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Vida Extra

Maria Lamas e Ferreira de Castro: uma relação longa e profunda

A correspondência trocada entre os dois escritores e posteriormente depositada na Biblioteca Nacional não esclarece porque estão ausentes do espólio os romances inéditos ou mesmo algumas cartas de índole amorosa

Uma amiga de Maria Lamas, Maria Antónia Palla, e duas cartas, uma da própria escritora e outra da filha, indicam que Maria Lamas e Ferreira de Castro terão planeado numa espécie de “ressurreição”, a concretizar através da publicação de um conjunto de cartas, 30 anos após o último a morrer (ver Revista do Expresso de 19 de Janeiro). Maria Lamas morreu há 35 anos e Ferreira de Castro há 45.

A jornalista, escritora e feminista também pretendia publicar livros que contariam o que não conseguiu dizer em vida, como foi anunciando em entrevistas nos anos 70 do século XX, depois de regressar do exílio em Paris. Não se sabe, porém, onde estão os livros; nem essas cartas “provavelmente amorosas”, como conclui o neto, o antropólogo e psicanalista José Gabriel Pereira Bastos.

Em 1982, Maria Lamas refere na carta à filha, Maria Cândida, o depósito na Biblioteca Nacional, e a filha responde-lhe que sabe dessa entrega na Imprensa Nacional. A família já tentou as duas instituições, mas nenhuma delas diz ter em seu poder tais documentos.

Carta de Maria Cândida, filha de Maria Lamas, à mãe de 28 de Fevereiro de 1982, onde se fala no depósito na Imprensa Nacional das cartas enviadas um ao outro, e da realização de uma escritura de que Álvaro Salema foi testemunha

Carta de Maria Cândida, filha de Maria Lamas, à mãe de 28 de Fevereiro de 1982, onde se fala no depósito na Imprensa Nacional das cartas enviadas um ao outro, e da realização de uma escritura de que Álvaro Salema foi testemunha

Os registos que documentam a ‘amitié amoureuse’, que os dois alimentaram ao longo da vida, estão guardados no espólio que a família vendeu, depois de Maria Lamas morrer, à Biblioteca Nacional, e permitem concluir que o relacionamento entre os dois foi profundo e existiu até à morte dele, em 1974. São cartas que Ferreira de Castro lhe foi enviando, entre 1930 e 1973.

O escritor Ferreira de Castro, com quem Maria Lamas teve uma "amitié amoureuse"

O escritor Ferreira de Castro, com quem Maria Lamas teve uma "amitié amoureuse"

Apesar de abrangerem diferentes períodos, as cartas de Ferreira de Castro reunidas no espólio de Maria Lamas têm hiatos significativos. Na Biblioteca Nacional existem 103 documentos, nos quais se incluem oito cartões de visita (onde Ferreira de Castro escreve uma carta a lápis), dois telegramas, dois postais ilustrados, uma fotografia do próprio de 1930, um texto acerca da obra de Maria Lamas "As Quatro Estações", um envelope com flores secas, um datiloscrito (cópia) com "Resumo da Obra", três cartas da mãe de Ferreira de Castro dirigidas a Maria Lamas, uma carta dirigida a "Monsieur Secretárie" a propósito da atribuição do Prémio Nobel da Literatura e um recibo. Há também uma carta rasgada, que apesar de tudo se consegue ler.

Neste grupo de documentos encontram-se pequenas cartas que Ferreira de Castro envia a Maria Lamas, a dizer-lhe que precisa de tratar de assuntos com ela no gabinete dele, no “O Século”, jornal no qual os dois coincidem durante um período, provando que se escrevem mesmo quando estão próximos um do outro.

A escrita é muitas vezes diária, ainda que durante períodos longos, e sem registo de ruptura entre os dois, não apareçam cartas. O neto de Maria Lamas, José Gabriel Pereira Bastos, acredita que “falta toda a correspondência amorosa trocada entre 1930 e 1938”, e que seria esse grupo que foi depositado na Biblioteca Nacional ou na Imprensa Nacional.

No espólio, há algumas cartas do início dos anos 30, nomeadamente as relativas a uma viagem a Londres e a Dublin, e a uma ida a Espanha como repórter de guerra. Na década de quarenta há cerca de uma carta por ano; e entre 1956 e 1959, e entre 1962 e 1966, não há nada a registar. As cartas terminam em 1973. Ferreira de Castro morre em 1974.

