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Festival de Cannes 2019: os suspeitos do costume e duas ou três surpresas

Jim Jarmusch, Pedro Almodóvar, Ken Loach, Terrence Malick, Marco Bellocchio e os irmãos Dardenne regressam à competição de um Festival de Cannes ainda a aguardar que Quentin Tarantino termine a tempo “Once Upon a Time in Hollywood” (o que é provável). No concurso está também “Frankie”, de Ira Sachs, co-produção franco-portuguesa rodada inteiramente em Sintra com Isabelle Huppert. E Maradona vai subir a passadeira vermelha. Cannes arranca a 14 de maio

“The Dead Don't Die”, de Jim Jarmusch, vai abrir o festival

D.R.

O Festival de Cannes já anunciara há dias que “The Dead Don't Die”, novo filme (de vampiros!) de Jim Jarmusch, iria abrir a 72ª edição do festival, em maio. No elenco do filme norte-americano poderemos encontrar Chloé Sevigny, Adam Driver, Tilda Swinton, Bill Murray, Tom Waits, Iggy Pop e Selena Gomez. Hoje, em Paris, Thierry Frémaux, diretor artístico de Cannes, e Pierre Lescure, o seu presidente, revelaram quase todo o resto da competição. É sabido que o festival tem o hábito de guardar uma ou duas casas (não mais) para completar o concurso pela Palma de Ouro, a anunciar posteriormente. Uma delas está garantida para “Once Upon a Time in Hollywood”, de Quentin Tarantino. O cineasta norte-americano está a ultimar a sua nona longa-metragem, uma vez mais rodada em película 35mm, e é em película (disse Frémaux) que Quentin quer projetá-la caso fique pronta a tempo (o que é muito provável).

Repetentes não faltam. O nosso vizinho Pedro Almodóvar volta à Croisette com “Dolor y Gloria”, um filme crepuscular sobre a sua vida, os amores, a sua mãe e a morte, com Antonio Banderas, Penélope Cruz e Julieta Serrano. O filme já se estreou em Espanha mas a exibição no país de origem não inibe a passagem em França.

"Dolor Y Gloria", o novo filme de Pedro Almodóvar

"Dolor Y Gloria", o novo filme de Pedro Almodóvar

O veterano britânico Ken Loach, que por mais do que uma vez já anunciou a sua retirada, volta à carga aos 82 anos com “Sorry We Missed You”, escrito pelo seu argumentista habitual Paul Laverty. Loach é, de longe, o cineasta mais selecionado pelo festival e também o que mais vezes esteve a concurso pela Palma de Ouro (que já conquistou por duas vezes).

O norte-americano Terrence Malick é uma vez mais aposta de Cannes e tem um novo tomo de três horas para acrescentar à sua obra: “A Hidden Life”. Sabe-se que é um filme mais clássico e narrativo do que a trilogia anterior iniciada em “The Tree of Life” (que Cannes premiou) e ainda bem que assim é: Malick parecia ter chegado a um beco sem saída. Quem também já tem duas Palmas de Ouro no currículo são os irmãos Dardenne. O duo de Liège nunca falhou uma chamada à competição e aí estão eles de novo com “Le jeune Ahmed”, história de um jovem belga tentado pelo radicalismo islâmico.

Outro dos seleccionados é o norte-americano Ira Sachs, que no outono passado rodou “Frankie” em Sintra, com Isabelle Huppert, Marisa Tomei, Brendan Gleeson, Greg Kinnear, Jérémie Renier e o português Carloto Cotta. A equipa técnica foi maioritariamente portuguesa (Rui Poças assinou a fotografia). Trata-se de uma produção franco-portuguesa (de Said Ben Saïd com O Som e a Fúria) e, portanto, de ótimas notícias para o cinema luso, que ainda não tinha tido esta década uma entrada na competição do maior festival de cinema do mundo (a última vez que isso aconteceu foi em 2006, com “Juventude em Marcha”, de Pedro Costa).

Isabelle Huppert em "Frankie" de Ira Sachs, filme rodado em Sintra

Isabelle Huppert em "Frankie" de Ira Sachs, filme rodado em Sintra

O canadiano Xavier Dolan (“Matthias et Maxime”), o brasileiro Kléber Mendonça Filho (“Bacurau”, correalizado com Juliano Dornelles e novamente com Sónia Braga) o palestiniano Elia Suleiman (“It Must Be Heaven”) e o italiano Marco Bellocchio (“Il Traditore”) são cineastas bem conhecidos entre nós que voltarão ao concurso.

Na cota francesa, aparecem Arnaud Desplechin, com “Roubaix, Une Lumière” (um policial com Léa Seydoux e Roschdy Zem), Mati Diop, com “Atlantique” (uma estreia na longa-metragem da realizadora e atriz francesa, sobrinha de Djibril Diop Mambéty), Céline Sciamma (“Portrait de la jeune fille en feu”), Justine Triet (“Sybil”) e ainda Ladj Ly, com uma primeira obra que atualiza o romance de Victor Hugo, “Les Misérables”. O filme centra-se num jovem agente da polícia da província que, ao ser integrado numa unidade da periferia de Paris, é introduzido a métodos de trabalho pouco ortodoxos. Quem viu “Les Misérables” já o comparou a “O Ódio”, de Mathieu Kassovitz.

Corneliu Porumboiu (o grande cineasta romeno estreia-se na corrida pela Palma com “La Gomera”) e a austríaca Jessica Hausner (outra estreia a concurso, com “Little Joe”), completam o lote. Quanto à Ásia (recorde-se que a Palma de Ouro de 2018 foi para o japonês Kore-eda), está este ano representada pelo sul coreano Bong Joon-ho (“Parasite”) e pelo chinês Yinan Diao (“The Wild Goose Lake”).

O documentário de Asif Kapadia sobre Maradona

O documentário de Asif Kapadia sobre Maradona

Na seleção oficial da “competição B” de Cannes, Un Certain Regard, o festival anunciou novos trabalhos de Bruno Dumont, Christophe Honoré, Albert Serra, Oliver Laxe ou Karim Aïnouz. Fora de concurso estão, entre outros, o novo documentário de Asif Kapadia, sobre Maradona. Os responsáveis de Cannes confirmaram a presença do astro argentino no festival de cinema, assim como novas obras de Werner Herzog, Alain Cavalier, Abel Ferrara, Claude Lelouch e Nicolas Winding Refn (este último com uma série, “Too Old To Die Young”).

Frémaux e Lescure frisaram hoje que Cannes não fecha a porta à Netflix e a outras plataformas streaming mas que, para já, a regra vai manter-se: só um filme com garantias de estreia em sala em França pode participar na competição. O presidente do júri da próxima edição será o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu.

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