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Vida Extra

Fomos sair à noite com um humorista processado por Neto de Moura. Eis Diogo Batáguas

O Vida Extra esteve à conversa com o humorista Diogo Batáguas, numa mesa de bar de karaoke, a ouvir os relatos de uma vida desinteressante, as dúvidas quanto à conclusão da licenciatura, a estranha forma como se tornou comentador desportivo da BBC e o quão hilariante é ser processado por Neto de Moura

D.R.

A noite devia ter acabado ali. Os funcionários do Bonaparte, pub localizado na baixa portuense, já arrastavam as cadeiras e os barris, convidando subtilmente o grupo de convivas a sair, ainda ocupados em conversas animadas, enquanto as palavras lhes escorregavam empurradas pelas cervejas e pelo gin, às duas da madrugada, depois de um espetáculo de stand-up comedy no Teatro Sá da Bandeira. Tudo pago, era hora de sair. A noite devia ter acabado ali, mas então ele disse: “Eu dou-te a entrevista, mas vens ao Pixote!”. Não podia ser. E se fosse só um bocado? Ficaria mal dizer “não” ao protagonista da noite, capaz de levar - através da postura bem-humorada e despretensiosa perante a vida - qualquer pessoa a pensar: “Quero lá saber”. Hesitação a suspender o tempo, mas a decair rapidamente. Os dois carros arrancaram. A noite devia ter acabado ali.

Mas é “Mentira”, como aquela de João Pedro Pais, cantada no pequeno palco do emblemático bar de karaoke da Invicta, de portas abertas desde 1986. Mesa para oito no Pixote. Estava assim servida uma noite, em que as horas passaram rápidas até às seis da manhã, condimentada com gargalhadas, abraços cúmplices e performances musicais desinibidas, mais ou menos afinadas. Um coro mais amigável do que competente ajudava a saracotear sucessos díspares como “Sweet Child O' Mine” dos Guns N’ Roses ou “... Baby One More Time” de Britney Spears, sempre num tom “Perdidamente Apaixonado” pelo repertório de Toy, simultaneamente “Frágil”, tentando decalcar o estilo irreverente de Jorge Palma. E quem canta o quê, quem canta o quê, quem canta o quê? Ninguém precisa de saber. Isso faz parte da vida extra de um jornalista e do seu entrevistado.

O prometido é devido, como lembra a canção de Rui Veloso, e Diogo Batáguas não falhou. Apesar de visivelmente cansado, depois de ter feito rir durante uma hora e meia o público que encheu o Sá da Bandeira, o humorista - reservado, pacato e até introvertido na intimidade, mas extasiado e exacerbado na cantoria entre amigos - sentou-se para uma entrevista sem guião. A noite começava, ali, numa conversa sem filtros, translúcida como as pedras de gelo que restavam nos copos temporariamente vazios. Prepare-se para embarcar, ao som do “Homem do Leme”, ao encontro de um artista notabilizado através dos vídeos no YouTube, usados como chamariz para promover as atuações a solo com que tem percorrido várias salas de espetáculo por todo o país.

Diogo nasceu em Lisboa, mas cresceu e vive em Almada. Não tem bem a certeza se concluiu a licenciatura em Jornalismo ou não. Suspeita que sim. Garante não ter qualquer responsabilidade na falência das duas rádios onde trabalhou e o certo é que na BBC ninguém tem dúvidas na hora de contactar o “portuguese guy”, visto pelos ingleses como um especialista em “portuguese stuff”, mais do que habilitado, portanto, para comentar as incidências do desporto nacional.

Impõe-se, aos 33 anos, como uma figura proeminente de uma nova vaga de comediantes, através de um registo politicamente incorreto. E judicialmente também, o que o levou recentemente a ser processado pelo juiz Neto de Moura. Fica indeciso em saber se o sucedido pesa mais no cadastro ou no currículo, e admite a possibilidade de também recorrer a citações literárias - como a revista Maria - no processo de defesa. Assim é Diogo Batáguas, como um livro aberto numa mesa de bar.

Diogo Batáguas, no Porto, no final da atuação no Teatro Sá da Bandeira

Diogo Batáguas, no Porto, no final da atuação no Teatro Sá da Bandeira

D.R.

Por que motivo assegura ter uma vida que é uma seca?

Epá, porque é aborrecida. Não tem nada de especial. A malta pensa que quem vive das artes tem uma vida extraordinária, cheia de peripécias, mas às vezes não. Passo muitos dias fechado em casa, a ver coisas na internet, a escrever textos e a editar vídeos. Uma boa percentagem da minha vida, quando não estou na estrada e a fazer espetáculos, resume-se a esta pasmaceira, que nada tem de glamouroso.

