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De Portugal ao Japão. Embarque connosco numa viagem através do tempo

As relações entre Portugal e o Japão têm quatro séculos. Uma exposição no Palácio de Ajuda, com peças raras e algumas inéditas, conta a história de que é feita a história dos dois países. Até 27 de março na Galeria de Pintura do Rei D. Luís

Fomos até ao Palácio da Ajuda espreitar a exposição "Uma História de Assombro, Portugal -Japão séculos XVI-XX" para ver através dos objetos as histórias do maravilhamento e da estranheza — e também de terror e do espanto — que atravessaram quatro séculos de relações entre Portugal e o Japão. A curadoria é de Alexandra Curvelo e Ana Fernandes Pinto.

Mapas, relicários e cruzes. Pergaminhos traçados a carateres de ouro. Uma imponente armadura samurai do tempo dos senhores da guerra oferecida a um rei português e taças de porcelana ou delicados tabuleiros de laca com desenhos de paisagens do oriente. É a partir de um guião visual construído através de fragmentos de imagens de vídeo e de um conjunto de peças raras que chegaram de várias instituições portuguesas e japonesas e de coleções particulares que nos são revelados os grandes acontecimentos que marcaram as relações comerciais, políticas e religiosas entre Portugal.

Lista de presentes que o rei D. Luis recebeu do último shogun do Japão

Lista de presentes que o rei D. Luis recebeu do último shogun do Japão

D.R.

A história começa no momento do primeiro encontro, em 1543, com o desembarque dos marinheiros portugueses na ilha de Tenegashima e é interrompida em 1639, quando o Japão se fecha ao Ocidente na sequência das missões de evangelização que resultaram na perseguição e na expulsão dos missionários jesuítas. Só serão retomadas em meados do século XIX, depois de o Japão receber um ultimato dos Estados Unidos da América para se abrir ao Ocidente e ser conduzido a assinar um tratado comercial e de paz.

Para assinalar a abertura das relações diplomáticas e comerciais entre o Japão e as potências políticas de então — Estado Unidos da América, Inglaterra, França e Itália — chega à América, no final do ano de 1860, uma aparatosa comitiva de enviados de Tokugaw Yoshinobu, último Shogun do país do Sol nascente.

Em Nova Iorque, a multidão junta-se na Broadway, para ver passar os samurais que causam espanto com os seus quimonos e as armas dos clãs, verdadeiros guerreiros feudais de um território que durante quase dois séculos se manteve em profundo isolamento. O acontecimento é tão marcante que Walt Whitman, o poeta, lhe dedica um poema e no imaginário coletivo dos americanos fixam-se imagens que mais tarde serão transformadas em cinema.

Representação de uma atriz de teatro kabuki (primeiro quartel do século XVII)

Representação de uma atriz de teatro kabuki (primeiro quartel do século XVII)

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Dois anos depois, é a vez da Europa receber a comitiva nipónica e render-se ao deslumbre do exotismo que chega do Oriente. Em Paris o fotógrafo Nadar expõe uma série de retratos feitos no seu famoso estúdio, eternizando nas suas imagens as poses austeras a corte do imperador e os últimos samurais.

Também Portugal, que integra o grupo de países que tem direito de assinar o tratado de amizade e comércio com o Japão por via da posse do território de Macau, recebe a visita dos senhores da guerra. Mas em Lisboa os enviados do Shogun e a passagem das exóticas figuras, que tanto espanto tinha causado na América e em Paris, parecem ter passado quase despercebidas e é brevemente relatada em duas notícias de jornal.

É sob a vigência do rei D. Luís - uma semana depois do seu casamento com Maria Pia - que a comitiva diplomática dos samurai é recebida na Sala do Trono do Palácio da Ajuda, para assinar os documentos cuidadosamente passados nas grafias dos dois países em rolos de pergaminho inscritos a tinta de ouro. E trocarem magníficos presentes protocolares, que só chegam meses depois da visita dos ilustres convidados, num barco carregado de sedas e porcelanas, escrivaninhas e caixas lacadas, enviadas no outro lado do mundo em memória de um passado comum.

Elmo de armadura japonesa samurai (século XVII-XIX)

Elmo de armadura japonesa samurai (século XVII-XIX)

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A armadura do rei

Do role das preciosidades que se trocaram entre Portugal e o Japão para selar o tratado de amizade entre países e se guardaram no Palácio da Ajuda, o mais valioso presente que o monarca português recebeu foi uma armadura completa de um Samurai japonês, assinada e datada do século XIX, acompanhada pelos respetivos arreios do cavalo do século XVII. Na Europa, também reis como o de Itália e a Rainha Vitória tiveram direto a um presente desta envergadura. Terá o Rei D. Luís experimentado e montado em cima do seu cavalo vestido de Samurai? Estas peças, que estiveram guardadas durante anos, foram agora analisadas e restauradas, e são pela primeira vez apresentadas ao público.

Detalhe de um biombo de duas folhas, com a representação dos 'Bárbaros do Sul', os Namban-jin (século XVII-XVIII?)

Detalhe de um biombo de duas folhas, com a representação dos 'Bárbaros do Sul', os Namban-jin (século XVII-XVIII?)

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Os Bárbaros do Sul

Denominados como "os bárbaros do Sul" os mercadores portugueses chegavam às ilhas do extremo Sul do Japão, na Nau do Trato, como ficou conhecido o navio negro que ligava Nagasáqui a Macau e depois fazia rota do Índico e do Atlântico. O navio era carregado de sedas, porcelanas, ouro, peles de tigre e de leopardo, uma espécie de barco do tesouro, que ficou impresso nos Biombos Namban, pelo traço dos pintores japoneses como se se trata-se de um iconografia local. Estes biombos, que começaram a ser realizados em finais do século XVI, além de peças artísticas de qualidade rara, são também um documento visual precioso.

São Francisco Xavier pregando na corte japonesa do Daimyõ de Yamaguchi

São Francisco Xavier pregando na corte japonesa do Daimyõ de Yamaguchi

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Taça batismal com o caranguejo de São Francisco Xavier

Taça batismal com o caranguejo de São Francisco Xavier

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Jesuítas

O caranguejo, representado nesta taça batismal, é o símbolo de Francisco de Xavier. Entre 1549, Francisco de Xavier, o "apóstolo do Oriente", chega a Kagoshima, com os padres da Companhia de Jesus para iniciar a missão cristã. Vinte anos depois, o número de japoneses convertidos rondava os 100 mil, assinalando-se esta missão como uma das mais bem sucedidas no Oriente. Em 1614 todos os missionários são expulsos do Japão.

Em 1625, os critãos foram vítimas de perseguição sistemática

Em 1625, os critãos foram vítimas de perseguição sistemática

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Mártires

Em 1625, o Xogum Tokugawa decretou a proibição do cristianismo e os cristãos foram vitimas de perseguição sistemática. Os que resistiram tornaram-se mártires, o culto passou a ser clandestino. Na sequência desta medida, os mercadores espanhóis e portugueses são impedidos de estabelecer qualquer tipo de relações comerciais e interditos de entrar no Japão.

De Portugal chega a enviar-se um navio de mercadores, todos são mortos, e uma comitiva diplomática que é recebida com uma frota de guerra no porto de Nagasaki e regressa para avisar o rei que o Japão está definitivamente isolado para o mundo.

Os únicos ocidentais autorizados a fazer comércio são os holandeses, mas ficam confinados a só poder entrar numa uma pequena ilha a Sul, de onde e traziam, lacas, sedas, porcelanas, preciosidades raríssimas e muito cobiçadas que se vendem nos mercados da Europa a peso de ouro.

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