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Jenny Wang: “Saudade é uma palavra nova para o público chinês”

Em Lisboa, onde esteve a propósito da exposição “Saudade” — organizada pela Fosun Foundation no Museu Berardo e que conta com obras de artistas portugueses e chineses —, a presidente da instituição com sede em Xangai mostrou a sua visão da arte contemporânea

João Solano

Esta é a primeira exposição da Fosun Foundation em Portugal, mas tem um nome bastante português, “Saudade”. Quão importante é para vocês apresentar trabalhos que reúnem as heranças culturais dos dois países em conjunto?
É muito importante, até porque Portugal e China têm uma cultura artística similar, embora isso não seja muito explorado. Foi também por isso que convidámos a curadora, Yuko Hasegawa, para estudar a fundo a relação entre os dois países, selecionando depois artistas e obras nas quais encontrasse ligações.

E o que é que encontrou durante o processo?
A Yuko descobriu alguns artistas, jovens artistas, muito ativos em Portugal e na China. E percebeu também que existem muitos pontos de ligação entre eles. Essencialmente, foi à procura de pinturas, esculturas, vídeos e trabalhos multimédia que mostrassem isso mesmo.

Vivemos num tempo em que tudo está conectado, mas a saudade, esse sofrimento causado pela distância ou pela falta de alguma coisa ou alguém — e que dá nome à exposição —, parece continuar a fazer sentido aqui. Ou estou enganado e é algo do passado, que já não tem o mesmo significado hoje em dia e que apenas é trazido para a mostra através das obras de arte?
Bem... Tanto Portugal como a China têm uma grande história, uma história longa, pelo que diria que “Saudade” reflete isso mesmo. Reflete a História. Assim sendo, é preciso explicar também que a curadora quis contar uma história sobre o tempo, sobre a cultura que os dois países partilham, assim como o que se está a passar agora, no presente, entre ambos. Por exemplo, saudade é uma palavra nova para o público chinês. É importante combinar os dois países, seguir as pistas existentes e descobrir o que têm em comum (mas também o que diferencia) os artistas e as obras destes dois lugares.

Nem sempre esteve ligada ao sector da arte. Antes de estar à frente da Fosun Foundation, trabalhava na comunicação social, foi jornalista e pivô. O que trouxe do sector dos media para o mundo das artes?
Acho que está tudo ligado: ser jornalista, ser pivô de informação ou ser gestora de um centro de arte... Tudo o que fiz até agora está ligado ao público, à criação de trabalhos diretamente para o público. Como jornalista fazia uma peça televisiva em vídeo ou apresentava programas, ao passo que agora centro-me em determinado sujeito artístico, em determinado assunto, mas sempre para que ele seja visto, para que mais pessoas conheçam determinado trabalho. O nosso objetivo é que cada vez mais pessoas conheçam o nosso centro de arte — ou as nossas exposições —, que saibam mais sobre arte. No fundo é sempre dar algo a conhecer.

E quanto aos públicos, quais são as principais diferenças que verifica entre os consumidores de notícias e os consumidores de arte?
São situações completamente distintas. Hoje é possível ver televisão em qualquer lugar, toda a gente pode ver televisão num restaurante, em casa, no escritório... Mas nem toda a gente vê arte, nem toda a gente tem acesso a ela. Por exemplo, na China a arte é um mercado com potencial. A nossa paixão é educar as pessoas. É preciso promover a cultura e dar a conhecer artistas às pessoas é uma das formas de o fazer.

É em Xangai que a vossa sede está localizada e a cidade tem hoje um grande fulgor no que à arte contemporânea diz respeito. O que é que mudou recentemente e qual foi a receita?
Nos últimos anos, Xangai ganhou muitos museus privados e com exposições de grande qualidade, pelo que acho que o segredo é a colaboração entre as entidades. Mais até do que a competição entre elas. Partilhamos informação, falamos sobre a programação de cada um, criamos programas públicos partilhados. Na Fosun Foundation temos relações muito boas com os outros museus. Por exemplo, os membros do nosso conselho consultivo vêm de outros museus, não só de Xangai mas também de outras cidades chinesas. Trazem muito boas ideias e fazem grandes sugestões.

É um modelo possível de replicar noutras cidades em que a Fosun Foundation está presente?
Neste momento a maior parte das cidades não tem uma audiência tão grande como a que existe em Xangai. Mas há novidades para o futuro. A Fosun Foundation vai estar em Milão com um espaço próprio novo, e também noutros lugares na China como Shangdu ou Guangzhou. Talvez tenhamos presença ainda noutros locais. Vamos também fazer itinerâncias das nossas exposições, depois da estreia em Xangai, noutras cidades.

E têm identificado novos artistas que valha a pena seguir?
A Fosun Foundation tem uma coleção própria, pelo que estamos muito atentos ao mercado da arte. Encontramos [novos artistas] em galerias e feiras de arte, mas também em leilões. É assim que se encontram novos nomes. Temos a peça do José Pedro Croft, que está no exterior do Museu Berardo e que faz parte da nossa aposta em arte pública. Croft é o primeiro português que temos na coleção.

A Fosun Foundation tem espaços em várias cidades do mundo, mas Lisboa ainda não é uma delas. Há planos para a abertura de um centro de arte em Portugal?
A Fosun investiu na Fidelidade e eles têm um edifício clássico com uma galeria no primeiro piso, a Chiado8 – Arte Contemporânea, pelo que essa pode ser uma opção de colaboração. O nosso programa pode passar por lá.

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