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Cineasta sem dinheiro fecha-se num quarto de hotel e cria uma espécie de reality-show

O realizador Miguel Gonçalves Mendes vai estar recolhido, esta sexta, sábado e domingo, num quarto do hotel portuense Zero Box Lodge. O público está convidado para se juntar às conversas do cineasta com Valter Hugo Mãe ou Pilar del Río, conhecendo a intimidade, o trabalho do dia-a-dia e as agruras de um criador em busca de financiamento para terminar “O Sentido da Vida”, filme para o qual precisa de 350 mil euros

Miguel Gonçalves Mendes aposta numa campanha da crowdfunding, com o objetivo de angariar os 350 mil euros que lhe faltam para conseguir concluir "O Sentido da Vida"

D.R.

Domingo, 18 de fevereiro de 2018: o cartógrafo morreu. Não teve tempo para ver o filme da sua vida, rodado durante quatro anos e que o levou a partir do Brasil rumo a uma odisseia de mais de 56 mil quilómetros. Largou as raízes após o diagnóstico, tudo para ir em busca das origens de uma enfermidade rara. O sentido da vida, para Giovane Brisotto, começou a revelar-se nesse momento. Conheceu o mundo, percorreu 13 países, numa rota semelhante à dos exploradores portugueses que, há 500 anos, espalharam por outros continentes a paramiloidose familiar — conhecida como a doença dos pezinhos”. Os passos em volta do globo levaram a que a sua história se cruzasse com as do astronauta Andreas Mogensen, Dilma Roussef, Julian Assange, e também com as do músico islandês Hilmar Örn Hilmarsson, do ator porno Colby Kellen, da artista plástica Mariko Mori ou do escritor português Valter Hugo Mãe. Nem o transplante de fígado conseguiu travar a doença, que avançou e não permitu que a viagem tivesse um final feliz. Giovane tinha 31 anos. O sonho de ver o Grémio campeão do mundo de clubes não se realizou.

Sexta-feira, 5 de abril de 2019: o realizador está vivo. Tem mais de 2 mil horas de filmagens, em sete idiomas diferentes. Tem 40 anos e está sem dinheiro para conseguir concluir “O Sentido da Vida”, documentário no qual acompanhou todos os capítulos da epopeia de Giovane Brisotto. É por isso que Miguel Gonçalves Mendes está fechado, até domingo, num quarto de hotel.

Não se pense que o artista não quer ver ninguém. Pelo contrário. Durante três dias vai estar recolhido a trabalhar num quarto, com paredes de vidro, do hotel portuense Zero Box Lounge. E o público pode ver tudo, desde assistir a conversas com Valter Hugo Mãe, Pilar del Río e Regina Pessoa; fazer perguntas a troco de um euro; ou beber um shot com Miguel Gonçalves Mendes, neste free room aberto à intimidade e às agruras da vida de um realizador português. “As pessoas vão poder ver um tipo que é muito estóico e que luta muito pelas coisas, mas que também se foi abaixo muitas vezes e ficou doente quando o Giovane morreu. Vão ter acesso à minha imagem pública, a de alguém que se esforça para melhorar as coisas, mas também vão conhecer um Miguel que, em algumas situações, está à beira de desistir”, começa por confidenciar, ao Vida Extra, o cineasta.

“Vou estar recolhido no quarto, a trabalhar, a tentar captar financiamento e a ler a pilha de respostas negativas aos pedidos de apoio para o filme, ao mesmo tempo que falo sobre os problemas do dia-a-dia com a minha mãe ou com a Pilar, a quem ligo todas as semanas”, adianta Miguel Gonçalves Mendes.

A iniciativa que arranca esta sexta-feira, a partir das 19h30, estende-se até ao final da tarde de domingo, onde se inclui um workshop de cinema documental biográfico e a exibição exclusiva, no sábado, às 19h30, de uma parte, já editada, do documentário. “Como já temos vinte minutos do filme montado, decidimos convidar o Valter Hugo Mãe para ele ver, pela primeira vez, o excerto inicial. Vamos estar os dois, no quarto, a ver o filme, como se estivéssemos em casa, mas neste caso vamos estar acompanhados pelo público”, revela o realizador de “O Sentido da Vida”, uma visão através da sétima arte que “permite refletir sobre o processo de globalização e sobre a história da humanidade”.

O cineasta - autor de “José e Pilar” e da “Autografia” cinematográfica do poeta Mário Cesariny - é o reflexo da luta ao espelho, empenhado numa campanha de crowdfunding, para conseguir os 350 mil euros que lhe permitam concluir o trabalho. Nos últimos cinco anos, foram muitos os “não" que recebeu, quando batia à porta das “Galp’s e EDP’s desta vida” à procura de verbas para a produção. “O tecido empresarial não tem um mínimo de de filantropia”, lamenta Miguel Gonçalves Mendes, com acutilância ao atirar: “As pessoas não percebem que a arte, para existir, depende de apoio, porque não tem um retorno em si mesma. Se não fosse o mecenato, não teríamos 'A Gioconda' [de Leonardo da Vinci], porque a maioria dos mortais acharia que aquilo é uma merda de trabalho que não deveria ser feito”.

O Sentido da Vida” foi captado em vários países, como Brasil, Portugal, Grécia, Islândia, Japão, Índia, Nepal, Cazaquistão, Estados Unidos, entre outros. O filme, acredita o realizador, deverá chegar às salas de cinema durante o próximo ano.

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