Perfil

Vida Extra

Os livros de Elena Ferrante não precisam de ser protegidos

No Dia Mundial do Livro, lembramos o texto de Cristina Margato, jornalista do Expresso e autora do podcast “Palavra de Autor”, aqui na pele de Winnie

Elisa del Genio e Ludovica Nasti, em “L'amica geniale” (2018)

IMDb

Querido Willie,

A relação de amizade entre as duas protagonistas de “A Amiga Genial” começa com uma traição, uma incursão no medo e uma consequente descida ao desconhecido.

Lila tira uma boneca a Lenù, atira-a para dentro de uma cave, convence Lenù a subir ao apartamento do dono da cave, Dom Achille, “papão das histórias infantis”, para reclamar a boneca. Segue-se o confronto com o monstro e a fuga em direção ao desconhecido. “A nossa amizade começou no dia em que eu e Lila decidimos subir as escadas escuras que, degrau após degrau, lanço após lanço, iam até à porta do apartamento de Dom Achille.”

Lila tirará muitas outras coisas a Lenù ao longo desta tetralogia, escrita pela italiana Elena Ferrante. Lila tirará também muitas coisas a si própria, num ímpeto de sobrevivência rumo “ao encontro de algo terrível que, embora existisse havia mais tempo do que nós, era por nós e só por nós que esperava”.

Lenù, porém, deverá grande parte da sua existência, da aventura da sua vida, à amiga Lila, presa na teia da sua manipulação. Pelo meio há muitos cinzentos. Ou só há cinzentos. Porque nem uma é totalmente boa. Nem outra é totalmente má. Porque Ferrante não se explica. Porque tem um efeito multiplicador sobre as questões, mais do que sobre as explicações. Porque a boa literatura vive de camadas sobrepostas e todas as simplificações são excessos. Porque a vida e as amizades são feitas de coisas que não são completamente boas nem completamente más.

A série que a HBO apresenta, não traindo essa relação de amizade com os livros de Ferrante, ao adaptá-los, acaba, no entanto, por traí-los. E trai-os da pior forma. Não consegue alcançar tudo o que fica no meio, entre o mal e o bem, entre o preto e o branco.

Esteticamente há uma insistência nos pastéis, no bairro cinzento, nas roupas pardacentas das raparigas, nas caras sem expressão ou deformadas, na imagem dos “feios, porcos e maus” que já tínhamos visto em Scola, Pasolini, Fellini, sem nunca alcançar a diversidade que uma paleta de cinzentos pode ter.

Decalca diálogos, como aquele em que Lila diz ao pretendente Stefano, filho do terrível Dom Achille, “Pensas que o meu pai é estúpido, que o meu irmão é estúpido?” E não traindo os livros, trai ainda mais a obra de Ferrante. Trai Ferrante.

Numa entrevista recente, a escritora lembrou que, em Itália, quando se falava de um filme que adaptava um livro se dizia que era uma “redução cinematográfica”, o que daria uma ideia errónea de que o resultado é um produto menor, porque perde a “roupagem literária, desnuda-se”. E se esta é uma história velha, a verdade é que há exemplos contrários. Há filmes que são melhores que os livros, como tu Willie, decerto te lembrarás.

Consciente de que a imagem tem códigos e roupagens próprias igualmente ricas, Elena Ferrante conta que, na correspondência trocada com o realizador da série, Saverio Costanzo, lhe pediu que “inventasse mais coisas, que libertasse a sua imaginação”, porque os “livros não precisam de ser protegidos, existem definitivamente fixados, pacientes e invulneráveis”.

E é por isso, que vou destoar, Willie, de um coro de vozes. “A Amiga Genial” não é uma boa série. É uma série assim-assim, porque não soube preencher os intervalos das acções, ainda que Ferrante não se possa comparar a Proust ou se alongue em descrições. Eu sei, Willie, vais dizer-me que há coisas que a imagem não diz. Que imagem poderá dizer isto: “Quando se está há pouco tempo no mundo, é difícil compreender quais os desastres que estão na origem da nossa sensação de desastre, talvez nem sintamos necessidade disso”? Mas dizer que não há é negar toda a história das imagens em movimento.

E é por isso Willie que só me ocorre dizer que à Ferrante comeram-lhe a carne, deixaram os ossos.

O que resta, na série, é a manipulação descarada de Lila (uma história mil vezes contada) ou a falta de manipulação do realizador, Costanzo, a subserviência, a vontade de não percorrer o desconhecido, e logo a impossibilidade de se erguer uma obra sobre a obra de Ferrante. Costanzo não percebeu que os livros não precisam de ser protegidos.

Carinhosamente,

Winnie

Siga Vida Extra no Facebook e no Instagram.