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Podcasts: num mundo cada vez mais tecnológico, o som ganhou uma nova vida. Conheça-a aqui

Os podcasts são um vício para muitos, que não deixam passar um episódio dos seus programas preferidos. Falamos com os autores de alguns dos exemplos podcasts de informação de sucesso do momento

Tiago Soares

Austin Distel

Andamos todos a ouvir vozes. Aliás, sempre o fizemos: em casa, na rua, no trabalho, entre um sítio e o outro. Mas não eram suficientes, e a internet - sempre atenta às nossas necessidades - percebeu isso, e começou a esforçar-se para nos ajudar, dar-nos mais ainda. Ouvíamos vozes em casa, na rua, no trabalho, mas precisávamos de mais: precisávamos de ter as vozes disponíveis para ouvir quando nos desse mais jeito, em todos os sítios e não só nos mais óbvios. Mais do que isso: queríamos variedade, possibilidade de escolha, ser nós próprios a filtrar em tempo real o que nos chegava aos ouvidos. E, por isso, a internet - sempre cuidadosa - criou os podcasts.

Ao início, não anunciou a sua criação com grande alarido. Afinal, tínhamos a rádio - e ainda temos, aliás: a rádio continua a ser nossa, de todos, a rádio é de quem a quiser, os dados mostram que vai continuar a ser, e ainda bem. Mas a internet foi-nos seduzindo lentamente, desvendando todas as possibilidades e facilidades da sua nova criação, e eventualmente até a própria rádio anuiu, reconheceu o mérito das vozes digitais, passou a incorporá-las nas suas andanças. A televisão fez o mesmo. E as vozes digitais aceitaram o reconhecimento dos mais velhos, agradecidas, e continuaram o seu caminho na web, multiplicando-se nos temas e nas abordagens. E eis que chegamos até aqui: o termo podcast surgiu em 2004, já passaram 15 anos: é um formato na adolescência. Mas ao contrário de todos os adolescentes, não vive um período complicado. E tem boas perspectivas de futuro.

Falam aos nossos ouvidos, e por isso retemos melhor a informação. Através do som, participamos na pintura da imagem que nos querem mostrar: há uma ideia de coautoria entre o ouvinte e a pessoa que fala, porque ambos estão investidos no processo, algo que na televisão - onde se entrega tudo ao espectador - não acontece. É, no fundo, uma questão de intimidade. E, para o ouvinte, é também uma questão de tempo. Um podcast pode ser ouvido em quase todo o lado: em casa, na rua, no carro, transportes públicos, ginásio, numa sala de espera, durante tarefas mais ou menos aborrecidas e, dependendo dos casos, até no trabalho. Enfim, é um formato solidário com as correrias da vida moderna, que pode conhecer também no episódio mais recente do programa de dados do Expresso, o “2:59”, esta semana dedicado ao tema dos podcasts.

Liberdade, subversão e criatividade: como boa parte do mundo está viciada em podcasts

Nos Estados Unidos, os números são avassaladores: segundo dados da empresa Edison Research, publicados no relatório “The Infinite Deal 2018”, estima-se que 73 milhões de americanos - 26% da população - ouvem podcasts todos os meses. Mais de metade dessas audições são feitas fora de casa. Em Portugal não há ainda números (nem poderiam ser da mesma dimensão), mas os recentes sinais de crescimento são promissores. Para além dos inúmeros podcasts dedicados ao humor e entretenimento, o formato adolescente tem mostrado estofo para a cultura (música, literatura, etc…) e para a informação, seguindo o exemplo de jornais como o New York Times e o The Guardian, que têm podcasts diários. Jornais como o Expresso ou o Público têm feito várias apostas no conceito, e a monetização publicitária para as suportar - que em países como os EUA ou a Inglaterra está estabelecida e cresce todos os anos - começa a despontar timidamente.

É o caso da Comissão Política, podcast semanal de política do Expresso. O projeto foi uma ideia conjunta de Filipe Santos Costa e do ex-diretor do Expresso, Pedro Santos Guerreiro, e teve o primeiro episódio a 20 de Setembro de 2017. Filipe Santos Costa sublinha a informalidade do debate e a visão privilegiada que o formato oferece dos “bastidores” das próprias notícias: “Quem se interessa por informação interessa-se sobre a forma como a informação é produzida.” A ideia foi seguir o bom exemplo dos podcasts de informação internacional que já ouvia: “Algum do melhor jornalismo a que eu fui exposto nos últimos dois anos foi em podcasts.”

