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A história de amor entre Snu e Sá Carneiro deu um filme

“Os portugueses não estão habituados a ver ficção com as suas personagens vivas. Passam a vida a dizer que ainda não é o tempo de falar das coisas, quanto mais fazer ficção”

A história do relacionamento da editora dinamarquesa Snu Abecassis com o antigo primeiro-ministro português Francisco Sá Carneiro, nos anos de 1970, é retratada num filme de Patrícia Sequeira que se estreia na quinta-feira, nos cinemas.

"Snu" é um filme de ficção inspirado em factos reais e que se centra num período da vida de Snu Abecassis, fundadora da editora Publicações Dom Quixote e que desafiou uma sociedade portuguesa, ao assumir uma união de facto com Francisco Sá Carneiro, quando este era casado.

Protagonizado por Inês Castel-Branco e Pedro Almendra, o filme é apresentado pela realizadora como "uma história de amor e coragem" que, apesar de estar assente na realidade, inclui "alguma poesia", como contou aos jornalistas no ano passado, durante a rodagem. "A realidade por si só seria um documentário e isto é um filme [de ficção] e o cinema permite-me um bocadinho tirar os pés do chão", disse a realizadora.

O argumento foi escrito por Cláudia Clemente, com consultoria histórica de Helena Matos, e baseia-se nas biografias sobre Snu Abecassis e Sá Carneiro e em documentação da época.

FILME ARRISCADÍSSIMO

No encontro com os jornalistas, na rodagem, Helena Matos descreveu esta produção como "um filme arriscadíssimo" pelo contexto político que recupera, pela própria particularidade da relação entre a editora e o político, pela polémica em torno do acidente em que ambos morreram, e porque é ainda uma memória recente da História de Portugal.

"Os portugueses não estão habituados a ver ficção com as suas personagens vivas. Passam a vida a dizer que ainda não é o tempo de falar das coisas, quanto mais fazer ficção. (...) Isto mexe com muita coisa. É provavelmente dos filmes portugueses mais arriscados, porque se têm feito grandes histórias de amor e liberdade, mas estava tudo morto, estava tudo na paz dos cemitérios. E aqui ninguém está na paz dos cemitérios", disse. Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro morreram a 04 de dezembro de 1980, quando o avião Cessna em que viajavam se despenhou em Camarate, pouco depois de levantar voo de Lisboa.

O filme começa e termina com referência ao dia do acidente fatal, mas a narrativa desenvolve-se sobretudo em torno da figura de Snu Abecassis, no trabalho na Dom Quixote, no pensamento interventivo, na oposição ao regime ditatorial e na união de facto, que causou polémica, com o então primeiro presidente do PSD, eleito primeiro-ministro.

Além da reconstituição da época, acentuada pela caracterização dos atores, escolha de espaços, guarda-roupa, no filme são incluídas imagens de arquivo nas quais surge o casal e há uma reconstituição histórica de vários momentos verídicos, nomeadamente a visita oficial do então presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter a Portugal em 1980, a revolução de abril de 1974 ou a noite em que venceu as eleições legislativas.

Além de Snu Abecassis e Sá Carneiro, no filme estão representadas outras personalidades da cultura e da política portuguesas, nomeadamente Natália Correia, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares. "O filme está carregado de coisas reais. Às vezes a realidade não é tão interessante, vamos por outros caminhos e, quando entramos na porta de intimidade, ninguém sabe", disse Patrícia Sequeira. "Snu" é a segunda longa-metragem de ficção de Patrícia Sequeira, depois de "Jogo de damas" (2016), com produção da Sky Dreams.

Coincidindo com a estreia comercial do filme, a Dom Quixote reedita na próxima semana o livro "Snu e a vida privada com Sá Carneiro", da jornalista Cândida Pinto, publicada originalmente em 2011. Desde a morte de ambos, em 1980, foram feitas várias obras de pendor biográfico sobre ambos, mas em particular sobre Snu. Seis anos depois da morte da editora dinamarquesa, a mãe, Jytte Bonnier, escreveu a biografia dela, publicada em 2003, e que contou com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, antigo presidente do PSD entre 1996 e 1999, atual Presidente da República.

Em 1983, Agustina Bessa-Luís escreveu "Os meninos de ouro", em que retrata a vida de Sá Carneiro com a mulher, Isabel, mãe dos cinco filhos do político, a paixão por Snu e a chegada dele ao poder. Em 2007, Miguel Real publicou a novela "O Último Minuto na Vida de S.", adaptada para teatro, e, em 2011, Luís Filipe Rocha fez o filme "Camarate".

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