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“A linguagem é a coisa mais terrível que a humanidade inventou.” Palavra de poetisa

Com as eleições europeias à porta, o Vida Extra conversou com uma jovem autora belga, uma escritora holandesa, um historiador italiano e com dois tradutores portugueses sobre o poder da palavra e o encontro entre a literatura e a política

Maud Vanhauwaert

Maud Vanhauwaert

“Gosto de estar na posição de observadora mas, às vezes, penso: ‘O que é que eu estou aqui a fazer, no meu pequeno quarto, a escrever poesia? Não devia estar nas ruas com os manifestantes em vez de escrever sobre eles estarem nas ruas?’”, interroga-se Maud Vanhauwaert. A jovem belga é uma das cerca de duas dezenas de autores e outros tantos tradutores do programa itinerante Connecting Emerging Literary Artists (CELA). O Expresso falou com Maud num evento do CELA integrado no festival LeV – Literatura em Viagem 2019, que decorreu entre os dias 10 e 12, em Matosinhos.

Apesar de ser atualmente a poetisa eleita pela cidade de Antuérpia, Maud tem uma relação complexa com a sua principal ferramenta de trabalho. “A linguagem é a coisa mais terrível que a humanidade inventou. Odeio a linguagem, o que é provavelmente estranho de ouvir da boca de um poeta, mas ela é a causa de muitos mal-entendidos e é demasiado poderosa”, explica. “Vivemos numa sociedade baseada na imagem mas desconfio que nunca a linguagem foi tão poderosa como hoje”, reforça, dando o exemplo da presidência via Twitter de Donald Trump. A menos de duas semanas das eleições para o Parlamento Europeu, a autora belga atalha: “Eu seria a pior política de sempre.”

Xénon Cruz, tradutor de português para holandês, diz-se “pessimista no que toca à política em geral”. “Os grandes interesses económicos ditam a esfera política, a forma como as coisas são executadas, as decisões que são tomadas”, concretiza um dos portugueses presentes no CELA. “Interessa-me muito a esfera pessoal, quando as pessoas, num sentido ético, tentam ser a melhor versão possível de si mesmas”, elabora Xénon, que tem ascendência luso-holandesa.

“Falta arte e genuinidade à política”

Desafiado a fazer uma radiografia à política europeia, Xénon comenta: “Acho que falta muita arte à política e falta genuinidade ao discurso político. As pessoas muito mais facilmente se identificam com uma personagem num teatro, que é falsa, do que com um político porque este não está a retratar nada.”

Com formação em arqueologia e história da antiguidade clássica, o italiano Fabio Guidetti recorda que “a essência da democracia é convencer as pessoas a acreditarem em ti para te darem o poder para tomares decisões – e sempre foi assim”. Mas ser “um bom orador” e encontrar “as palavras certas” não significa fazer “uma melhor análise da realidade”, alerta, acrescentando que esse foi sempre “o principal problema de todas as sociedades democráticas na história”. A sua formação na área ajuda-o a “olhar para os fenómenos numa perspetiva de longo prazo e a enquadrá-los como não tão excecionais quanto possam parecer”, refere ao Expresso.

“Seria uma pena se a Europa se perdesse”

“A política funciona mais ou menos como uma empresa, que se serve de palavras e de imagens para transmitir um determinado sentimento”, sintetiza, por sua vez, o tradutor Pedro Viegas, a viver há vários anos na Holanda. “Na política, os sentimentos são muitas vezes explorados. É uma campanha, um jogo de emoções. Se não houver emoção, não há nada para pôr em movimento e os políticos sabem perfeitamente disso”. A observação fria é temperada por uma visão europeísta que o português não rejeita. “Seria uma pena se isto – a Europa, aquilo que une os europeus – alguma vez se perdesse”, diz, já a caminho do aeroporto Francisco Sá Carneiro.

Com raízes repartidas entre os Camarões e os Países Baixos, a holandesa Simone Atangana Bekono refere que, na hora de votar, valoriza sempre a posição de determinado partido ou candidato em relação à imigração. “Quem é que estás a influenciar negativamente ao votar em algo que te influencia positivamente? Foi assim que aprendi a tomar decisões em política, o que dá uma ideia da enorme responsabilidade que isso representa.” E Simone sente sempre essa responsabilidade? “Sim, nas eleições nacionais e regionais. Nas eleições europeias, não a sinto porque os partidos em que voto acabam por formar coligações e o meu voto acaba perdido em negociatas político-partidárias”, critica.

A língua como “fator decisivo de integração e união”

Neste momento, na Holanda, decorre um debate sobre racismo que Simone reputa de “muito estranho” porque sente que as suas palavras “estão a ser usadas para servir a agenda de alguém” e isso até acontece mais “com os ativistas negros do que com pessoas da direita”. “É muito frustrante porque não é uma agenda em que eu me reveja necessariamente. Por exemplo, as pessoas dizem que tentam representar-me como escritora negra de uma forma de que discordo em absoluto, sendo muito paternalistas em relação a mim, o que é algo que os políticos tendem a fazer”, critica. Por outro lado, “especialmente como artista, há um lado que tentas transmitir aos teus leitores de uma forma poética e aberta a interpretações”, conclui.

Pedro Viegas lamenta que os europeus não tenham sido capazes de desenvolver uma língua comum, “uma língua europeia que pudéssemos utilizar entre nós e que certamente derrubaria muitas barreiras que existem na atualidade”. “A língua é um dos fatores mais decisivos, mais importantes em termos de integração e união”, concretiza. Para Fabio Guidetti, “tem tudo a ver com a educação”, ainda que reconheça que “a União Europeia tem feito muito pela educação superior”, destacando, por exemplo, o programa Erasmus. O problema é que os decisores europeus “nunca pensam no que acontece antes”, aponta.

“Precisamos de nos bater por uma sociedade informada”

“Quando um estudante vai para a universidade e tem a oportunidade de viajar e contactar com outras culturas, pessoas e línguas, para muita gente já é demasiado tarde. É preciso despertar esta curiosidade muito mais cedo – na verdade, naquele período da vida em que a curiosidade está no seu auge –, mas isto é algo que necessita de vontade política e de um enorme esforço de coordenação”, precisa o autor italiano. “Se continuamos a acreditar na democracia, como eu espero, precisamos de nos bater por uma sociedade informada. As pessoas precisam de ter a oportunidade de ouvir outras vozes e de saber que essas vozes existem. E isso tem de acontecer na escola”, sentencia.

Maud Vanhauwaert confessa-se “um pouco cansada de uma certa maneira cínica de viver, sempre a criticar os políticos”. “Isso é muito fácil. Em vez de te limitares a protestar, junta-te à política e faz alguma coisa”, sugere. Ainda assim, para já, ela própria continua indecisa entre sair do quarto e ir para as ruas.