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Vida Extra

Nas garras da fama

A ascensão e a glória de uma pop star como parábola para o século XXI

Jorge Leitão Ramos

Celeste tem no nome a profecia de chegar aos céus? Pelo menos é o que a máquina de criar famosos lhe diz quando a desgraça e a sorte se conjugam, como um alinhamento de planetas em carta astrológica favorável. Tudo começa em 1999. Celeste é uma miúda igual a todas as outras que um dia vê a escola onde estuda atacada por um daqueles assassinos jovens que disparam em todas as direções no destino de fazer tanto sangue quanto possível. Sobrevive ao massacre com uma grave lesão na coluna — mas consegue recuperar. Certa noite vai a uma cerimónia de homenagem aos seus colegas mortos e canta uma canção que a irmã compôs. Transmitida pela televisão, torna-se um fenómeno de sucesso nacional. Um produtor de música pop percebe o filão e aborda-a. A ideia é transformar a miúda igual a todas, na miúda que todas querem ser. Celeste tem 14 anos e vai ser lançada como a próxima pop star global.

A primeira metade do filme — ‘Genesis’ — mostra o alvor de uma vedeta e a determinação que é preciso para se chegar ao Olimpo. A determinação, o sofrimento, o narcisismo, a energia que são precisos. E a solidão a crescer ao mesmo tempo que crescem as multidões à volta, em adoração. Tudo embalado pela voz funda de um narrador a que não falta cinismo. Mas é na segunda parte — ‘Regenesis’ — que o filme ganha o seu maior impacto e as suas maiores contradições. Nessa segunda parte passou bem mais de uma década. Estamos em 2017 e Celeste tornou-se uma diva na esteira/confluência de Britney Spears, Madonna ou Lady Gaga, uma explosão de cor, som, máscaras, superprodução, um fenómeno de massas daqueles que, como se afirma explicitamente em “Vox Lux”, não querem que as pessoas pensem, só querem que se sintam felizes. Celeste passou por altos e baixos, tem uma filha adolescente que nunca desejou e a que pouco se dedica, está rodeada de atenção até ao sufoco, de compromissos intermináveis e de um pânico de declínio.

Passou por drogas e escândalos, por vícios e por feridas na vida. Agora vai dar um concerto na sua terra natal, no momento em que a carreira está down e pode ficar up. E tem medo. Para agravar tudo, há um atentado terrorista na Croácia em que os terroristas usam uma máscara idêntica à que Celeste utilizou num videoclip. De repente, é como se os terroristas estivessem a afirmar que também ouviam a sua música. De repente, é como se Celeste estivesse na raiz de um dos males deste século XXI. Mas não é por tudo isto que o filme se empina nesta segunda parte, é pelo ímpeto da interpretação de Natalie Portman (que só nesta zona do filme aparece) que parece uma deusa da futilidade e uma criança a querer sair de uma brincadeira que se tornou pesadelo, sem ser capaz, e ao mesmo tempo agarrando o jogo como se nele estivesse toda a razão para a existência. Dir-me-ão que na pilha energética que Natalie Portman se transforma está, também, um overacting próximo do cabotinismo — e que incomoda. É verdade (e, já agora, cabe sublinhar o trabalho de Jude Law, no papel do empresário protetor/mefistofélico, todo feito em subtileza, inteligência, perspicácia). Mas, ainda assim, agarra-nos, numa vertigem de planos-sequência que não vão ter a lado algum já que, deveras, Brady Corbet, autor total (realização e argumento) do filme, não tem resposta para as suas perplexidades.