Este estofo assinala-se também em projetos independentes, criados fora dos grandes grupos. O agora órgão de comunicação social Fumaça começou por ser um podcast, expandiu-se a partir do formato, e continua a voltar a ele para grande parte das entrevistas e reportagens que produz. A duração do conteúdo não é um factor a ter em conta, não trabalham em cima da espuma dos dias: cada entrevista é sobre um tema específico, devidamente explorado e contextualizado, e onde o entrevistado tem todo o tempo necessário para se explicar e argumentar; fazem-no porque publicam na internet, sabem que quem os segue pode ouvir o conteúdo em qualquer lado, em qualquer altura, quando lhes for mais conveniente, através de várias plataformas.

É uma dinâmica menos rígida, que vai buscar à rádio a intimidade e junta-lhe a fluidez da internet: “O facto de não haver câmeras põe-nos muito mais à vontade… Tens menos um conjunto de variáveis para gerir: não tens de estar preocupado com a tua postura na cadeira, com a expressão facial, com quem está a olhar para ti.” José Maria Pimentel, economista, refere-se tanto a si como aos convidados do 45Graus, o seu podcast a que o jornal Público se associou, por onde já passaram figuras nacionais da cultura, história, ciência, e mais recentemente, política. Para ele, é um pretexto para conversar com pessoas cultas de várias áreas, e estar na linha da frente para perguntar e debater sobre determinado tema do seu interesse, na expectativa que os ouvintes se interessem também. Aponta ainda outra vantagem dos podcasts: é relativamente fácil e barato de fazer, “não é necessário ser-se um especialista, o que democratiza o formato”. No fundo, são apenas pessoas a falar numa sala.

O 45 graus partilha algo com todos os outros podcasts de informação e cultura portugueses: a informalidade, a facilidade com que se trocam ideias, e um público cada vez maior, sobretudo nas gerações mais jovens, para quem a internet é o habitat natural. “É uma questão tecnológica”, diz Daniel Oliveira, que se surpreendeu quando percebeu a juventude do seu público nas sessões ao vivo que começou a fazer. “Ainda há um salto tecnológico a dar (por parte das gerações mais velhas) mas que vai ser resolvido relativamente rápido.” Quando isso acontecer, os criadores não têm dúvidas que os ouvintes vão crescer ainda mais. Sim, porque o aumento de ouvintes tem sido uma tendência transversal a todos os podcasts em Portugal. Para além disso, tudo indica que quem começa a ouvir fideliza-se rapidamente ao programa e ao conceito.

Quando falámos com Daniel Oliveira sobre o seu podcast - Perguntar Não Ofende - apanhamo-lo entre formatos, minutos antes de entrar em direto na televisão, minutos depois de entregar um texto para o jornal do dia seguinte. O projeto foi propositadamente pensado para fora desses meios, porque um dos objectivos era “desbravar um caminho” ainda no início. Também ele tem liberdade total para abordar temas específicos, muitas vezes desligados das notícias do dia mas sempre relevantes para o debate político. A duração de cada episódio também não é um factor, algo que teria de ser considerado na rádio e na televisão. Nesses meios, análises e debates tão longos sobre um tema específico seriam impraticáveis, “porque as pessoas mudam de canal.” “Há um espaço de manobra que permite às coisas respirarem”, e os episódios - assim como as peças do Fumaça - “não envelhecem tão facilmente.” Com os podcasts, as pessoas não mudam de canal. O conteúdo é específico, os ouvintes escolhem o que ouvir e quando ouvir, e quando o fazem sabem que o tema é aquele, estão investidas nele, querem de facto acompanhar a discussão.

Para os autores também é transversal a certeza de que os ouvintes estão dispostos a contribuir para ouvirem conteúdos com qualidade. A plataforma usada - o Patreon - permite efectuar donativos para assegurar a continuidade dos projetos: esses números também sobem todos os meses, e parece que vão continuar a subir, provavelmente mesmo depois da magia do marketing despertar completamente para o fenômeno. Porque afinal de contas, numa época carregada de imagens e ecrãs, continuamos todos a ouvir vozes. E a querer continuar ouvi-las.

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