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Entrevista a Carrilho da Graça: “A arquitetura é sempre uma responsabilidade social”

Conhece Lisboa como as palmas da mão. Autor do terminal de cruzeiros em Alfama, do Pavilhão do Conhecimento no Parque das Nações e do núcleo arqueológico do Castelo de São Jorge, o arquiteto queixa-se da falta de interesse do país pela saúde da arquitetura

O seu trabalho de arquitetura não é só um diálogo com o território, mas também um diálogo com a História e a Arqueologia dos lugares. Foi sempre assim?
Na altura em que estava a estudar, um dos livros mais difundidos era o do Aldo Rossi, que já nos chamava a atenção para esse tipo de questões, um arquiteto muito particular, porque fez uma inversão na história da arquitetura. Apareceu a chamar a atenção para o neoclassicismo em Milão, mas com uma atitude que, parecendo neoclássica, era bastante arrojada nos seus objetivos e resultados. Chamou a atenção para as características dos edifícios e da cidade e para a possibilidade de estabelecer uma relação de comunicação direta com a maioria das pessoas. A partir daí sempre me interessei imenso por estes temas: refletir sobre o território, como é que a cidade cresce em cima dele, e portanto dar-lhe sempre muita prioridade, assim como à paisagem, e entender que os edifícios são uma espécie de nó dentro de um entendimento do território.

Em que momento da sua vida é que se interessou pelo espaço público?
Não sei localizar, mas sempre pensei a arquitetura como a construção da cidade e do espaço público e mesmo que se esteja a fazer uma pequena casa, num recanto qualquer, ela é sempre construída num espaço público, que mais não seja de visibilidade. Acho que a responsabilidade maior dos arquitetos é mesmo a construção do espaço público, quer seja em cidades ou em zonas não tão conectadas com a intensidade urbana, mas com pertinência do ponto de vista da construção do espaço onde se pode viver. Quase desde o princípio (da carreira) fiz muitos concursos, uns em Portugal outros fora. Tive muitas vezes bons resultados e foi a maneira mais direta de conseguir trabalhos interessantes. Muitos arquitetos às vezes têm a ilusão de que se forem jogar golfe ou se fizerem atividades sociais vão conhecer milionários que lhes vão encomendar projetos, mas eu acho isso uma ilusão, nunca pensei que fizesse parte da vida do arquiteto. Achei sim que o caminho era fazer concursos, participar em exposições, ter uma certa visibilidade. Uma vez, numa conferência em Lisboa, o arquiteto suíço Herzog disse que a arquitectura era uma das profissões mais honestas no sentido em que tudo o que se faz fica à vista de toda a gente.

Recentemente recebeu a primeira edição do prémio italiano de arquitetura Leon Battista Alberti e está no México para ser homenageado na ArpaFil, um encontro sobre arquitetura e património que acontece desde 1995, em Guadalajara. Os prémios são importantes?
Os prémios são importantes para qualquer arquiteto, porque no fundo são o reconhecimento do trabalho que estamos a fazer. Há pouco tempo, o arquiteto Álvaro Siza queixava-se do abandono e do mau estado em que estão muitos dos seus edifícios, o que é um facto e eu também me posso queixar do mesmo. Acho que o prémio mais importante e mais interessante para nós é uma maior atenção da sociedade em relação às obras e à sua vida, porque há países do mundo em que se dá muitíssimo mais importância à arquitetura. Apesar de parecer que Portugal é muito premiado e que tem bons arquitetos, há um desleixo generalizado que acaba por matar tudo. No centro da Europa, por exemplo, a arquitetura é muito valorizada e os edifícios são cuidados. Sente-se que há uma interação com a sociedade muito mais respeitada.

Pensa nos seus edifícios daqui a cem anos?
Depende. Ultimamente a tendência é pensar que o ciclo de vida dos edifícios é mais curto do que antigamente. Uma vez um engenheiro inglês disse-me que os edifícios antigos que hoje conhecemos e admiramos são os mais consistentes do ponto de vista construtivo, são os que resistiram a séculos de eventuais terramotos, incêndios, o que quer que seja. É capaz de ter havido arquitetura de madeira maravilhosa que entretanto foi sendo incendiada e desapareceu completamente e nem sequer há registo. E portanto nós temos muito apreço por edifícios antigos um pouco por esta razão. Por outro lado, quando estamos a projetar temos de ter consciência que nós próprios somos muito mais efémeros do que os edifícios que estamos a construir. Daqui a uns anos já cá não estamos, mas o edifício pode aí ficar e por isso é uma enorme responsabilidade deixar coisas interessantes ou menos interessantes. E além disso, a arquitetura é sempre uma responsabilidade social: o que deixamos fisicamente construído se for consistente acaba por marcar um espaço durante muitos anos.

Quais são os projetos de que mais se orgulha?
Costumo dizer que os projetos são um pouco como os filhos: primeiro, não se pode dizer qual é o que se prefere mesmo que isso aconteça e, por outro lado — e isto sinceramente é uma coisa que me está mesmo a preocupar — vamos trabalhando durante a vida toda e vamos construindo cada vez mais e cada vez temos mais trabalho, porque temos de tomar conta destes edifícios todos de alguma maneira. Neste momento estão a fazer um guia das minhas obras em Portugal, o que me obriga a visitar os edifícios, e fico com esta sensação que tenho imensos pontos a que dar atenção, com coisas que não estão bem. À medida que os anos passam os arquitetos só conseguem conquistar cada vez mais problemas e preocupações por todo o lado, porque para nós nunca nada está perfeito. Isso é um facto.

No que diz respeito ao espaço privado, qual é a sua relação com a casa que habita?
A minha casa é um andar não muito grande, mas estou agora a construir uma casa pela primeira vez, na Lapa (Lisboa), e tenho uma casa de férias em Tavira. Sobre esta só tenho pena de estar lá pouco tempo, porque tem um espaço exterior de que gosto muito e é mais adaptada ao que penso. As casas em que fui vivendo, por coincidência, foram em edifícios do arquiteto Conceição Silva, de Lisboa. Têm algum interesse, mas fiz algumas alterações para adaptar ao que me parecia mais pertinente.

A vista da casa é importante?
É. Por exemplo, no ateliê, onde passo grande parte do dia, tinha uma vista excelente para o rio. Neste momento estão a construir um edifício, que está quase acabado, deixei de ter a vista e sinto-me um pouco apertado. Tenho a rua, mas é completamente diferente. Em qualquer dos casos, acho que a vista está sobrevalorizada em termos de imobiliário em Lisboa. É incrível, qualquer cantinho com vista custa o dobro ou o triplo. Mas é um facto que a vista tem uma certa importância na vida das pessoas. Um dia, um amigo meu disse-me uma coisa muito interessante, damos muita importância à saúde do nosso corpo mas menos à da mente e olhar para o céu é extremamente importante. A partir daí, comecei a considerar essa possibilidade, a de pura e simplesmente olhar para o céu, que também é uma vista e que é mais acessível do que as maravilhosas e caríssimas vistas (risos).

O Expresso viajou a convite do comissariado para a participação portuguesa na FIL Guadalajara 2018