques do Fitei

Nana Moraes

Não é uma ameaça, nem um lamento por uma suposta invasão. É tão só a constatação de uma realidade pensada e assumida pelos organizadores dos festivais Dias Da Dança e Fitei quando, ao decidirem juntar esforços para a edição deste ano, optarem por criar um foco Brasil.

Nos 42 anos de história do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica sempre o Brasil teve um lugar de destaque e conquistou um papel de grande relevo. Não por acaso, Gonçalo Amorim, desde há cinco anos na direção artística do festival, diz ao Expresso que, “na relação com o Brasil, o Fitei encontra o seu espaço natural”.

Tudo isso é muito evidente quando, hoje, quem da área do teatro se desloca ao Brasil e, prossegue Amorim, “conhece as várias gerações do teatro brasileiro, percebe que o Fitei é uma referência de internacionalização. Muitos daqueles atores vieram pela primeira vez à Europa através do Fitei”.

Até o próximo dia 25, o programa do festival propõe 15 espetáculos. Os portugueses tiveram uma presença mais relevante ao longo da Semana +, um espaço de transição entre o DDD e o Fitei, que contou com a presença no Porto de dezenas de programadores à partida interessados em conhecer e eventualmente contratar novas companhias ou pensar em novas colaborações.

Ainda assim, é uma companhia portuguesa que abre esta quarta-feira o certame, a partir das 19 horas no Teatro do Bolhão. Martim Pedroso e a Nova Companhia oferecem uma enigmática “História Ilustrada do Teatro Português”, apresentada como “um documentário tragicómico sobre uma pressuposta História do Teatro em Portugal”. É, antes de mais, como se escreve no texto de apresentação da peça, “uma aula ou conferência bem montada, com alguns erros históricos, cheia de bombons estratégicos para entreter”.

Na multiplicidade das suas propostas, as companhias brasileiras vão refletir muitas das vivências, dramas e problemas com que se confronta o Brasil em tempo de Jair Bolsonaro. Gonçalo Amorim tem acompanhado, nãos apenas as evoluções, como as transformações ocorridas no seio da comunidade artística brasileira. Desde logo, acentua, “a forma como os artistas brasileiros se colocaram nas primeiras manifestações, ainda contra Dilma, ou mais propriamente contra um certo estado de corrupção no PT. Sentiam que a democracia brasileira estava cada vez mais aberta, a classe média cada vez mais reforçada, mas era preciso continuar a conquistar direitos. Ainda havia muita pobreza, e nesse contexto surge a questão do aumento dos transportes”. Percebia-se uma grande mobilização, até na luta por um mais consistente estado social. Só que, constata o diretor do Fitei, “depois a rua foi tomada por uma direita pró-golpista, até a eleição de Bolsonaro”.

Essas lutas tiveram reflexo em cena, “com o afropolitismo, as questões de género, por uma maior diversidade, por uma maior visão continental do que é o Brasil, para não se resumir a Rio e São Paulo como polos culturais, numa forma de descolonizar o pensamento”.

Tudo isso está espelhado na programação do Fitei. Gonçalo destaca a presença da Companhia Brasileira de Teatro, de Márcio Abreu, “uma grande figura do teatro brasileiro”, também diretor do festival de Curitiba. Com “Preto” (quinta e sexta Teatro Carlos Alberto) “olha para o racismo na vivência brasileira e em perspetiva com o mundo”.

"Ella sobre Ella", é uma peça de Marianella Morena, uma das grandes dramaturgas uruguaias da atualidade

"Ella sobre Ella", é uma peça de Marianella Morena, uma das grandes dramaturgas uruguaias da atualidade

A peça tem no elenco, além de Grace Passô, Renata Sorrah, “uma filósofa, dramaturga, com uma voz poderosíssima neste momento no Brasil”, que apresenta ainda o seu multipremiado monólogo “Vaga Carne” (sábado e domingo na Mala Voadora), peça inaugural do projeto “Grãos de Imagem”, que reunirá peças à volta de temas identitários.

Mas há também “Democracia” (sábado no Rivoli), uma peça encenada por Filipe Hirsh a partir de “Facsímil”, de Alejandr Zanbra, numa co-produção Brasil/Chile, ou “Ella sobre Ella” (sexta-feira no Teatro Constantino Nery, Matosinhos, e domingo no Teatro Sá de Miranda, Viana do Castelo), que consubstancia a participação de Marianella Morena, uma das grandes dramaturgas do Uruguai da atualidade. A peça conta com a participação de Mané Pérez, uma performer, atriz e cantora de grande projeção, e aborda a história de Carlota Ferreira (1838-1912), que, escreve-se no programa, “desafiou a moral do tempo com uma sexualidade livre, num pacato Montevideo do século XIX”.

“Tchekhov é um cogumelo” (Teatro nacional São João, sábado e domingo) é a proposta de André Guerreiro Lopes a partir de “Três Irmãs”, de Anton Tchekhov. A peça inclui no elenco Helena Ignez, “uma diva do cinema novo brasileiro”, bem como a sua filha Djin Sganzerla. Na opinião de Gonçalo amorim este é em definitivo “um espetáculo para o teatro Nacional São João, iconoclasta, belíssimo”.

Referencia ainda para residência no Fitei do argentino Federico León, com “Yo Escribo. Vos Dibujás” Mosteiro de São bento da Vitória, dias 23 e 24), estreada na passada semana no Kunsten Festival des Arts, Bruxelas e que é antecedida de um trabalho com 23 intérpretes locais.

Outro grande momento do Fitei é, diz Gonçalo Amorim, “o espetáculo de encerramento, com uma grande obra da Cia.Hiato, que adapta a "Odisseia", olhando para as suas personagens femininas e cruzando com as histórias pessoais das próprias atrizes”. O espetáculo tem 4h30 de duração, com dois intervalos. “É um grande acontecimento. Trata-se de um momento notável, com atrizes brilhantes, e em que Ulisses está sempre ausente”.

Embora com o festival ainda em andamento, estão já a ser lançadas pontes para o futuro, em particular na colaboração com o Brasil, que vai ser aprofundada. Amorim não descarta a hipótese de em breve poder haver um novo foco Brasil. Para já destaca a colaboração com o “Mirada, um dos grandes festivais brasileiros, que no próximo ano homenageará Portugal”. O diretor artístico do Fitei participa na curadoria do Mirada 2020, cujo epicentro se situa na cidade de Santos, próximo de S. Paulo.

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