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Cannes ainda não começou mas já fomos à Lua com Laurie Anderson

Coassinadas pela artista norte-americana e pelo criador de novos media Hsin-Chien Huang, as três instalações de “Go Where You Look! - Falling Out Snow Mountain” são um acontecimento na exploração da realidade virtual

Francisco Ferreira em Cannes

Laurie Anderson está em Cannes a apresentar “Go Where You Look!”

Ebru Yildiz

Enquanto não começa a maratona do Festival de Cannes, o primeiro encontro foi com Laurie Anderson. Há já muito tempo que a compositora de avant garde norte-americana, também ela artista plástica, escritora e cineasta (é inesquecível o cruzamento entre autobiografia e cosmogonia em “Heart of a Dog”, filme de 2015), se interessa por performances multimédia e em particular pela exploração da realidade virtual. Em 2002 foi a primeira artista residente na NASA, experiência que deu lugar, dois anos depois, à performance solo “The End of the Moon”. Por iniciativa da Quinzena dos Realizadores, que homenageia amanhã John Carpenter com a Carrosse d'Or, Anderson, montou em Cannes três instalações na galeria Au Suquet des Art(iste)s.

VOAR NA LUA

Foi o que 'aconteceu' a quem visitou a galeria esta tarde. Em colaboração com Hsin-Chien Huang, artista do Taiwan, mago dos multimédia e da exploração da tecnologia de ponta, Anderson construiu uma instalação com três obras em realidade virtual, “forma de arte em desenvolvimento e capaz de causar vertigens”, escreve ela. Cada sala admite a visita de três pessoas em simultâneo em cadeiras giratórias que permitem uma visão de 360 graus. Na primeira que se visitou, “To the Moon”, os óculos RV e dois comandos manuais permitem-nos dar uma volta (voada – basta para isso carregar num botão e esticar os braços, orientando a trajetória) por umas quantas crateras lunares, descobrir símbolos virtuais dentro da própria experiência virtual (dinossáurios, as bandeiras dos Estados Unidos, União Soviética e China...), até um passeio, às tantas, no dorso de um animal parecido com uma mula. Mas o mais fascinante para quem conhece a autora de “Big Science” e “Home of The Brave” é descobrir que esta aventura cosmogónica que é também uma reflexão filosófica sobre o destino do Homem se enquadra em tudo numa linha de pensamento já traçada por Anderson nos seus álbuns do início dos anos 80. São 15 minutos incríveis, numa lua imaginária com figuras e imagens da mitologia grega, em propulsão, em fascínio espacial, até o espectador/ interveniente ser ejetado para o Cosmos, à deriva.

Em “Chalkroom”, viaja-se por uma estrutura enorme, com um menu a permitir a entrada em várias salas, edifício composto de desenhos, palavras, histórias e múltiplas hipóteses de navegação — uma espécie de Babel. Com várias opções pelo caminho: uma delas permite-nos compor música. Já “Aloft” não é nada aconselhado a quem tem vertigens nem aos espíritos mais sensíveis porque descobrimo-nos, sozinhos, na parte de trás de um avião comercial que começa depois a desintegrar-se a partir do cockpit. E ficamos num 'Everything is Floating', para citar uma das suas canções.

E é também do anúncio do desastre de avião iminente de 'From the Air' — canção de abertura do seminal álbum “Big Science” — que nos lembramos: “This is your Captain / We are about to attempt a crash landing...” Mas não, isto é, o avião desfaz-se, por inteiro, à nossa volta, mas continuamos lá em cima, sob uma cidade que parece ter sido devastada, e então podemos 'tocar' em objetos que se aproximam de nós, uma máquina de escrever, um búzio, até o “Crime e Castigo”, de Dostoievski, que se folheia (enquanto a assistente da sala da galeria se certifica que o espectador não se levanta do banco giratório sob pena de se estatelar no chão). Extraordinários filmes, estes. Cannes não verá mais nada assim. A instalação fica patente ao longo de todo o festival. Mas só para nove pessoas de cada vez.

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