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Van Gogh e os ingleses — como se fez o génio

Uma sensacional exposição na Tate Britain prova que o génio de Van Gogh foi moldado em Inglaterra. “Van Gogh e a Grã-Bretanha” arrisca ser a melhor exposição do ano

Van Gogh, “Velho Triste (Às Portas da Eternidade)”, 1890

COLLECTION KRÖLLER-MÜLLER MUSEUM, OTTERLO

I

COMEÇOS LONDRINOS

Falava e escrevia correntemente em três línguas, neerlandês, inglês e francês, e arranhava uma quarta, o alemão, que lia no original. Viveu em Londres de 1873 a 76, antes de ser pintor. Equiparava o “amor sagrado” que tinha aos livros ao que professava por Rembrandt. Punha Charles Dickens no topo da lista, pelo estilo e preocupações sociais. Chegou a afirmar (1883) que “Na minha opinião, não há nenhum escritor que seja tão pintor e artista do preto e branco como Dickens”. (A gravura era então conhecida como a arte do ‘preto e branco’.) Quanto a Shakespeare, achava que “a sua linguagem e a sua maneira de construir coisas estão certamente a par de qualquer pincel fremente de sentimento e emoção”. Os seus livros de cabeceira eram o romance antiesclavagista “A Cabana do Pai Tomás”, da americana Harriet Beecher Stowe, e as “Histórias de Natal”, de Dickens (que lia e relia todos os anos, desde a infância). Refiro-me a Vincent van Gogh (1853-90), o genial pintor flamengo, francês e, pelos vistos, também inglês (no espírito e nas influências). Uma espantosa e reveladora exposição, “Van Gogh and Britain”, acaba de abrir na Tate Britain, em Londres. Não é preciso esperar pelos centenários ou sesquicentenários dos artistas para ser inovador do ponto de vista expositivo. A primavera chegou retumbantemente a Londres com dias soalheiros e os girassóis de Van Gogh!

Os anos ingleses de Van Gogh foram tempos difíceis — para recorrer ao título de um famoso romance de Dickens — mas retrospetivamente felizes, e marcaram-no no bom sentido para o resto da curta vida. (O futuro pintor chegou a Londres aos vinte anos e suicidar-se-ia dezassete anos depois.) Vinha trabalhar nos escritórios dos negociantes de arte Goupil & Co. em Covent Garden. Arranjou alojamento na zona de Brixton, e deslocava-se de metro subterrâneo e de barco, ao longo do Tamisa. (O metro fora inaugurado em 1863, o mais antigo do mundo.) A propósito: quando estou em Londres fico perto da casa de Van Gogh, e gosto muito de passar por lá, o nº 87 da Hackford Road. A fachada está assinalada com a habitual placa azul; os ingleses são bons guardiões da memória! Vincent já gostava de desenhar, embora não lhe passasse pela cabeça seguir a via de artista. As suas cartas dessa época — algumas exibidas na exposição em fac simile porque o material é demasiado frágil para viajar — estão recheadas de desenhos. Em 1973, um século depois, foi descoberto um desenho da casa, na proverbial caixa de sapatos esquecida no sótão, ainda na posse dos descendentes de Mrs. Loyer que alugara um quarto a Vincent.

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