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Vida longa ao Bob Dylan

Bob Dylan regressou a Portugal para um concerto único (e mítico). Bob Dylan também é da geração millennial? — Bob Dylan é de todas as gerações

O fã Miguel Faria Ferreira

Foto: Mia Tomé

Há temas que dificultam a escrita, pelo intocáveis que podem ser. Quando penso no Bob Dylan, sinto que qualquer coisa que diga não lhe vai fazer justiça. O que se poderá mais acrescentar sobre aquele homem, génio transcendente que escreve com dons divinos? Já se disse de tudo, não há palavras suficientes para explicar o seu percurso ou para se elogiar a sua obra — mas a verdade é que ele não pára de nos surpreender.

Dylan esteve quarta-feira no Porto, regressou à sala onde tocou pela primeira vez — Foi belo. Uma plateia que não estava coberta de ecrãs, uma plateia que vertia desejo e carinho entre cada canção. Parecia que tínhamos recuado 20 anos e a paz dos não telemóveis estava ali. O foco era o Bob, o Bob no presente, o momento, sem a sensação sôfrega de ter de captar com câmaras e lentes o que estava a acontecer. Não, o tempo ali parou. Éramos só nós.

Por várias vezes, levantou-se do seu piano para agradecer, sem palavras, com uma alegria subtil que atravessava o Coliseu. Um privilégio estes momentos que nos ensinam a imortalizar o que acontece, apenas com a memória — esforcei-me para tal. Absorver o que acontecia exigindo o máximo dos meus sentidos. Ao Dylan, abracei-o com os olhos, naquele concerto improvável, sem o escudo fácil dos êxitos mais conhecidos, sem fogo de artifício desnecessário, com sobriedade, calma, competência, e um selo de mito que atravessa e atravessará décadas.

No comboio de regresso, à cabeça surgia-me “Like a Rolling Stone” na versão tocada nessa noite, versão que nunca mais poderei ouvir, versão que jamais poderei esquecer — Dylan transformou-a em algo delicado, suave e viva, acompanhada por um piano que sobressaía. Que dádiva poder gravar na memória algo assim, exuberante, encantador.

Que herói, 77 anos e a presentear-nos com os seus dons de forma incansável, ali, em modo intimista, naquela sala, onde a sua voz ecoava até aos nossos corações. O Dylan despediu-se com um beijo que atirou para a plateia — agarrei-o e trouxe-o no bolso. A todos nós que ali estivemos, isso já ninguém nos tira. Querido Bob, és Nobel da genialidade bordada a graça superlativa.

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