Como e quando o humor se transformou numa séria brincadeira?

Nunca pensei, durante grande parte da minha vida, em profissionalizar-me na comédia, embora, desde puto, adorasse ver o Seinfeld no sofá lá de casa, a tentar não adormecer. Foi por essa altura, com 13 ou 14 anos, que acabei por me entusiasmar com o stand-up, mas nem sabia que aquilo era uma profissão. Também durante a adolescência comecei a ir ver espetáculos do Pedro Tochas, no Teatro da Trindade, e, depois, com o "Levanta-te e Ri" houve o boom do stand-up em Portugal. Mas nunca me passou pela cabeça arriscar, porque tinha imenso respeito por esta arte e não a queria fazer de forma incorreta. Só subi a um palco, aos 27 anos, porque comecei a ver tanta coisa má que me levou a pensar: "eu não devo fazer pior do que estes gajos". Sempre tive pânico de enfrentar uma plateia, mas não queria ficar com a frustração de nunca ter tentado.

Esse pânico de subir a um palco vai sendo esbatido com o tempo?

Ainda hoje me custa bastante, embora não tanto como no início, quando não conseguia dormir durante dias para fazer uma atuação de dez minutos num bar para vinte pessoas. Não sou uma pessoa naturalmente extrovertida. Sou um gajo bastante tímido e a performance artística é contranatura para mim. Claro que me divirto, mas a antecipação de uma presença em palco para centenas ou milhares de pessoas é algo que me magoa fisicamente. Fico muito tenso até a primeira piada sair bem e o público começar a rir. Acho que com o tempo pode aligeirar, mas já percebi que nunca vou ficar muito melhor do que isto. É quase como uma prisão.

O feedback inicial que o público dá pode ditar o rumo do espetáculo ou o caminho é o mais fiel possível ao texto?

Não sou um gajo que tenha uma grande capacidade de improviso. Há quem tenha muito rasgo criativo em palco, mas eu considero-me um humorista mais técnico. Escrevo as piadas, transformo as ideias num beat de stand-up que, em teoria, está bem trabalhado e que vai servir de base para os meus solos. É tudo fruto de muitos meses de trabalho, quase como uma batota que eu faço. Basta, por vezes, trocar uma palavra para que uma piada tenha muito mais graça, porque encaixa melhor na métrica. É como na música: trata-se de encontrar uma sequência exata de ideias e palavras que levam à gargalhada.

D.R.

Até à afirmação como humorista, o percurso profissional teve passagens por locais que... faliram. Como é que se explica isso?

[Risos] A minha competência nada tem a ver com isso. Eu saí da faculdade, onde fiz a licenciatura em Ciências da Comunicação... Quer dizer, eu nem sei se tenho o curso, na verdade, porque me faltava fazer uma cadeira, mas acho que entretanto acabaram com essa unidade curricular. Portanto, às tantas, até tenho o curso. Não tenho a certeza. Se calhar sou licenciado, se calhar sou. Comecei a trabalhar, primeiro como estagiário, para a Rádio Clube Português, que teve um investimento do caraças, com muitos nomes fortes do jornalismo, mas, de repente, com a crise de 2008, aquilo foi com os porcos passados uns anos. Depois fui trabalhar para a Super FM, uma estação local de rock em Almada, com uma estrutura remediada e com um espírito ainda das rádios-pirata, mas a conjuntura económica também não favoreceu, acabando por fechar em 2016.

E como chegou a comentador desportivo da BBC?

Ainda hoje recebi um e-mail deles, pá, querem que eu comente os oitavos de final da Liga dos Campeões. Eles, coitados, não fazem ideia de que eu não sou jornalista, porque nunca tive carteira. [risos] O meu nome anda à deriva na redação da BBC há anos, e ligam-me quando precisam de um "portuguese guy" para falar sobre "portuguese stuff". Isto aconteceu porque, quando trabalhava na secção de desporto da Rádio Clube Português, uma vez fui fazer a cobertura de um jogo entre Portugal e Espanha. Foi aí que conheci um correspondente da BBC, que devia estar lá a encher chouriços, a queixar-se de ainda não ter comido nada de jeito desde que tinha chegado ao nosso país. Isso é uma coisa que ofende qualquer português. Levei-o a bons restaurantes e marisqueiras, enchi o gajo do bom e do melhor, bifes do lombo à patrão, e ele lá voltou para Inglaterra convencido de que eu era um gajo impecável. E era, de facto, só não era um jornalista de referência, tal como ele pensava. Era só um estagiário, mas o que é certo é que o meu contacto ficou lá. Eles pedem-me para comentar e eu comento.