Maria Lamas desfilou no 1º de Maio de 1974 com o jornalista Mário Neves

Maria Lamas desfilou no 1º de Maio de 1974 com o jornalista Mário Neves

Os livros que Lamas não conseguiu publicar

No espólio, organizado pela filha Maria Cândida, também não estão os livros que Maria Lamas anuncia numa entrevista publicada na revista “Vida Mundial”, em 1973, da autoria de Regina Louro: “Tenho agora em mãos uma obra começada em Paris. Chama-se ‘Tempo de Exílio’ e espero ter o livro pronto no fim do ano. Além disso, tenho já concluído um romance, ou melhor uma trilogia. ‘As Confissões de Sílvia’, de que apenas encontrei publicada a primeira parte: ‘O Despertar’. As outras duas ‘O Caminho’ e ‘A Luta’ não podem, por motivos, que a minha vontade não basta para remover, ser publicadas”.

Maria Lamas foi a coordenadora de uma publicação periódica, "As 4 Estações", da qual só sairam três dos quatro números previstos. Entre os colaboradores contavam-se Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo e Júlio Pomar. Aí foi publicada a primeira das três partes do romance "As Confissões de Sílvia". Outras duas permanecem inéditas

Maria Lamas foi a coordenadora de uma publicação periódica, "As 4 Estações", da qual só sairam três dos quatro números previstos. Entre os colaboradores contavam-se Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo e Júlio Pomar. Aí foi publicada a primeira das três partes do romance "As Confissões de Sílvia". Outras duas permanecem inéditas

Em 1976, Maria Lamas regressa ao tema, em entrevista a Dionísio Domingos, na revista ‘Flama’: “Sabe, eu levei a minha vida a pensar e, durante cinquenta anos, não pude falar. Os meus livros não podiam ser publicados sem dar folha por folha à censura. Era como nos jornais. Quando eu fiz ‘As Mulheres do Meu País”, ‘As Mulheres do Mundo’”.

O jornalista fala-lhe no livro “As Confissões de Sílvia” e Maria Lamas diz: “É a história da mulher daquela época: São três volumes, ‘O Despertar’, ‘O Caminho’ e ‘A Luta’. Dá a trajetória da vida da mulher nesse tempo. Eu sou uma das mulheres que despertou. Era como as outras: sou de classe média. Abri os olhos e nunca mais os quis fechar. Ainda hoje, há muitas dificuldades a vencer.”

Em Sintra, no Museu Ferreira de Castro, também há cartas de Maria Lamas a Ferreira de Castro que corroboram este relacionamento, nomeadamente um postal enviado de Colares. E no espólio da escritora há duas cartas da mãe de Ferreira de Castro dirigidas a Lamas, a agradecer-lhe por lhe ter dado notícias do filho quando este recupera de uma septicemia no hospital.

Ferreira de Castro, um ser instável

Nas cartas enviadas a Maria Lamas, Ferreira de Castro revela-se um homem acossado pela tristeza e pela depressão. Numa delas o escritor anuncia à sua “boa amiga”: “Se receber esta missiva é sinal de que eu não verei mais os seres humanos como meus irmãos”. Logo de seguida acrescenta: “Devo dizer-lhe que até ao último momento pensei na grandeza da sua alma, na nobreza dos seus sentimentos, na fidelidade do seu afecto e nessa luz inesgotável (...) Partirei com essa recordação, com essa oferenda extraordinária que o destino me deu”. Não há mais assunto. Não é de uma viagem que Ferreira de Castro fala, mas de algo que não pretende claramente nomear. A letra é firme, e parece ter sido desenhada por um gesto veloz, de quem escreve um recado.

Estando guardada no espólio de Maria Lamas, pressupõe-se que esta carta, datada de 1953, tenha chegado ao destino, ou seja a Maria Lamas. Ferreira de Castro morre muitos anos mais tarde. Mais precisamente em 1974, pouco depois de ter testemunhado o 25 de Abril e de ter desfilado na Alameda durante o 1 de Maio, onde foi entrevistado pelo realizador brasileiro Glauber Rocha.

A possibilidade de suicídio que essa carta, de 1953, sugere não será uma surpresa para Maria Lamas. Vinte anos antes dessa epístola, Ferreira de Castro já quisera tentar o suicídio, na sequência da morte, por razões até hoje desconhecidas, da sua primeira mulher, Diana de Liz. Uma enorme tristeza toma conta do seu espírito.

Há outras razões além da morte que pesam sobre ele, e que passam pela estranheza que sente perante si mesmo. Desse espírito que o toma e que poucas alegrias lhe concede, Ferreira de Castro vai falando ao longo da viagem à Grã-Bretanha, que faz em 1930, na companhia do amigo e romancista Assis Esperança. Ferreira de Castro não esconde a tristeza com que lida, embora tente aquietar a “boa amiga”, garantindo-lhe que já não é o mesmo homem de Lisboa.

