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Conheça a nova biografia de Calouste Gulbenkian

Jonathan Conlin assina uma biografia sobre Calouste Gulbenkian, o multimilionário arménio que enriqueceu com o petróleo e deixou em Portugal um legado cultural inestimável

Durante a década e meia que passou em Portugal, Calouste Gulbenkian viveu em larga medida fechado no Hotel Avis, em Lisboa

Durante a década e meia que passou em Portugal, Calouste Gulbenkian viveu em larga medida fechado no Hotel Avis, em Lisboa

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Calouste Gulbenkian é conhecido em Portugal pela fundação que leva o seu nome e pelas atividades que essa fundação desenvolve — incluindo as que já a levaram a ser considerada uma espécie de segundo Ministério da Cultura português. Algumas histórias dos hábitos curiosos de Gulbenkian também aparecem nos jornais de vez em quando (por exemplo, sobre as estratégias que seguia para manter a energia e viver o mais possível: dormir com mulheres muito jovens, contar as garfadas quando comia, os próprios movimentos da respiração...). Tirando isso, o cidadão comum não sabe praticamente nada dele. Ou melhor, não sabia, pois agora há finalmente um livro a contar a vida do multimilionário. Escrito por um professor de História Moderna em Southampton e financiado pela própria fundação sem contrapartidas de controlo editorial, “O Homem Mais Rico do Mundo” é uma obra rica em informações e de escrita limpa.

O relato atravessa alguns dos lugares mais dramáticos da história do século XX. Sobre o estatuto de Gulbenkian como colecionador, o livro enfatiza um bom gosto de base, que foi enriquecido pela humildade de reconhecer limitações pessoais e de aprender. Quanto ao papel de Gulbenkian no desenvolvimento da indústria petrolífera, em especial no que se refere à exploração de poços no Médio Oriente — culminando na descoberta do maior poço do mundo em 1927, no Iraque —, foi um triunfo de engenharia financeira e diplomática da sua parte. A nós, portugueses de hoje, outros pormenores tocam-nos mais de perto. Para alguém que frequenta o Museu Gulbenkian desde criança, é fascinante perceber que aqueles dois Rembrandts um ao lado do outro (inesperados por serem mesmo Rembrandts e por estarem em Portugal) são, como outros quadros de grandes mestres lá presentes, fruto de um acordo com a URSS. Em 1930, o país de Estaline necessitava desesperadamente de dinheiro para se industrializar. Convencido de que Gulbenkian era o homem para proporcionar ao petróleo russo acesso aos mercados internacionais, a União Soviética aceitou que o Hermitage lhe vendesse quadros e outras obras da sua coleção. O acordo funcionou até os russos perceberem que Gulbenkian não só não ia resolver os problemas que tinham como estava a comprar-lhes os quadros demasiado baratos.

O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO, de Jonathan Conlin, Objectiva, 2019, trad. de Manuel Santos Marques, 492 págs., €21,90 - Biografia

O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO, de Jonathan Conlin, Objectiva, 2019, trad. de Manuel Santos Marques, 492 págs., €21,90 - Biografia

Uma vez dealmaker, sempre dealmaker. Não será exagero considerar Gulbenkian uma espécie de Trump verdadeiro, o Trump que Trump diz ser mas não é. O grande talento de Gulbenkian era a negociação. O modo como essas coisas se tratavam na época não encorajava a produção de testemunhos diretos, mas existem algumas descrições do seu estilo pessoal. Entre elas, uma estereotipada mas sugestiva que o presente livro cita: “Proveio de uma família arménia distinta e combinava uma mente culta e uma profunda compreensão das artes com a inteligência, modos requintados e tortuosidade oriental. Sempre que delineava os proveitos de um consórcio ou outro, fazia-o de forma tão aprimorada e insinuante que, para usar uma expressão oriental, era capaz de fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha.”

Ponderado, minucioso, persuasivo, Gulbenkian era, como diriam os ingleses, “quite a character”. O cuidado só lhe faltou em relação à disposição futura dos seus bens, deixando um testamento cuja ambiguidade abriu campo a interpretações que permitiram que Portugal ficasse com aquilo que não se destinava a Portugal, segundo Conlin. O vilão da peça será José Azeredo Perdigão, o advogado que combinou essa tramoia toda com Salazar, transmitindo-lhe comunicações confidenciais que ia mantendo com o seu cliente. Familiares de Perdigão, naturalmente, contestam essa versão. Seja qual for a verdade, não há dúvida de que Gulbenkian devia sentir lealdade ou afinidades mínimas com Portugal. Apesar da quase década e meia que passou cá, vivia em larga medida fechado no Hotel Avis, e durante a guerra chegara a ser detido, escapando à prisão apenas por intervenção de um diplomata egípcio. “É difícil imaginar este drama a ter lugar em Vichy ou em Londres”, escreve Conlin. “Refletia com precisão o desprezo da PVDE pelas minudências de um processo correto, pela imunidade diplomática e pelos direitos cívicos. Não obstante a barreira do idioma, Calouste tivera uma lição muito instrutiva sobre o lado menos aprazível de Agostinho Lourenço (o diretor da PVDE) e dos seus agentes e, na verdade, do próprio regime de Salazar. Teve o cuidado de incluir os funcionários de Lourenço na lista de instituições beneméritas portuguesas que apoiava, acima de tudo por manterem os jornalistas afastados do Avis.”