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Carrilho da Graça. “A arquitetura é sempre uma responsabilidade social”

Conhece Lisboa como as palmas da mão. Autor do terminal de cruzeiros em Alfama, do Pavilhão do Conhecimento no Parque das Nações, queixa-se da falta de interesse do país pela saúde da arquitetura

Marcos Borga

O seu trabalho de arquitetura não é só um diálogo com o território, mas também um diálogo com a História e a Arqueologia dos lugares. Foi sempre assim?

Na altura em que estava a estudar, um dos livros mais difundidos era o do Aldo Rossi, que já nos chamava a atenção para esse tipo de questões, um arquiteto muito particular, porque fez uma inversão na história da arquitetura. Apareceu a chamar a atenção para o neoclassicismo em Milão, mas com uma atitude que, parecendo neoclássica, era bastante arrojada nos seus objetivos e resultados. Chamou a atenção para as características dos edifícios e da cidade e para a possibilidade de estabelecer uma relação de comunicação direta com a maioria das pessoas. A partir daí sempre me interessei imenso por estes temas: refletir sobre o território, como é que a cidade cresce em cima dele, e portanto dar-lhe sempre muita prioridade, assim como à paisagem, e entender que os edifícios são uma espécie de nó dentro de um entendimento do território.

Em que momento da sua vida é que se interessou pelo espaço público?

Não sei localizar, mas sempre pensei a arquitetura como a construção da cidade e do espaço público e mesmo que se esteja a fazer uma pequena casa, num recanto qualquer, ela é sempre construída num espaço público, que mais não seja de visibilidade. Acho que a responsabilidade maior dos arquitetos é mesmo a construção do espaço público, quer seja em cidades ou em zonas não tão conectadas com a intensidade urbana, mas com pertinência do ponto de vista da construção do espaço onde se pode viver. Quase desde o princípio (da carreira) fiz muitos concursos, uns em Portugal outros fora. Tive muitas vezes bons resultados e foi a maneira mais direta de conseguir trabalhos interessantes. Muitos arquitetos às vezes têm a ilusão de que se forem jogar golfe ou se fizerem atividades sociais vão conhecer milionários que lhes vão encomendar projetos, mas eu acho isso uma ilusão, nunca pensei que fizesse parte da vida do arquiteto. Achei sim que o caminho era fazer concursos, participar em exposições, ter uma certa visibilidade. Uma vez, numa conferência em Lisboa, o arquiteto suíço Herzog disse que a arquitectura era uma das profissões mais honestas no sentido em que tudo o que se faz fica à vista de toda a gente.

Recentemente recebeu a primeira edição do prémio italiano de arquitetura Leon Battista Alberti e está no México para ser homenageado na ArpaFil, um encontro sobre arquitetura e património que acontece desde 1995, em Guadalajara. Os prémios são importantes?

Os prémios são importantes para qualquer arquiteto, porque no fundo são o reconhecimento do trabalho que estamos a fazer. Há pouco tempo, o arquiteto Álvaro Siza queixava-se do abandono e do mau estado em que estão muitos dos seus edifícios, o que é um facto e eu também me posso queixar do mesmo. Acho que o prémio mais importante e mais interessante para nós é uma maior atenção da sociedade em relação às obras e à sua vida, porque há países do mundo em que se dá muitíssimo mais importância à arquitetura. Apesar de parecer que Portugal é muito premiado e que tem bons arquitetos, há um desleixo generalizado que acaba por matar tudo. No centro da Europa, por exemplo, a arquitetura é muito valorizada e os edifícios são cuidados. Sente-se que há uma interação com a sociedade muito mais respeitada.

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