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Vida Extra

Todas as cartas de amor são ridículas e outras nem chegam a sê-lo

As grandes cartas de amor foram todas concebidas em papel. Saramago terá mesmo dito que nunca uma lágrima molhará um e-mail

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Cortesia Coleção Berardo

Fernando Pessoa, ou Álvaro de Campos, sabia do que falava. Todas as cartas de amor são ridículas. O poema é a mais acertada descrição do género. A epistolografia amorosa quase sempre se revela embaraçosa para grandes autores, sejam eles Dostoievski ou James Joyce, Beethoven ou Napoleão. A carta de amor estipula uma intimidade que, no papel, e as grandes cartas de amor foram todas concebidas em papel ou não as teríamos hoje disponíveis para a curiosidade ou emulação, raramente traduz a beleza encriptada da poesia ou a grandiosidade sociológica da ficção. Quer isto dizer que as melhores cartas de amor foram as inventadas ou sugeridas nos grandes romances e nos grandes poemas de amor. Creio ter sido Saramago quem disse que nunca uma lágrima molhará um e-mail e é verdade. No papel podemos tatear o sulco salgado e apreciar a dor de quem a escreveu. Se houver dor.

Há cartas de amor que nem chegam a ser cartas de amor, incluindo as de Fernando Pessoa a Ofélia. Comecemos por estas. Pessoa não era dado a sentimentalismos situados numa longitude e latitude afastadas da sua cósmica inteligência. O amor pode ser comezinho e Pessoa decerto sabia que era, mas teve, como temos todos, a humana tentação de o sentir e, mais do que isso, de o expressar em palavras. Embora a carta de amor esteja em declínio no WhatsApp, no Facebook e no Twitter, não há espaço nem cabeça, no tempo de Pessoa, na dobra do século XIX para o XX, do romantismo e do realismo para a modernidade, ainda era um género considerado. Um autor, um artista, devia a si próprio e à sua biografia umas cartas de amor. As damas ainda precisavam da sedução epistolar antes de sucumbirem à sedução fatal. E o telemóvel ainda não tinha sido inventado.

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