Chega a escrever a Maria Lamas, de manhã, à tarde e à noite, como acontece no dia em que parte de Londres com destino a Dublin. A viagem dura apenas um dia, mas alimenta várias cartas. Ferreira de Castro escreve-lhe na véspera da partida, na manhã em que parte, durante a viagem de comboio, durante a viagem de barco, e ainda à chegada, deslumbrado com a paisagem: “Saí às oito e meia de Londres e cheguei à costa às duas da tarde. A paisagem, esplêndida! Soberba! Nem nisso, minha amiga, nós podemos bater [lhes]. Que surpreendentes panoramas. Embebidos numa doçura enorme, numa leve melancolia. Ladeámos algumas praias famosas aqui, aí ignoradas. São verdadeiros recantos de sonhos. Que pena que tive que as pessoas que eu mais estimo não viessem comigo. Foi a única nuvem negra esta manhã.”

Ferreira de Castro chega a enviar uma carta a Maria Lamas em que insinua a possibilidade de se suicidar

Ferreira de Castro chega a enviar uma carta a Maria Lamas em que insinua a possibilidade de se suicidar

Nesse dia, Ferreira de Castro confessa-se muito mais confiante naquilo que é, no modo como os outros o veem. Um breve episódio dá-lhe um novo alento, e é o início de uma viagem de regresso a si próprio: “Eu sentia que o meu sorriso, que doida a minha expressão, sem ser afectado, sem ser estudado era cativante. Eu não me via ao espelho, mas sentia que era assim... Via-me de soslaio, nos olhos de duas inglesas, que almoçavam numa mesa vizinha e que me fitavam (...) com uma insistência que eu próprio, homem, não me sentia capaz de ter com uma mulher. Não duvido nada que essa loira sonhe esta noite comigo. Eu é que tenho a certeza que não vou sonhar com ela, porque não gosto das loiras, contudo gostava que você me tivesse visto esta manhã, sentado no comboio. Que querido está o F. de Castro (...) – diria a minha amiga. Também sou da mesma opinião. Isto deve ser do balanço do navio, que faz andar a cabeça à roda... E ao escrever estas últimas linhas verifico que me estou afastando de mim como o barco em que sigo se está a afastar da Grã-Bretanha. Regresso a mim próprio. Acendo um cigarro – escrevo-lhe do mar, e já sou outro. Estive alguns minutos a pensar. Compreende? Devo chegar a Dublin às seis horas da tarde.”

O episódio é um raio de luz, tendo em conta que a nuvem negra não é um raro acontecimento na vida dele. Ferreira de Castro é um homem que se sente muitas vezes deprimido. Numa dessas primeiras cartas confessa-se resignado perante o facto de ser “um ser instável”, ainda que isso venha a propósito da solidão, ou das várias solidões que diz ter sentido em Lisboa, e que no meio do mar, perante a imensidão, parecem mais fáceis de aceitar: “Há aqui um silêncio de casa abandonada” (...) Se não fosse o mar dir-se-ia que estávamos na simples residência dum excêntrico que mandou fazer uma casa com o feitio dum navio. Quereria escrever-lhe muito mais ainda, mas estou com pena do meu amigo, a quem abandonei há mais de uma hora e que só por acanhamento não me veio interromper ainda, (...) pois como já lhe disse tem medo de estar sozinho. Vou tentar habituá-lo a conhecer a solidão no mar.”

Uma solidão atenuada pelos jogos de Bridge que numa ocasião em que joga com o único sul-americano dos “29 companheiros de travessia” se vê obrigado a defender a “honra” nacional, conforme descreve ao detalhe numa das cartas.

Ferreira de Castro quer romper com o passado: “Antigamente eu gostava, por vezes, de viver para poder acumular recordações para o futuro. Hoje, talvez, gostasse de “destruir todo o meu passado, todas as minhas recordações –Todas!!”

Há uma recordação que lhe é particularmente dolorosa. A do lugar onde nasceu, Ossela, e de onde partiu ainda criança, depois da morte do pai, para ir trabalhar para um seringal no Brasil. (Ao mesmo tempo, também Maria Lamas, se perdia noutro fim do mundo, em África.)

Numa das cartas que escreve no Natal que passa com a família, Ferreira de Castro não percebe porque é que ele destoou deles, porque é que eles, vivendo uma vida simples e miserável, conseguem ser mais felizes do que ele e não se sentem tão atormentados.

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