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Fantasporto: A espada, o dragão e os fantasmas

Filmes de espadachins, monstros cheios de garras e passagem de almas do outro mundo para este marcaram o começo da semana na 39ª edição do Fantasporto

“Monstrum” de Jung-Ho Hu, espadachins contra dragões

DR

Com o decisivo jogo Porto-Benfica marcado para sábado à noite até poderia parecer pelo título desta crónica que estava a querer falar de futebol e não do Fantasporto. E se vos dissesse que a expressão que melhor descreve os filmes exibidos nestes últimos dias é “e pluribus unun”, mais se reforçaria essa impressão, agravada pela suspeita de estar a querer tomar partido por um dos lados. Na verdade a dita frase em latim tem como uma das suas interpretações qualquer coisa como “unidade na diversidade”. É uma das divisas dos Estados Unidos. Se algum clube português fez também dela a sua divisa eu, qual Marco António ao fazer o elogio fúnebre de Julio César, reafirmo que só vim aqui falar de cinema e não de futebol mas lá que houve espadas erguidas contra dragões e se ergueram muitos fantasmas, disso não há dúvida.

Pessoalmente sempre fui fã dos filmes de artes marciais do oriente, desde o tempo das Meias Noites Fantásticas no Politeama ou no Aviz, isto no princípio da década de 70 em Lisboa, andava eu na faculdade. Por isso, foi com redobrado gozo que assisti à projecção de “Monstrum” do sul-coreano Jong-Ho Hu. Um filme de espadachins com alguma mensagem ecológica: o monstro era uma inofensiva cria até fugir quando a tentaram matar e se começar a alimentar de cadáveres de vítimas da peste. E também com uma mensagem política: o primeiro-ministro corrupto tenta virar o povo contra o bom rei, atiçando o monstro para este atacar a cidade e depois poder culpar o monarca da sua suposta inacção. Em tempos de populismos e demagogias isto não vos lembra nada?

Depois, Fantasporto que se preze, tem que ter fantasmas. Nestes últimos dias houve-os de dois tipos. Os que se erguem dos pântanos escoceses para vingar antigas injustiças (The Demon Eye, Reino Unido, Ryam Simons) e os, ainda mais tenebrosos, que se escondem numa Alemanha recôndita e evocam os horrores do nazismo (“Living Space”, Steven Speil, Austrália).

“School Service”, do filipino Louie Lagdameo Ignacio, o drama dos meninos de rua em Manila

“School Service”, do filipino Louie Lagdameo Ignacio, o drama dos meninos de rua em Manila

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Ver o cinema dos outros

Mas se há coisa em que este festival tem sido marcante é na divulgação de cinematografias que habitualmente não chegam às salas comerciais, pelo menos em Portugal. É desde logo o caso das produções vindas do Hong Kong ou da Coreia do Sul e este ano até passará o primeiro filme chinês de ficção científica, bem como uma produção indiana de Bollywood. A isto se acrescentam nestes últimos anos interessantes exemplos do cinema filipino, focando temas que vão do terror relacionado com mitos ancestrais, à corrupção policial, à violência ou ao quotidiano das grandes cidades.

Desta vez passou “School Service” do realizador filipino Louie Lagdameo Ignacio, a história de uma menina raptada quando a carrinha que a leva à escola é roubada e a menina é posta a mendigar na rua por conta de uma família miserável cujo maior crime é tentar sobreviver nas ruas violentas, poluídas e superlotadas de Manila.

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