114 mil subscritores no canal de YouTube... Isso traz responsabilidade ou tenta não pensar na dimensão e nas expectativas?

Não quero responsabilidades nenhumas, só quero estar sossegado e divertir a malta. Algumas coisas provocam-me um misto de orgulho com preocupação, porque eu não quero ser, de todo, um exemplo a seguir. É frequente receber mensagens de miúdos que me dizem que os professores mostraram algum vídeo meu durante a aula, para contextualizar um tema e suscitar um debate. Devem ser aqueles professores que querem parecer jovens e então vão buscar um vídeo à internet para parecerem "bué baris", mas eu não quero ser um "opinion maker". Não me considero sequer um youtuber e não acordo todos os dias contente por ir fazer um vídeo. É apenas uma parte do meu trabalho. A magia está no palco e utilizo os conteúdos online como um isco para empurrar o público dos computadores para as plateias, porque eu não ganho dinheiro na internet.

De onde vem a desconfiança relativamente a pessoas que dizem ter bom sentido de humor?

Quem tem sentido de humor não necessita de o dizer. É quase como aquelas pessoas que, para dizerem que não são racistas, começam por dizer "eu até tenho um amigo que é preto". Não é algo que precise de ser dito, apenas de ser sentido. Tenho muito medo quando alguém chega ao pé de mim a dizer que tem muito sentido de humor. Isso significa, geralmente, que se ri das coisas que acha válidas e com as quais concorda, mas não é capaz de tolerar tudo o resto.

Alguma vez se arrependeu de ter feito uma piada?

Não me lembro de nenhum caso específico, mas pode ter acontecido, simplesmente pelo facto de a piada não ter funcionado. Faz parte do processo criativo. Não é grave. Nunca me arrependi por ter ofendido alguém ou por ter sido desagradável.

D.R.

Ser processado pelo juiz Neto de Moura é uma piada de mau gosto ou é um assunto que te leva a dizer, tal como o nome do espetáculo, "quero lá saber"?

Isto é estúpido para o juiz, não é para mim. É inacreditável como é que um juiz, no alto do seu poder, vai descer ao nível de um palhacinho que está a dizer coisas na internet. É ele quem sai melindrado no meio de tudo isto, porque não teve um mínimo de estofo moral e emocional para lidar com críticas elementares. A única coisa que eu fiz foi criar uma hashtag: #NetodeMouraécorno. E isso vem de uma conclusão que muita gente tira, porque aquele juiz, ao punir as mulheres, principalmente as adúlteras, indo até buscar passagens bíblicas, acaba por passar a ideia de que, em algum momento da vida, já levou com um par de cornos. Mais valia estar caladinho, aguentar a crítica como toda a gente aguenta na vida e, dali a dois dias, já ninguém fala do assunto. Neto de Moura estava à espera de processar humoristas e de que eles ficassem cheios de medo? Não! Ser processado por Neto de Moura é a coisa mais hilariante que aconteceu na minha vida. A ideia de um juiz processar um tótó do YouTube, só porque este inventou uma hashtag a insinuar que ele pode ter levado com um par de cornos, é absolutamente genial.

Ter o nome, na lista de processados, ao lado de referências como Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira ou João Quadros até dá um certo prestígio?

Isto é mau para o Ricardo Araújo Pereira e para o Bruno Nogueira. Imagino que eles se estejam a sentir lixados - e com razão -, tal como eu me sentiria se estivesse a ser processado ao lado do [youtuber] D4rkFrame. Temos ali nomes como o de Catarina Martins, deputados, jornalistas como a Fernanda Câncio, e depois está ali um cócó da internet a estragar uma lista toda bonita. Eu imagino que todos os processados devam estar a perguntar-se: "quem é este merdas?". Não sei se conta mais no cadastro ou no currículo ser processado por Neto de Moura.

Citar a Bíblia em tribunal, como forma de defesa, é uma possibilidade a equacionar?

Talvez cite um livro de banda desenhada, porque parece que é legítimo citar livros que estejam enraizados na cultura popular. O Tintim parece-me bem, mas se ainda tiver a revista Maria do mês de janeiro, vou usá-la em tribunal.

A realidade pode ser uma piada? O quotidiano tem jeito para o humor?

Situações como esta são quase batota, porque basta contar a história. Ser processado por um juiz é material de stand-up comedy que a vida me ofereceu. E eu aproveito, com todo o gosto.

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