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Dulce Maria Cardoso. “A ficção é uma máquina de fazer realidade”

Sete anos depois de ser aclamada com “O Retorno”, Dulce Maria Cardoso regressa ao romance e fala-nos do amor às personagens, das efabulações na infância e da escrita que exige rasura total, reclusão e silêncio

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

Tiago Miranda

Ao quinto romance, Dulce Maria Cardoso levou mais longe do que nunca a relação visceral que mantém com as suas personagens. “Eliete”, o muito aguardado sucessor de “O Retorno” (um dos mais elogiados livros da última década, em Portugal), é o retrato de uma mulher normalíssima, mediana em tudo, afogada no tédio e na indiferença familiar, espécie de Madame Bovary que decide tomar as rédeas da sua vida e experimentar a traição conjugal na era do Tinder. A história estendeu-se por muitas centenas de páginas e terá várias partes, em pelo menos três volumes — o primeiro já nas livrarias; o próximo com edição prevista ainda para este ano.

Com “O Retorno”, em 2011, alcançou o patamar da consagração, tanto por parte da crítica como dos leitores. “Eliete — A Vida Normal” surge no final de 2018, mais de sete anos depois. Costuma fazer intervalos longos entre romances, mas este foi o maior. A que se deveu um hiato tão grande?

Tem tudo a ver com a maneira como escrevo. Eu não consigo ter um calendário, não consigo dizer que vou agora publicar isto ou fazer aquilo. Nem consigo sequer decidir sobre o que vou escrever. Na verdade, sou acima de tudo uma autora de personagens. E as personagens, para mim, são como pessoas que eu encontro e vou descobrindo aos poucos. Não as construo. Persigo-as. Preciso de tempo para as conhecer. Porque elas por vezes calam-se. Surgem confusas, esquisitas. E algumas desaparecem como apareceram. Nestes sete anos, eu tentei outras personagens, que ainda estão em espera. Talvez venham a ressurgir mais tarde. E fiz muitas outras coisas.

De onde é que surgiu a Eliete?

Não sei exatamente de onde é que ela veio, porque a Eliete ainda está em construção. É a primeira vez que isto me acontece. Não era de todo a minha ideia, mas percebi que a história dela será contada em várias partes. Na primeira, a que chamei “A Vida Normal”, Eliete surge no contexto da sua existência normalíssima, igual a tantas outras. Daqui para a frente, depois do que julga ter descoberto [um vínculo familiar com António de Oliveira Salazar], a Eliete será outra e terá outra voz.

Essas outras partes, em vários volumes, já existem ou ainda estão por escrever?

Existem em esboço. Deste livro houve uma versão em que eu escrevi tudo, até ao fim. Mas cheguei à conclusão de que não estava completo. Se entendermos um romance como uma construção, faltavam imensas coisas: portas, janelas, pedaços de telhado. Estavam lá as fundações, mas o resto faltava tudo. Percebi que tinha de esperar, ver melhor. Mais uma vez, tive a sorte de trabalhar com uma editora [Bárbara Bulhosa, da Tinta da China] que me deu esse tempo de recuo.

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